TRABALHADORES DA SAÚDE

Frente à segunda onda, enfermeira diz "Estamos extremamente cansados"

Nesse quase 1 ano de pandemia no Brasil foi possível ver diversos relatos, vídeos e fotos da rotina extenuante dos profissionais de saúde na linha de frente. As notícias dos avanços em torno da vacina chegam como um alívio profundo para esses profissionais que desde março de 2020 tiveram suas vidas e rotinas de trabalho profundamente impactadas. As consequências da pandemia nos serviços de saúde, principalmente no setor público onde prima historicamente o sucateamento e a precarização, impactam mental e fisicamente esses profissionais.

sábado 9 de janeiro| Edição do dia

Diante da segunda onda no país, e do colapso cada vez mais evidente dos serviços de saúde em diversas capitais, o cenário que adentramos 2021 estruturalmente não se diferencia do pico da primeira onda. A situação é crítica, segundo levantamento realizado pelo Observatório Fiocruz Covid-19, em pelo menos 7 capitais que estão com a taxa de ocupação dos leitos em UTI superior a 80%. Ao limite de capacidade de leitos se soma o cansaço, desgaste, perdas de colegas, familiares e pacientes, a suspensão de férias, a falta de EPI’s e, em muitos casos como no Rio de Janeiro, atrasos de salários e demissões.

Uma pesquisa de julho, da Associação Paulista de Medicina, apontava que entre os médicos as consequências mais comuns citadas eram ansiedade (69,2%), estresse (63,5%), sensação de sobrecarga (50,2%) e exaustão física e emocional (49%). Em outubro o brasil já se encontrava perto da marca de 1000 profissionais de saúde mortos por COVID, as equipes de enfermagem com sua maioria de mulheres e negros ocupam o primeiro lugar nessa triste lista. Nesse mesmo mês, no Rio de Janeiro, mais de 15 mil profissionais de saúde não receberam seus salários.

Esses trabalhadores relatam o cenário desesperador em que já se encontram as unidades de saúde hoje. Para dar conta dos casos que chegam viram noite e dia, não recebem condições de alimentação, descanso ou trabalho adequadas. Falta de EPI’s e medicamentos. Em entrevista ao El País uma enfermeira relata que: “Estamos extremamente cansados e precisamos de material. Faltam luvas, falta gente para trabalhar! Em uma ala com 37 pacientes é impossível uma equipe de nove pessoas atender a todos. Os pacientes não conseguem pegar o copo d’água ao lado. Estão fracos e nós não conseguimos sequer dar água para todo mundo”. Essa é a realidade dos trabalhadores da linha de frente de enfrentamento a COVID por todo país.

Bem longe de avanços que permitissem melhoras significativas nos últimos meses para aqueles que receberam aplausos e foram chamados de Heróis, o que é possível observar é uma política criminosa. Antes mesmo de qualquer baixa realmente significativa e duradoura nas taxas de infecção, ocupação de leitos e outros medidores da COVID, leitos foram fechados, contratos emergenciais finalizados e toda estrutura montada às pressas e superfaturada durante a 1° onda foi desmontada.

Na contramão de uma gestão racional frente à pandemia da Presidência, governadores e prefeitos fecham leitos mesmo diante de uma segunda onda em outros países que já anunciava o que viria pela frente por aqui também. O Brasil está na lista dos 10 países que mais sofrem com a COVID-19, ficando atrás em números de mortes per capita (a partir de 100 mil habitantes) apenas de Peru, Bélgica e Bolívia, respectivamente. Mas não só as mortes poderiam ter sido evitadas como também as cenas escandalosas de profissionais de saúde descansando em banheiros, refeitórios ou ao lado de pacientes como mostraram denúncias de hospitais públicos de Manaus.

Para 2021, além de uma forte disputa política entre Dória e Bolsonaro, que envolve também governadores e prefeitos de todas as cidades, entorno do plano de vacinação o que está colocado é que serão os trabalhadores a seguirem pagando caro pela crise econômica, política e sanitária. Os profissionais da saúde têm sido também linha de frente para pagar essa conta. A previsão do Governo Bolsonaro é de 9,3 bilhões de cortes no orçamento de 2021, que afetará fortemente o orçamento da saúde em nome do Teto de gastos.

Sabemos que não é verdade que funcionou apenas os serviços essenciais, inúmeros atendimentos desde a primeira onda foram de trabalhadores ou familiares contaminados em decorrência da sede de lucro capitalista. Para saciar essa sede milhares de trabalhadores, principalmente em empregos precários e terceirizados, como entregadores de aplicativo e trabalhadoras da limpeza, que foram obrigados a todo dia ter que se esmagar em transportes lotados, em longas horas de trajeto pela cidade, pois ficar em casa não era uma opção, ainda mais sem auxílio emergencial. Nos próprios serviços de saúde, grupos de riscos não foram liberados em base ao argumento de falta de pessoal que não se sustenta diante dos números de desempregados no país.

Depois de 1 ano de pandemia poderíamos estar diante de um outro cenário. Onde os profissionais da saúde não estivessem sendo levados ao limite físico e mental. Poderíamos estar melhor preparados se a opção não tivesse sido o investimento em estruturas temporárias como os hospitais de campanha, mas sim a reabertura dos que estão fechados. Se contratar profissionais, reforçar o financiamento público de pesquisas e organizar todos os recursos e a sociedade para um enfrentamento sério e racional da pandemia tivesse sido colocado em primeiro plano.

Ainda hoje, depois de todos esses meses de pandemia, continua necessário e urgente a luta por uma série de medidas emergenciais como a contratação de trabalhadores para ampliação do SUS e para os serviços essenciais, o financiamento público das pesquisas, a reconversão da indústria para produção dos insumos necessários, a testagem massiva para organizar a quarentena, a renda emergencial no valor da média salarial das famílias trabalhadoras, R$ 2 mil, e a proibição das demissões. Só um conjunto de medidas assim, e um plano de vacinação controlado pelos trabalhadores, poderá poupar vidas de trabalhadores e usuários da saúde. Isso só se fará possível pela via de uma mobilização independente dos trabalhadores contra Bolsonaro e seu negacionismo e contra todas as alas desse regime do golpe.




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