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Fome.doc: o documento-metáfora de uma tragédia organizada pelo capital na voz da Cia. Kiwi

A Cia. Kiwi está prestes a encerrar a temporada de seu novo trabalho, Fome.doc, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. A peça é cortante e precisa, e faz uma anatomia da fome – não da fome como fenômeno biológico, mas social e histórico do modo de produção capitalista – sob muitos olhares. Todos profundamente valiosos.

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 14 de agosto| Edição do dia

A peça é um riquíssimo e profundo documento, que é o que se propõe ser, e que a meu ver é um dos melhores elogios que se pode fazer a uma montagem teatral que se propõe a “escovar a história a contrapelo”, como diria Walter Benjamin.

E é também uma metáfora, muitas metáforas, compostas na verdade de um mosaico de documentos que se combinam para criar esse retrato doloroso e preciso – e comovente. Mas para me fazer claro: não digo aqui que ao ver Fome.doc se vê uma peça comovente tal como um “melodrama dos famintos”, que nos leva às lágrimas piedosas dos que assistem à tragédia alheia para depois dormir mais profundamente o “sono dos justos” em sua cama. Falo de comovente em seu sentido original: de mover-se junto, mobilizar-se. A dor pungente da fome retratada em carne viva pela Kiwi é para levar a atuar junto a nossos companheiros, que, como diz também a peça, se origina do termo cum pani do latim, ou seja, aquele com quem compartilhamos nosso pão.

Podemos dizer, apenas para fins “didáticos”, que Fome.doc se divide em duas “anatomias” documentais da fome: de um lado, sobre os que causam a fome; de outro, sobre os que a sofrem. Nada, digamos, “inventado” pela Kiwi, mas sim recolhido em uma pesquisa ampla, profunda e variada sobre o tema, aqui e ali. Com um trabalho cuidadoso e esclarecedor, o trabalho dos tecedores desse documento-metáfora, de compor cuidadosamente os laços entre documentos que, a um observador cujo olhar não esteja aguçado como o da Kiwi, poderiam parecer muito pouco afeitos a uma composição.

Partimos de uma mesa: uma mesa de teatro. Como diz o texto da peça, “Em uma mesa banquetes são oferecidos. Em uma mesa banquetes são organizados. Decididos. Em uma mesa, também, a fome pode ser decidida. Organizada. Porque a fome, como o banquete, são decisões”. E é nesse ponto nodal que a Kiwi faz brotar o argumento da peça e sua importância central como obra: não se trata de meramente apresentar retratos da fome, mas com o mosaico de documentos sobrepostos explicar o que deveria ser óbvio, mas não é por conta do véu ideológico que todos os dias os “documentos” dos jornais, das igrejas, das escolas e tantas outras instituições capitalistas colocam sobre nossos olhos.

Eles nos dizem que a fome é um fenômeno da natureza. Fruto de secas, enchentes, catástrofes, talvez até guerras – mas jamais uma guerra que diga respeito a alguém mais do que seus esfomeados em algum “canto miserável do mundo”. A fome, repete esse senso comum construído a duras penas nas nossas cabeças, é por falta de alimento.

A mesa com a qual a Kiwi abre o espetáculo e os olhos do público já diz de cara que não: a fome é planejada. Ela é cuidadosamente arquitetada. Nas mesmas mesas onde são organizados e oferecidos banquetes. E essa peça quer nos co-mover a ver por quem e porque a fome é arquitetada. E nos indignarmos, não mais com a falta de comida, mas com os que lucram com a sua falta na mesa alheia.

Os depoimentos pessoais, assim, não estão ali a serviço de apenas mostrar a dor da fome nos estômagos reais de quem deixou cada pedaço desses documentos históricos da barbárie chamada capitalismo; mas sim desnudar, ao lado de discursos dos causadores da fome, o laço indissolúvel entre ambos.

As remoções de Belo Monte e Altamira; os monopólios milionários do agronegócio, dos pesticidas, das empresas multimilionárias que proliferam seus tentáculos por todas as etapas da produção de alimento, da semente aos mercados, da colheita à distribuição. Entre elas se destacam Cargill e Monsanto, e para melhor explicitar sua arquitetura da fome a Kiwi coloca no palco as próprias palavras dessas empresas, para que elas mesmas exponham, na voz dos atores, até onde sua hipocrisia e seu cinismo conseguem ir.


foto: Facebook da Cia. Kiwi

Em uma passagem brilhante, a peça amarra os discursos de meados do século XIX de José de Alencar em defesa da escravidão como “um mal necessário” e uma espécie de “marco civilizatório” - que com um cinismo deslavado ele afirma defender com o espírito de quem sofre com o próximo e se comove com sua dor – às palavras cortantes de Carolina Maria de Jesus em sua luta contra “a escravidão de hoje, a fome”, um século depois de escrito o texto de Alencar. Depoimento da classe dominante e da escritora negra em luta do pão para os filhos: nesse contraste condensado magistralmente a Kiwi expõe uma síntese brilhante da luta de classes no Brasil, das ligações profundas da fome e da miséria do século XX às raízes escravocratas da burguesia brasileira.

Outros textos percorrem o palco desenhando de forma cortante o documento da fome como fenômeno social do capitalista: dos relatos nos campos de concentração feitos por Primo Lévi à luta do povo palestino nos dias de hoje; dos depoimentos da fome nos manguezais de Josué de Castro e dos retratos do sertão feitos por Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto aos retratos da fome na África e sua ligação com a luta antiimperialista e anticolonialista nas palavras de Aimé Césaire e Frantz Fanon.

Não pretendo aqui esgotar a riqueza do retrato apresentado pela Kiwi em suas duas horas de peça. Mas arrisco-me a dizer que a força vital que vem de Fome.doc está também para além desse trabalho cuidadoso de pesquisa e costura dos relatos para a criação desse documento-metáfora rasgante. Está também no fato da Kiwi saber que o que faz ali é teatro; e que teatro, por si só, não vale. Só vale o teatro quando está na e para a vida real, concreta. A força está em que sabem que “quem tem fome tem pressa”, uma pressa urgente que é maior que a imensidão de um palco. E por isso, terminam seu relato com uma reflexão sobre isso, que finalizam dizendo: “derrubam-se as paredes do teatro. Aparentemente, estamos no mundo”. Sim, estamos no mundo. Derrubemos as paredes do teatro e vamos, companheiros, mudá-lo.

Ficha Técnica

Roteiro e direção geral: Fernando Kinas
Elenco: Fernanda Azevedo e Renan Rovida
Direção e execução musical: Eduardo Contrera
Iluminação: Aline Santini
Cenário: Márcia Moon
Figurino: Madalena Machado
Assistência e operação de luz e som: Clébio Souza (Dedê)
Edição de imagens: Luiz Gustavo Cruz
Confecção de marionetes: Celso Ohi
Preparação vocal: Roberto Moura
Vozes gravadas: Marilza Batista e Félix Sánchez
Programação visual: Camila Lisboa (Casa 36)
Fotografia: Filipe Vianna
Cenotécnico: Lázaro Batista Ferreira
Produção: Luiz Nunes e Daniela Embón
Divulgação: Canal Aberto Assessoria de Imprensa
Realização: Kiwi Companhia de Teatro
 
SERVIÇO

De 14 de julho a 20 de agosto de 2017
Sextas e sábados 21h e domingos 20h
CCSP (Centro Cultural São Paulo) – Espaço Missão
Lotação: 90 lugares
R. Vergueiro, 1000 – Paraíso
Ingressos: 10,00 (inteira) e 5,00 (meia)
Telefone: (11) 3397-4002
Duração: 130 min
Classificação: 14 anos




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