Mundo Operário

DEMISSÕES NA INDÚSTRIA

Fechamento da Ford: disputas interburguesas e ataque a um polo de organização sindical

Além da demissão de 3,3 mil trabalhadores (2,8 efetivos e 1,5 terceirizados), o Dieese calcula que o fechamento dessa fábrica terá um impacto na cadeia do setor, principalmente na indústria de autopeças, capaz de provocar o corte de outros 24 mil empregos. Em reestruturação global para garantir seus lucros perante as concorrentes em meio à crise e à guerra comercial entre EUA e China, a Ford busca fechar uma fábrica no seio do movimento sindical brasileiro.

quinta-feira 21 de fevereiro| Edição do dia

Foto: foto mercado - Folha de São Paulo

Além da demissão de 3,3 mil trabalhadores (2,8 efetivos e 1,5 terceirizados), o Dieese calcula que o fechamento dessa fábrica terá um impacto na cadeia do setor, principalmente na indústria de autopeças, capaz de provocar o corte de outros 24 mil empregos e afetar toda a região.

A montadora afirmou que vai continuar as vendas de caminhões F-4000 e F350 e do Fiesta até o final dos estoques. “Não faz sentido manter produção em São Bernardo sem manter a produção de caminhões”, afirmou uma representante da companhia.

Segundo a Revista Valor, a Ford tem boa posição na venda de caminhões leves e médios, mas participação muito pequena no segmento de semi-pesados e não atua no de pesados, setor que, por conta do agronegócio, tem puxado as vendas de veículos de carga no país. Sem investimentos no segmento, a empresa optou por encerrar a produção de caminhões no Brasil.

Assim como a General Motors, que na onda dos “direitos ou empregos” de Bolsonaro acaba de aplicar em uma de suas fábricas um pacote com inúmeras medidas da reforma trabalhista, os empresários da Ford se descabelam para pensar em medidas que façam com que a crise no setor automobilístico não afete seus enormes lucros, mas sim os poucos direitos e emprego dos trabalhadores, mais uma vez os fazendo pagar por uma crise que não criaram.

A crise no setor automobilístico e a saída dos patrões: jogá-la nas nossas costas

As feridas da crise de 2008 ainda seguem em aberto e a burguesia ainda não encontrou saída para saná-las. Como já analisamos, a solução encontrada foi pontual, impedindo o crack ao injetar dinheiro na economia e reduzir as taxas de juros. Entretanto isso levou à contradição de bolhas financeiras, baixos investimentos produtivos e uma demanda que segue baixa alimentada pelos cortes fiscais que se traduzem em desemprego e diminuição dos salários.

Este cenário impacta o setor automobilístico que, para ampliar suas vendas, em especial das chamadas classes médias, depende de dois elementos escassos na crise: crédito, já que essas camadas compram carro financiado; e consumo, mas não há quem consuma em tempos de ameaça de desemprego, instabilidade financeira etc. Junto a isso há a popularização de empresas como Uber, que diminuem a demanda por carros.

Nesse contexto de baixo consumo, as perdas na China e na Europa ajudaram a reduzir os lucros da Ford em mais de 50% no ano passado. O presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters, afirmou que a montadora fechou o ano de 2018 com um prejuízo de US$ 678 milhões nessa região. A montadora busca então para convencer os investidores de que está se movendo rapidamente para reestruturar a empresa.

Fecha em São Bernardo e investe aonde?

Segundo a Financial Times divulgou em janeiro, Jim Hackett, presidente-executivo da Ford, disse que 2018 deve ser visto como "o ano entre os negócios que não foram projetados corretamente e os negócios que sabemos que vencerão", acrescentando: "Não estou feliz com a forma como nos apresentamos na China". Essa infelicidade de Hackett vem dos resultados decepcionantes da empresa na China, onde esperava perdas reduzidas, entretanto tiveram que arcar com perda de US $ 515 milhões no quarto trimestre. Colabora para sua tristeza o fato da rival General Motors anunciar que os lucros do ano de 2018 foram maiores do que o previsto anteriormente e os lucros aumentarão ainda mais em 2019, apesar de vendas de carros fixos ou em declínio nos EUA e na China.

Segundo analistas, os negócios que não foram projetados corretamente ao qual se refere o presidente-executivo têm a ver com a demora da Ford em trazer novos modelos ao mercado em comparação com os seus concorrentes no exterior. Seus concorrentes, como a SAIC-GM (joint venture da General Motors na China), lançaram novos produtos mais rapidamente e apostaram nas vendas de carros de luxo na China, que se mantiveram bem durante o ano passado, entretanto os fabricantes de gama média-alta como a Ford, a Jaguar Land Rover, a Peugeot e a Hyundai foram pressionados pela crescente concorrência dos rivais chineses.

Desta forma, há uma enorme disputa em torno do mercado chinês, que mesmo que esteja com seus piores resultados desde 2012, é ainda o mais lucrativo, e no último trimestre ultrapassaram os EUA. Além disso, outra enorme vantagem para essas empresas em estar na China, que é o acesso ao mercado e a exploração da força de trabalho chinesa, ao mesmo tempo que investe em novas tecnologias e concede à China o know-how da sua produção e inovação tecnológica. A produção na China, sob a base das condições de trabalho precaríssimas, possui margens de rentabilidade maiores do que a de outros países como Brasil e até mesmo EUA.

Quem não tem China vai de Camaçari ou de reforma trabalhista

Essa aposta no mercado oriental possui seus riscos em virtude da guerra comercial com os EUA. A taxação do ferro e alumínio e de tudo que é produzido na China coloca um cenário de incertezas para esses investimentos da multinacional estadunidense em território chinês. É assim que, observando essa instabilidade, buscam manter a produção no que há de mais próximo do paraíso da exploração chinês em outros países.

Na indústria brasileira, o mais próximo das condições de trabalho precárias da China, com baixo salário, baixa taxa de trabalhadores efetivos etc. não está no ABC, mas sim em polos industriais como o de Camaçari, onde a Ford pretende manter a fábrica. Além disso, a política de isenção de impostos que há na Bahia faz com que ainda faça sentido, do ponto de vista da patronal, manter a produção lá, ainda que isso não signifique grandes investimentos na área muito menos que não ocorrerão ataques, pelo contrário, a Ford iniciou esse ano já demitindo 700 trabalhadores da planta.

Se manteria, além da planta de Camaçari, apenas a de Taubaté, que produz motores e transmissões para diversos países, como Argentina, México, Venezuela e África do Sul, além de abastecer a produção brasileira. Mantém-se não sem ameaças: em negociação com os funcionários que entraram em greve contra demissões nesse ano, ficou acordado um Plano de Demissão Voluntária (PDV) aos horistas para reduzir o efetivo de 160 trabalhadores considerados “excedentes” na unidade. O acordo também autoriza o congelamento dos salários neste ano e a redução de jornada com desconto proporcional.

Há que verificar se não virão também em Taubaté ataques mais profundos como os ocorridos na General Motors, que decidiu manter a fábrica de São José dos Campos, mas não sem antes implementar a reforma trabalhista até o final para os trabalhadores, trazendo o modelo de exploração chinês para um dos maiores polos de organização dos trabalhadores.

Ataque a um polo de organização dos trabalhadores

Não é a toa que a Ford está fechando sua fábrica em São Bernardo do Campo. O movimento sindical do ABC é tradicional e desde a ditadura os trabalhadores da região são vanguarda das lutas. A história da Ford se confunde com a história do movimento sindical brasileiro, nas greves de 78 e 79, sendo palco da organização de comissões de fábrica clandestinas.

Foi a partir das conquistas dessas lutas que os operários industriais conseguiram garantir, mesmo numa transição pactuada da ditadura para a democracia, uma condição um pouco melhor se comparada com outros segmentos, como serviços, em que prima o trabalho terceirizado, informal etc.

Na indústria há elevado nível de formalidade e salário base maior em relação à média nacional. Esses são direitos que, do ponto de vista da burguesia em meio à crise, já não há mais como manter sem que isso afete seus lucros. Não podem continuar nem as poucas concessões que o PT garantiu com a mão esquerda para os trabalhadores, enquanto com a mão direita fazia com que os banqueiros nunca lucrassem tanto, além de manter rédeas curtas contendo o enorme potencial de mobilização da CUT. Desse cenário é que surge todo o apoio que a FIESP e setor industrial fizeram em prol do golpe, da reforma trabalhista e da reforma da previdência, e todo o discurso antipetismo, a prisão do Lula e a necessidade de Bolsonaro de “varrer os vermelhos do Brasil” para acabar com qualquer resquício de direitos.

É urgente unificar as lutas contra a reforma da previdência e as demissões na Ford!

Assim como a tragédia de Brumadinho, assim como a reforma trabalhista na GM, o Escola Sem Partido aos professores, o Sampaprev aos servidores municipais e a reforma da previdência, é isso que os capitalistas reservam a nós trabalhadores: que paguemos a conta dos seus lucros. Para fazer com que tragédias como essas não se perpetuem e com que o fruto do nosso trabalho seja revertido para a população em vez de ir para um punhado de empresários gananciosos, a única forma possível é tirando essa indústria das mãos destes, estatizando e colocando os próprios trabalhadores para controla-la.

Não há como se manter na estratégia derrotista da CUT, de mandar “todo mundo pra casa” diante do fechamento da fábrica e ir pedir ajuda a Bolsonaro em vez de organizar um plano de lutas que unifique os metalúrgicos da região, junto com outras categorias que também serão atingidas pelo fechamento e as reformas. Unificar também essa luta com aqueles que hoje já se mobilizam contra os ataques do governo, como os servidores municipais de São Paulo.

Palavras vazias e chamados de mobilização que não são construídos na base, como a “Assembleia Nacional dos Trabalhadores” no último dia 20, não bastam. É preciso fortalecer essa greve criando uma coordenação entre os trabalhadores das fábricas e outras categorias atingidas para assim organizar um grande encontro de trabalhadores, que vote um plano de lutas em comum a ser construído em cada local de trabalho, para travar uma verdadeira batalha de classe contra esse fechamento e contra a reforma da previdência de Bolsonaro.


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