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Fantasias de carnaval: apropriação cultural ou liberdade para ser?

O debate sobre a apropriação cultural vem dividindo as redes sociais durante o carnaval. Fantasiar-se de índio ou simplesmente usar um cocar, por exemplo, é considerado apropriação, pois "índio não é fantasia", nem o cocar é acessório festivo. O mesmo também vale para os adereços considerados femininos ou africanos.

quarta-feira 14 de fevereiro| Edição do dia

O debate sobre a apropriação cultural vem dividindo as redes sociais durante o carnaval. Fantasiar-se de índio ou simplesmente usar um cocar, por exemplo, é considerado apropriação, pois "índio não é fantasia", nem o cocar é acessório festivo. O mesmo também vale para os adereços considerados femininos ou africanos.

Por outro lado, algumas escolas de samba vêm trazendo à tona com seus carros alegóricos, a partir sim de suas fantasias e de seu samba a discussão sobre os povos oprimidos, como negros, indígenas, mulheres e LGBT’s, demonstrando o caráter político e subversivo do carnaval ao fazer protesto contra o Temer, quando denuncia a escravidão passada e moderna. Foi possível ver isso no desfile da escola de samba Tuiuti que denunciou a escravidão do passado e a atual escravidão assalariada que se concretizou com a reforma trabalhista. E não só isso, blocos de rua no Rio de Janeiro confeccionaram camisetas com o tema “Sai, sai, cri, cri, cri, Crivella”, entre diversas outras manifestações por todo o Brasil.

O carnaval brasileiro, pela sua origem popular, majoritariamente composta por setores oprimidos, é muitas vezes o único momento em que milhões de pessoas, fatigadas pela rotina esgotante, tem para extravasar, um sopro de liberdade, que é simplesmente inaceitável na rotina maçante e depressiva da sociedade capitalista. O carnaval brasileiro, enquanto manifestação cultural e evento massivo, já é em si uma mistura completa de várias culturas de vários povos e etnias. Tem sua origem pagã, nos povos europeus, foi adaptada pela Igreja Católica como forma de controlar e cristianizar as pessoas, no Brasil se fundiu com a cultura negra e indígena. É inimaginável o carnaval que conhecemos sem a musicalidade negra e a estética, muito influenciada pelos povos originários, como plumas, penas, pinturas corporais e nudez, além de todo caráter coletivo de ocupação dos espaços públicos.

Para debater seriamente sobre fantasias no carnaval é preciso olhar esse contexto. Se levarmos até as últimas consequências a lógica inserida no conceito de “apropriação cultural” – conceito desenvolvido por George Lipstz, a saída para o carnaval brasileiro é uma: extinguir já o carnaval, porque o que prima nele são infinitas apropriações culturais.

Para ilustrar melhor: como podemos falar em apropriação cultural em um país em que as pessoas comem sushi, macaxeira, macarrão, feijoada, acarajé, tabule e as mais diversas comidas típicas de culturas determinadas? Então só poderíamos comer o que é originário de nossa cultura? Claro que levar a questão para a alimentação pode parecer extremo, mas no fundo não é. Sabemos que “toda cultura vira comércio ao ponto de degradação”, como já disse o rapper Criolo. Mas uma coisa é a ação individual e outra muito diferente é apropriação do capitalismo das culturas para lucrar.

Quem se apropria de símbolos culturais e da identidade das minorias é a classe dominante, que numa mão, por muita pressão dos movimentos políticos e ativistas, cede espaço para os negros, mulheres e LGBT’s nas propagandas e cultura pop, enquanto que na outra mão mantém a diferença salarial de 60% entre mulheres negras e homens brancos, que assassina todo dia mulheres trans. Aos indígenas só é oferecida uma das mãos, a que rouba as terras e gere o genocídio do agronegócio e dos fazendeiros, com aval do Estado. Sabemos que no caso da fantasia, existe a sátira e a homenagem, ou o “ser algo que não sou por um momento”. A qual dos dois fatores daremos mais peso? Sabendo que o capitalismo se apropria do etnocídio para seguir apagando a cultura indígena, o problema é mesmo a pessoa que se fantasia de índio sem saber o que significa o cocar e as pinturas ou o etnocídio?

Não está sendo negado que há aqueles que se fantasiam para debochar em tom racista, etnocida, machista, lgbtfóbico e opressivo com qualquer minoria, e sim o fato desses exemplos serem a ponta do Iceberg, que continuarão a existir caso esses problemas não sejam atacados em sua raiz. O alvo principal do debate nas redes sociais deve ser um exemplo individual, ou o racismo institucional, que mantém 2/3 da população carcerária presa, em sua maioria negra, sem julgamento, que deixa para as negras os postos mais precários de trabalho terceirizado, que manda a polícia assassina nos morro e favelas? O racismo contra os negros e indígenas também é um dos pilares dessa opressão e exploração. Seu combate consequente não se dá na esfera da vigilância individual e subjetiva, e sim no ataque ao que reproduz essas opressões e as utiliza para sua manutenção, no caso, o capitalismo.

Devemos saber quem é o nosso real inimigo, e não permitir que sejamos cooptados pelo capitalismo, que deseja dar como saída e conclusão as grandes lutas que o golpeiam, uma propaganda da Avon, um espaço num outdoor, ou quem sabe até um indígena numa novela, enquanto lucra tranquilamente nos vendo uns contra os outros. Explorados e oprimidos contra explorados e oprimidos, buscando a fonte do problema numa fantasia de carnaval.

Mas voltando o ponto inicial, a pergunta que fica é: o que exatamente é fantasia?

Ninguém sabe responder. Alguns dizem que é vestir-se daquilo que não se é, mas admira. Outros dizem que é uma forma de satirizar e debochar. Sátira ou admiração, o fato é que as pessoas se enfeitam com cocares, saias e estampas étnicas durante o carnaval. É importante levar em conta que fantasias, durante a história e nas mais variadas culturas, possuem significados diferentes: religioso, festivo, transcendental, libertador, em muitas das sociedades humanas, esses significados se misturam.

Quando alguém coloca um cocar como adereço de carnaval, podemos dizer que essa pessoa não deveria colocar, pois ela não é indígena e o cocar não é fantasia? Mas quem somos nós, num país tão miscigenado como o Brasil, pra sair dizendo por aí quem é ou não indígena, ou seja, quem pode ou não usar um cocar? Aliás, também podemos sair por aí dizendo quem é ou não negro, quem pode ou não pode usar estampas afro?

Além desse aspecto mais subjetivo, há também o fato de indígenas “se fantasiarem” com seus adereços e desfilarem no carnaval, como aconteceu no Rio Grande do Norte esse ano. Neste caso tudo bem? Então vamos nos condicionar ao “lugar de fala” e dizer que a cultura é uma propriedade privada que pertence unicamente aos seus detentores, entre eles os nascidos em determinada cultura?

Ou ainda para levar a discussão pro campo do debate de gênero: quando um homem veste uma saia durante o carnaval, podemos dizer que ele está debochando das mulheres e das LGBT’s? É certo que para muita gente (em especial as LGBT’s) poder vestir uma saia, calçar um salto alto ou passar maquiagem é sinônimo de luta e dor quase que diárias, pois é algo muito profundo, tem relação direta com a própria identidade. Mas e se aquele breve momento, 3 ou 4 dias entre os 365 dias do ano, estiver significando para o homem cishetero que coloca saia, uma libertação ou realização de algo que foi reprimido a vida toda? Quem nunca viu meninos sendo "educados" (leia-se reprimidos, por vezes com violência física) a não usar saia, não passar batom e comportar-se feito homem, tal qual ensinou-lhes o patriarcado ainda muito cedo?

Aí o leitor poderá dizer que é sátira, pois o machão (machista sim, LGBTfóbico sim) faz piada o tempo todo com a saia que usa. Contudo, não é preciso ser muito experiente para saber que a piada ainda é uma das formas mais efetivas de esconder aquilo que realmente se sente. O homem faz piada e zombaria, enquanto seu subconsciente de menino reprimido delira intimamente em liberdade.

Por fim, para não restar dúvidas acerca da discussão sobre apropriação cultural, vale citar a entrevista de Ysani, liderança de uma aldeia no Xingu a BBC: "Uso de cocar no carnaval é troca, não discriminação. Tem tanta coisa séria rolando. A saúde indígena está cada vez mais precária. Não tem mais verba. Temos problema de violência e entrada de drogas nas aldeias. E tem muito indígena deixando de falar a língua nativa, porque as igrejas falam que é cultura do capeta".




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