SEMANÁRIO

Feminismo para os 99%: estratégias em debate

Andrea D’Atri

Celeste Murillo

Tradução de Paula Vaz de Almeida; revisão da tradução de Laura Scisci; imagem de Juan Atacho.

Feminismo para os 99%: estratégias em debate

Andrea D’Atri

Celeste Murillo

Agradecemos a leitura crítica das companheiras da nossa corrente internacional, cujos comentários foram fundamentais para a elaboração deste artigo.
No início de 2018, intelectuais de Nova York fizeram um chamado à construção de um “feminismo para os 99%”. Inspirado no movimento Occupy Wall Street, de 2011, o Manifesto, assinado por Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, foi lançado no último 8 de março. A propósito de sua publicação, elaboramos algumas reflexões sobre a nova onda feminista e a perspectiva anticapitalista propostas por suas autoras.

O lugar de origem do Manifesto de um Feminismo para os 99% (doravante, apenas Manifesto) [1] não é acidental: os Estados Unidos, em 2017, foi um dos epicentros do ressurgimento do feminismo, com a Women’s March [2], em tradução livre, que convocou milhares de pessoas a repudiar o presidente Donald Trump no primeiro dia de seu mandato [3]. Tampouco é o que vem à luz quando os debates sobre perspectivas e estratégias no feminismo se multiplicam, uma vez que, como assinalam suas autoras, o movimento encontra-se em uma “encruzilhada”.

Sua aparição enquadra-se no incipiente questionamento da hegemonia do feminismo liberal que, durante décadas, monopolizou o discurso da igualdade de gênero, sem questionar a exploração do trabalho assalariado ou as múltiplas opressões que atravessam a existência da maioria das mulheres.

Nas páginas do Manifesto, encontram-se as marcas dessa época assinalada pela revitalização do feminismo e do movimento de mulheres, cujos protestos globais funcionam, ao mesmo tempo, como um canal de expressão da crescente insatisfação social experimentada nas sociedades capitalistas.

A partir do nosso ponto de vista, a raiz desse mal-estar – particularmente entre as mulheres – está afundada, por um lado, na contradição que existe entre os relativos graus de igualdade perante a lei alcançados por certos setores e as aspirações que isso, por sua vez, geram nas amplas massas; e por outro, na persistente desigualdade em face da vida que se aprofunda e se combina com uma multidão condenada a novas “ilegalidades”. Algo especialmente irritante, nas grandes metrópoles, para a geração que cresceu com a extensão de direitos e políticas que pretendiam conquistar uma suposta igualdade de gênero e o respeito à diversidade.

Trata-se de uma contradição que foi sendo incubada durante as décadas neoliberais, mas que a nova crise econômica eclodida em 2008 – que não se tornou tão aguda quanto a do crash de 1929, mas se mantém há mais de uma década – colocou em evidência ao desenvolver elementos da crise social, bem como da crescente ilegitimidade dos próprios regimes políticos. Essa situação motivou a nova onda feminista, expressando um desconforto que vai além do que as reivindicações conjunturais revelam.

Antineoliberais somos (quase) todos, mas quem são os anticapitalistas?

Essa crise orgânica colocou em questão a hegemonia da história neoliberal, deixando claro que uma minoria vive na riqueza mais obscena, às custas de levar, cada vez mais, milhões de seres humanos à miséria. Em 2011, o espanhol 15M, com seu lema “No somos mercancías en manos de políticos y banqueros [4] e depois o movimento Occupy Wall Street, que afirmou categoricamente: “Somos os 99%, vocês são o 1%” [5], foram as primeiras manifestações políticas de uma geração que se enfrentava contra o fato de que viveria em piores condições que a de seus pais.

Desde 2015, irromperam mobilizações massivas de mulheres, nas quais uma minoria – cada vez mais ativa – começa a reconhecer que a desigualdade de gênero não pode ser interpretada de maneira separada da desigualdade global gerada pelo capitalismo. Essa ideia está ganhando certa força, ainda que sem uma definição unívoca. Na maioria das vezes, esses feminismos que se dizem “anticapitalistas” apenas apontam as piores consequências das políticas neoliberais, mas não se propõem a acabar com o sistema. O que certamente torna-se cada vez mais nítido é a impotência desse feminismo liberal em responder aos problemas e às reivindicações das maiorias e, muito mais ainda, sua cumplicidade com a legitimidade das mulheres que ocupam espaços de poder nas democracias capitalistas e são gestoras da exploração. [6]

Portanto, com base nisso, o Manifesto declara que “Um feminismo anticapitalista se tornou imaginável na atualidade, em parte porque, ao redor do mundo, a credibilidade política das elites está desmoronando”. E propõem desafiar pela esquerda o feminismo corporificado em Hillary Clinton: “No vácuo produzido pelo declínio do liberalismo, temos a oportunidade de construir outro feminismo [...]” (o destaque é nosso, adiante retomaremos essa palavra). Elas pretendem “assinalar a via a ser percorrida a fim de alcançar uma sociedade justa” e “por que nosso movimento deve se tornar um feminismo para os 99%”. [7]

Acordos, dissidências e aquele que não se nomeia

O Manifesto avança, em seus diferentes capítulos organizados na forma de teses, por meio de definições que compartilhamos sobre a crise capitalista; sobre as raízes da violência de gênero e contra as soluções punitivas; sobre a normatização e a regulação da sexualidade sob o capitalismo e a necessidade de libertá-la.

Compartilhamos também da denúncia que fazem da violência racista e colonial, que se encontra na origem do capitalismo, e da perspectiva de destruição do planeta a que este conduz, contra a qual o Manifesto propõe um feminismo anti-imperialista, ecossocialista e internacionalista.

Sua repercussão em nível internacional é significativa para aqueles que, como nós, há décadas, vêm construindo uma corrente feminista anticapitalista, socialista e revolucionária, contra a posição hegemônica do feminismo tecnocrático liberal que ressignificou as lutas emancipatórias como um caminho progressista rumo à igualdade jurídica, ou seja, apenas como uma busca pela ampliação dos direitos nas democracias capitalistas que facilitam o desenvolvimento meritocrático (individual) de alguns. E para aqueles que, como nós, também em posição minoritária, souberam confrontar a resposta impotente do pós-feminismo que priorizou a desconstrução, quer dizer, a revisão de seus próprios privilégios, como se a opressão estrutural e sistêmica de certos grupos pudesse ser combatida, fundamentalmente, por meio de um exercício (individual) de autoconsciência.

Traz esperanças que, colocando no centro do debate a opressão das mulheres como estrutural no sistema capitalista e que, portanto, a saída pode ser apenas uma transformação radical e coletiva, o Manifesto teve uma grande recepção em escala global.

Mas como suas autoras propõem começar essa transformação? Para mudar essa situação pela raiz, o Manifesto diz que “o feminismo para os 99% tem como objetivo unir movimentos existentes e futuros em uma insurgência global de ampla base [8].

E isso é tudo, não se diz muito mais a esse respeito; o que nos faz pensar que há, em suas autoras, uma confiança ilimitada no poder dos movimentos sociais. Como se não fosse necessário preparar o confronto com o Estado (capitalista) – um grande ausente no Manifesto – que não só tem o monopólio da força, mas também possui múltiplos mecanismos de cooptação e assimilação desses movimentos contestatórios.

Não é uma coisa menor: enquanto alguns apenas concebem mudanças sociais como resultado da administração de recursos do Estado ou do trabalho parlamentar, isto é, como reformas; outros, idealizando o social, desprezam a luta política. Mas, infelizmente, sempre que os movimentos sociais radicais e transformadores desdenharam a luta na arena política, acabaram deixando com que seu exercício fosse monopolizado pelos setores reacionários e reformistas.

Quais são as tarefas preparatórias do feminismo para os 99% a fim de cumprir seu objetivo? As autoras antecipam uma resposta na Tese 11:

Devemos nos aliar, acima de tudo, com as correntes anticapitalistas da esquerda de todos os movimentos que também defendem os 99%.

Esse caminho nos confronta diretamente com as duas principais opções políticas que o capital oferece agora. Rejeitamos não apenas o populismo reacionário, mas também o neoliberalismo progressista. [9]

Diferentemente das autoras, não consideramos que existam vácuos na política, como assinalam nas primeiras páginas do Manifesto. A realidade indica que, para a crise da hegemonia neoliberal, não se apresenta apenas a alternativa do populismo reacionário, mas, ainda, outras opções políticas que também apoiam as democracias capitalistas e que, curiosamente, não são mencionadas no Manifesto. Aqui nos referimos aos populismos da esquerda ou aos neorreformismos como o do Syriza na Grécia, o qual, uma vez no poder, aplicou os planos de ajuste da troika da União Europeia contra o povo grego, ou o do Podemos, no Estado Espanhol, que deixou de ser a esperança dos “indignados” para se tornar um defensor do regime da Transição, implorando aos sociais-imperialistas do PSOE compor um governo de coalizão.

Não são exemplos isolados: diante do populismo da direita trumpista e do rearmamento do neoliberalismo “progressista”, ensaia-se uma terceira opção que, com suas diferenças, apresenta-se na qualidade de um “mal-menorismo” ou populismo de esquerda, em quase todas as latitudes.

As autoras do Manifesto se perguntam na Tese 4: “Será que aqueles que buscam lucros vão conseguir transformar as contradições sociais do capitalismo em novas oportunidades para acumular riqueza privada? Será que vão cooptar as tendências importantes da rebelião feminista, ao mesmo tempo que reorganizam a hierarquia de gênero? Ou será que um levante em massa contra o capital será, finalmente, o ‘ato pelo qual a raça humana, viajando em um trem desgovernado, aciona o freio de emergência’? [W. Benjamin]”. [10]

As respostas não podem ser antecipadas, porque nada disso será dado pelo simples desenvolvimento de eventos, mas pela luta das forças vivas. Trata-se da luta dos movimentos, da luta de classes; mas também da luta política que daremos hoje desmascarando aqueles que se apresentam como uma alternativa “mal-menorista” e representam a face mais afável das democracias capitalistas ante à deslegitimação de suas variantes tradicionais. Por isso, alertar que se preparam para “cooptar as tendências importantes da rebelião feminista”, a fim de evitar que seja verdadeiramente uma rebelião e, menos ainda, um “levante em massa contra o capital”, é uma tarefa do momento.

Ainda que o Manifesto omita um posicionamento explícito sobre esse setor político, em declarações públicas, duas das autoras já indicaram que – com maior ou menor desgosto – votarão em Bernie Sanders, o qual, com o discurso da redistribuição e falando de “socialismo”, participa das eleições norte-americanas como candidato do sanguinário Partido Democrata. Como se fosse possível, mudar o caráter do imperialismo norte-americano “a partir de dentro”, quando, na realidade, o que ocorre é o oposto: já está provado que o sistema acaba integrando os líderes mais carismáticos, assimilando os movimentos que enxergam neles os seus representantes.

Além disso, como bem sabem as autoras do Manifesto, esses 99% que os populismos de esquerda pretendem arrebatar à direita no campo eleitoral, não são um “povo” homogêneo, mas uma construção abstrata que inclui detentores de capitais médios e expropriados historicamente pelos grandes, médios e pequenos capitalistas, funcionários da elite cujos rendimentos são tão grandes que lhes permitem acumular propriedades e ter níveis muito altos de consumo, enquanto exploram o trabalho mal remunerado de babás, motoristas e cozinheiros sem documentos.

Os interesses das mulheres trabalhadoras e os interesses da pequena burguesia ou das burguesias nacionais – sócias menores e, às vezes, afetadas pelas grandes concentrações de capital financeiro, mas que vivem da exploração do trabalho de outras e de outros – não podem estabelecer um consenso a partir de uma mesma perspectiva política contra o “1%”.

Isso porque, ao contrário da matemática, em política, existem somas que permanecem. E isso se observa não somente na campanha de Sanders, mas também na Argentina, onde, sob os auspícios do Vaticano, uniu-se grande parte dos oponentes progressistas, de centro e direita, em uma “Frente de Todos” contra o governo Macri. Em ambos os casos, como em tantos outros países, tenta-se subordinar o movimento feminista a partidos políticos pequeno-burgueses ou burgueses (inclusive, imperialistas ou com grande ingerência eclesiástica!), que se esforçarão para sustentar o sistema capitalista, contra e apesar das mulheres [11].

Nós, ao contrário, consideramos que, de imediato, a tarefa de um feminismo anticapitalista deveria ser a de diferenciar com clareza quem são nossos aliados e quem são nossos inimigos.

Greve feminista: uma ponte entre a política de identidade e a política de classe?

A metáfora dos 99% baseia-se na atomização e na fragmentação das classes exploradas e dos setores oprimidos, durante as décadas da ofensiva neoliberal. No entanto, ainda que seja um fato, também é lícito mencionar que a restauração capitalista não apenas mudou a fisionomia da classe assalariada, mas também estendeu extraordinariamente o trabalho assalariado a nível mundial.

Pela primeira vez na história do capitalismo, as mulheres constituem, aproximadamente, 47% dessa numerosa classe, sem que tenham deixado de ser as principais responsáveis pelo trabalho gratuito de reprodução que se realiza no âmbito doméstico. No entanto, o que é verdadeiramente novo e desafiador é que, atualmente, 1,3 bilhão de mulheres (54% das pessoas em idade economicamente ativa) participam do mercado de trabalho [12], mudando drasticamente a aparência daquele “proletariado masculino branco” que só sobrevive na nostalgia das burocracias sindicais traidoras.

Parece-nos que essas mudanças na composição da classe socialmente majoritária (mas não absoluta) se expressam na adoção, por parte do movimento feminista, do termo “greve”, um método tradicional de luta do movimento operário. Isso porque, ainda que a maioria das organizações feministas não se proponha a isso [13], o lema da greve é uma ferramenta para que o feminismo – como um movimento policlassista ainda majoritariamente urbano, em que os setores ilustrados da pequena burguesia exercem a sua hegemonia política e ideológica – estabeleça um novo diálogo com setores cada vez maiores de trabalhadores assalariados.

É também uma arma para que elas possam desafiar as lideranças sindicais burocráticas, exigindo compromissos concretos com as demandas de uma parte cada vez mais majoritária de suas bases, que devem se mobilizar fora dos sindicatos para que essas reivindicações sejam ouvidas e, muitas vezes, nem sequer têm o direito de participar dessas organizações.

Consideramos que a “reinvenção” da greve destacada pelo Manifesto não significa batizar todas as ações feministas com esse nome, sejam elas quais forem, tampouco reivindicar a retração de tarefas nessa “visão abrangente do que é considerado questão trabalhista”, em que as autoras misturam de maneira confusa a greve do trabalho doméstico com a “do sexo e dos sorrisos ”. Como assinala Lorna Finlayson, sobre as limitações desses tipos de greves, “o abandono do trabalho remunerado golpeia o capitalista com a perda permanente de lucros. O abandono do trabalho reprodutivo não remunerado é menos direto. Se o trabalho assume a forma de atendimento a outras pessoas vulneráveis, como crianças ou idosos, o abandono pode não ser uma opção aceitável. No caso em que o trabalho não é uma questão de vida ou morte, como lavar roupas ou varrer a casa, a mulher o fará mais tarde ou o fará uma outra pessoa. Ou ninguém o fará e a casa vai ficar um pouco mais bagunçada. Na melhor das hipóteses, um marido ou um namorado poderão ter vergonha de fazer algo que normalmente é feito pela mulher. O capitalista não sofre; sequer percebe” [14].

A tarefa atual de um feminismo anticapitalista deveria ser lutar nos sindicatos, especialmente naqueles setores da produção e dos serviços altamente feminilizados, a fim de unir o que a burocracia divide. Mas, no Manifesto, que fala de classe trabalhadora, de greve, de anticapitalismo e de luta de classes, a burocracia sindical sequer é mencionada e, perigosamente, se atribui aos sindicatos em geral a política corporativa, econômica e corrosiva de suas direções.

Recuperar as organizações da classe assalariada das mãos dessa burocracia, para que sejam verdadeiras organizações democráticas de toda a classe que não fortaleçam, mas combatam as divisões entre nativos e migrantes, homens e mulheres, efetivos e terceirizados, com direito à sindicalização ou não, é também uma tarefa preparatória. Essas instituições de longa história no movimento operário, a partir dessa perspectiva, tornariam a greve muito mais efetiva e reconstruiriam uma ponte entre a classe assalariada e o movimento feminista que, de fato, esteve quebrada por quase um século. Contudo, por mais que o Manifesto se proponha a fornecer algumas ferramentas nesse sentido, parte de uma matriz da qual, ao contrário, vai alinhavando a negação de uma estratégia que o torna possível.

Por uma estratégia de classe, anticapitalista, revolucionária e socialista

Embora se desenvolva de maneira mais ampla no prefácio, a partir das primeiras teses, pode-se notar que as autoras concebem esse Manifesto no quadro conceitual da teoria da reprodução social. Assinalam que a afirmação de que o capitalismo funciona por meio da extração de mais-valia é incompleta; que existe “uma verdade que o capitalismo conspira para ocultar: o trabalho assalariado para o obtenção de lucro não poderia existir sem trabalho (na maioria das vezes) não assalariado da produção de pessoas. Portanto, a instituição capitalista do trabalho assalariado esconde algo além da mais-valia. Esconde suas marcas de nascença – a mão de obra de reprodução social que é a condição para que ela seja possível” [15].

Para as autoras, a atual crise capitalista é, fundamentalmente, uma crise de reprodução social, incluindo nesse conceito não apenas o trabalho doméstico não remunerado já mencionado, mas também os ramos de serviços que garantem a reprodução social com a exploração do trabalho assalariado, principalmente, de mulheres (saúde, educação etc.). Um terceiro aspecto dessa crise de reprodução social é o que diz respeito à relação que o imperialismo cria entre mulheres com melhores salários ou profissões liberais vivendo na metrópole e que são “libertadas” do trabalho doméstico, por meio de contratações (precárias) de migrantes, mulheres racializadas etc. Mulheres que, por sua vez, delegarão a outras pessoas – cujo lugar é ainda mais vulnerável nesta cadeia – o trabalho de reprodução de suas próprias casas: meninas ou idosas que cuidarão de irmãos ou netos, limparão e cozinharão, sem remuneração alguma.

Contra toda a versão grosseiramente economicista (sindicalista) do marxismo, essa declaração não é insignificante para nós. Como as autoras do Manifesto, também consideramos que a classe trabalhadora não é constituída apenas por aqueles que trabalham “em fábricas ou em minas”, que também fazem parte da classe trabalhadora que atua “no campo e nas residências particulares; em escritórios, hotéis e restaurantes; em hospitais, creches e escolas; no setor público e na sociedade civil; o precariado, as pessoas desempregadas e aqueles que não recebem remuneração em troca de seu trabalho.” [16]

Mas, se não encontrarmos grandes diferenças na descrição sociológica da classe trabalhadora, nas definições políticas que daí derivam encontramos as principais controvérsias.

Em primeiro lugar, porque, sua matriz teórica as leva a sustentar que todos esses setores que compõem a classe trabalhadora têm “igual importância” [17] quando se trata de enfrentar – com a possibilidade de afetar profundamente – o sistema capitalista. E daí deriva que “a luta de classes inclui batalhas em torno da reprodução social” [Nota: Idem – destaque do original], citando como exemplos as lutas por educação gratuita, moradia ou transporte público, entre outros. Mais adiante, argumentam que essas lutas “formam a linha de frente de projetos com potencial de alterar a sociedade por completo.” [18]

Nós, ao contrário, consideramos que a classe trabalhadora participa desses movimentos diluída em uma “massa cidadã”, por causa da negação de suas lideranças sindicais para que essa força possa liderar as justas demandas de amplos setores em uma luta anticapitalista. E, para isso, as burocracias sindicais também atuam em consonância com as direções políticas de outras classes e setores que também participam dos movimentos sociais, tentando canalizar suas demandas através dos partidos políticos do regime, para evitar qualquer radicalização.

As autoras do Manifesto, de outro modo, argumentam na Tese 11, sobre o trabalho assalariado industrial, que “insistir em sua primazia não é estimular, e sim enfraquecer a solidariedade de classe.” [19]

Contudo, ferir de morte o capitalismo requer o poder de fogo daqueles setores que dirigem as principais fontes de produção e também dos serviços que permitem que os lucros capitalistas sejam realizados. E, é claro, também exige que esses setores (onde a participação das mulheres é agora muito maior do que há algumas décadas) estabeleçam uma aliança com todos os outros setores das classes oprimidas no capitalismo.

Por isso consideramos que é uma tarefa do feminismo que se diz anticapitalista lutar contra as direções corporativas do movimento operário que mantêm uma separação arbitrária e funcional do capitalismo, entre as demandas econômicas dos assalariados e as demandas democráticas que afetam as mais amplas massas. Mas, da mesma forma, é necessário lutar contra as direções (também corporativas) dos movimentos sociais que, negando o poder de fogo dos setores concentrados da classe trabalhadora contra o capital, tentam subordinar essas lutas democráticas a uma perspectiva estritamente reformista, cada vez mais utópica no contexto da crise.

Dito em outras palavras, o feminismo anticapitalista é um feminismo da e a partir da classe trabalhadora, ou seja, do sujeito social ao qual o capitalismo se estrutura em uma posição estratégica para seu funcionamento (e é a partir daí que estabelece suas alianças), ou acabará se dissolvendo em um movimento impotente para transcender o horizonte das reformas. Está claro que, para tornar efetivo esse potencial objetivamente revolucionário dos setores mais concentrados da classe assalariada, este deve se transformar em uma disposição efetiva e consciente para conduzir, até mesmo, setores de outras classes também oprimidas pelo capital.

Conseguir isso também é uma tarefa preparatória. Isso porque, diferentemente de quando emergiu a onda feminista dos anos de 1970, que foi parte dos processos de radicalização social e política em todo o planeta, ainda predominava nessa época uma perspectiva reformista. No entanto, não somos pessimistas, porque novos fenômenos da luta de classes e fenômenos políticos internacionais (como essa nova onda feminista) podem ser o prenúncio de uma nova etapa.

Se o feminismo anticapitalista aspira a não ser um mero espectador de eventos, mas a intervir decisivamente na realidade para transformá-la, hoje tem a tarefa de travar essa batalha política e ideológica para que grande parte do movimento adote essa perspectiva revolucionária, preparando-se para os futuros acontecimentos.

Um marxismo estratégico – oposto teórica e politicamente às correntes economicistas que o transformaram numa brutal caricatura totalitária – tem o desafio não apenas de elaborar análises eloquentes sobre o capitalismo patriarcal, como as publicadas no Manifesto, mas também de aventurar hipóteses estratégicas e construir uma organização, para que as oprimidas e exploradas, ao lado de outros oprimidos e explorados, possam passar – quando as circunstâncias o permitirem – da dura e paciente resistência para a conquista da vitória.

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FOOTNOTES

[1Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, Feminismo para os 99%, Um Manifesto, Boitempo Editorial, 2019. (N.T.: As autoras deste artigo citam a seguinte publicação: Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, Manifiesto de un feminismo para el 99%, Herder, Barcelona, 2019. Para esta tradução, contudo, tomamos a edição publicada no Brasil.

[2N.T.: Marcha de Mulheres, em tradução livre.

[3A crescente visibilidade da violência sexista – femicídios, abuso sexual, impunidade para os acusados e culpabilização das vítimas – foi o motor da maioria dos protestos em massa protagonizados por mulheres em outros países, como na Argentina (Ni Una menos, 2015), na Itália (Non una di meno, 2016) e no Estado Espanhol (Yo sí te creo, 2018); mas também de campanhas nas mídias sociais nos Estados Unidos (#MeToo, 2017) e na França (#BalanceTonPorc, 2017). Ao mesmo tempo, outras mobilizações surgiram da tentativa de evitar a restrição do direito ao aborto (Polônia, 2016), denunciar a diferença salarial (Islândia, 2018) ou exigindo o aborto legal (Argentina, 2018), motivando massivas ações organizadas de mulheres. (N.T.: Destaca-se, ainda, a “muralha de mulheres” na Índia pela igualdade de gênero, que alcançou um total de 620 km de extensão).

[4N.T.: “Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros”, em tradução livre.

[5N.T.: Na realidade, o lema em inglês é “We are the 99%”, “Nós somos os 99%”, em tradução livre, sem o complemento, que parece ter sido incluído pelas autoras deste artigo.

[6Para uma leitura sobre o feminismos nas décadas do neoliberalismo, ver Andrea D’Atri e Laura Lif, “La emancipación de las mujeres en tiempos de crisis mundial”, Partes I e II, em Ideas de Izquierda n. 1 e 2, ago./set. 2013. Disponível em: http://www.fundacion.uocra.org/documentos/recursos/articulos/La_emancipacion_de_las_mujeres_en_tiempos_de_crisis_mundial.pdf e http://www.laizquierdadiario.com/ideasdeizquierda/wp-content/uploads/2013/08/La-emancipacion-de-las-mujeres.pdf

[7Arruzza, Bhattacharya e Fraser, Feminismo para os 99%, Um Manifesto, p. 28-29 – destaque do original.

[8Idem, p. 128 – destaque do original.

[9Idem, p. 93 – o destaque em itálico são das autoras e o destaque em negrito é nosso.

[10Idem, p. 49.

[11Mencionamos o exemplo da Argentina, porque é um dos lugares onde as mobilizações de mulheres adquiriram, nos últimos anos, mais desenvolvimento (Ni uma menos, Marea Verde*) e, por isso, é citado pelas autoras do Manifesto como um exemplo inspirador. (*N.T.: Referência à “Maré Verde”, movimento de mulheres pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, iniciado, originalmente, em 2005 e que ganhou novamente as ruas em 2018).

[12Taxa de participação na força de trabalho, mulheres (percentagem da população feminina entre os 15-64 anos), estimativa modelada pela OIT. Taxa de força de trabalho total, dados do Banco Mundial, disponíveis em https://data.worldbank.org/.

[13Salvo no Estado Espanhol, onde, na greve feminista do último 8 de março, conseguiram fazer com que uma grande parte dos sindicatos aderisse

[14Lorna Finlayson, “Travelling in the Wrong Direction”, em London Review of Books, v. 41, n. 13, 4 jul. 2019.

[15Arruzza, Bhattacharya e Fraser, Feminismo para os 99%, Um Manifesto, p. 28-29.

[16Idem, p. 55.

[17Idem.

[18Idem, p. 56.

[19Idem, p. 95.
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