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FRAPORT AG

Gigante alemã que comprou aeroportos em leilão de Temer foi financiada por governo nazista

Investigação mostra como a Fraport AG, que levou os aeroportos de Porto Alegre e Fortaleza nesse leilão do dia 16 de Março, foi "amplamente financiada pelo governo nazista" na década de 1930. Saiba mais sobre essa história.

quinta-feira 16 de março| Edição do dia

Lendo a “nada interessada” matéria do Zero Hora sobre o leilão entreguista de Temer, eis que me deparo com a seguinte informação: “fundada em 1926, a alemã Fraport começou a operar no Frankfurt Airport”. A data instigou a investigação de sua trajetória ao longo do século XX e encontramos uma extensa matéria que conta um pouco sobre a história desta que é hoje uma das maiores empresas do ramo de aeroportos do mundo e que arrematou o Salgado Filho, em Porto Alegre, e o aeroporto de Fortaleza hoje (16) em leilão feito pelo governo Michel Temer.

Para além do aeroporto gaúcho, que ficará sob sua administração por pelo menos 25 anos, a gigante alemã controla também aeroportos pelos quatro cantos do planeta, do Peru à São Petersburgo, da China à Bulgária, passando pela Índia e mais recentemente a Grécia que vendeu boa parte de seus aeroportos para agradar os planos de austeridade de Angela Merkel e a Troika, a empresa lucra horrores com privatizações, concessões e leilões que servem para vender as riquezas e serviços nacionais para estrangeiros.

Pois bem, a Fraport AG, antes Südwestdeutsche Luftverkehrs AG, iniciou seus negócios na metade da década de 1920, mas foi com o governo nazista de Hitler que passou a ampliar significativamente suas operações. Aos leitores da língua inglesa, e antes que me acusem de calúnia ou algo do tipo, segue aqui o link da matéria que fala da relação. A empresa começou com a criação de um aeroporto no subúrbio da cidade de Frankfurt, num local chamado Rebstock. Em menos de dois anos o aeroporto já contava com a movimentação de mais de 2 mil vôos e toneladas de cargas, alcançando o quinto lugar na lista de maiores aeroportos do país. O crescente mercado de transporte aéreo sofreu uma queda forte com a queda da bolsa de Nova York em 1929, bem como distintas áreas da produção e comércio, estendendo a crise capitalista para os quatro cantos do mundo. O país de Karl Marx foi brutalmente afetado pela crise e, combinado com as sucessivas derrotas da classe trabalhadora durante as revoluções do final da década de 1910 e durante a década de 1920, foi pavimentado o caminho para a ascensão do nazismo.

Hitler vence em 1933 e tem como uma de suas iniciativas o esforço em construir aeroportos. Um deles foi o de Frankfurt. Como diz a matéria, “o governo de Adolf Hitler simpatizava com a ideia de construir um aeroporto em Frankfurt e a transformou em um de seus gigantescos projetos de criação de empregos” (qualquer semelhança com o discurso de criação de empregos de Donald Trump não é mera coincidência). Em 1936, portanto, foi inaugurado o aeroporto de Rhein-Main localizado estrategicamente na junção de duas vias nacionais, e que hoje é o maior aeroporto da Alemanha - Frankfurt Airport. Ainda segundo a matéria, e escondido no site da empresa, a criação desse aeroporto, de propriedade da atual Fraport AG, “foi amplamente financiado pelo governo nazista”.

Durante a guerra o aeroporto saiu das mãos da Fraport e passou para as mãos da Luftwaffe, máquina de guerra nazista. Inclusive foi utilizada mão de obra escrava, oriunda do campo de concentração que abrigava mulheres judias ao lado do aeroporto, para operar no aeroporto. Ao fim da guerra, o aeroporto ficou nas mãos dos americanos durante um tempo.

Antes que algum direitista simpático ao Füher nos “acuse” de algo do tipo “mas naquela época todos eram nazistas ou apoiavam o governo nazista. Não podemos os culpar pelos feitos do passado”, diria que é importante sempre fazer jus aos antepassados e sermos rigorosos com os fatos. Primeiro lugar que nem “todos” apoiavam o governo nazista ou algo do tipo. É um crime retirar a responsabilidade de uma empresa que teve relações de colaboração com Hitler na década de 1930, inclusive ter sido financiado por seu governo. Como Balzac disse, “por trás de toda grande fortuna, há um crime”. A história do capitalismo, e as empresas que lucraram com o nazismo que o diga, é recheada de grandes fortunas e crimes, e a empresa que arrematou o Salgado Filho na manhã dessa quinta-feira é uma delas. Para além de compartilhar com Temer e outras empresas estrangeiras a felicidade do leilão de hoje, a Fraport AG também compartilha com a Volkswagen, a Bosch, a Coca-Cola, a BMW e tantas outras gigantes o rol de capitalistas que colaboraram com Adolf Hitler e seu regime nazista.

Para não ficar só na história, vale lembrar algumas coisas. A postura entreguista que Temer está tomando a mando do capital financeiro e do setor empresariado não é exclusividade sua. Sabemos que o golpe foi dado para aplicar os ajustes que a burguesia requer com mais agilidade e intensidade, mas a privatização de aeroportos (ou concessão, como parte da casta política insiste em diferenciar como se houvesse um abismo entre as duas…), tem sido feita por governos ditos progressistas há um tempo. Inclusive, a própria Fraport arrematou 14 aeroportos (sim, 14!) em venda relâmpago na Grécia em 2015, como mostra essa reportagem do The Guardian. Por acaso ontem (15 de Março de 2017) foi o dia em que iniciam as suas operações no país heleno. O responsável pela venda foi o governo de Alexis Tsipras, da coalizão de esquerda radical Syriza, uma espécie de PSOL grego, como parte da troca pelo pacote de resgate financeiro organizado pela Troika. Para quem não sabe, a Troika hoje é principalmente controlada pelo governo alemão da Angela Merkel. Ou seja, em troca de um resgate financeiro para pagar as dívidas com os bancos, eles exigem a privatização de diversas áreas da sociedade, como aeroportos e portos. Quem saiu ganhando com isso foi a Fraport AG. Algo semelhante está ocorrendo no Brasil não só com Temer. A memória não nos deixa esquecer da venda de alguns aeroportos durante a administração petista com Dilma: Viracopos, em Campinas, Galeão, no Rio, Cumbica, em Guarulhos, o de Brasília… tudo para as mãos da iniciativa privada.

Por último, vale lembrar que para além da gigante alemã, outras três empresas de capital estrangeiro saíram felizes da vida com o leilão dessa quarta-feira: a francesa Vinci ficou com o aeroporto de Salvador e a suíça Zurich levou o projeto de Florianópolis. Os investimentos realizados pelas empresas estão estimados em R$ 6,6 bilhões. Ou seja, estamos falando de muito dinheiro que está sendo investido. Mas uma pergunta (retórica) nos cabe, para tanto dinheiro investido, quem sairá ganhando é o povo brasileiro ou o capital estrangeiro? Por que alguém em sã consciência iria investir generosas quantias para não ganhar nada em troca, a não ser "benefícios" para uma população de outra nação? Em meio a tantos discursos delirantes e vira-latas que vemos por aí, de que a entrega de nossas riquezas e serviços beneficia o país, às vezes é importante a constatação do óbvio: a privatização serve única e exclusivamente para ampliar os lucros dos capitalistas. Cabe aos trabalhadores, que protagonizaram uma enorme demonstração de forças ontem no 15M, uma saída para essa sociedade capitalista que tanta miséria cria e criou ao longo de sua história.




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