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Trótski em Permanência | Evento Trótski em Permanência discute o legado do trotskismo brasileiro nos anos 30

Nesta segunda-feira, 2, foi realizado mais um simpósio do evento internacional Trótski em Permanência. Dessa vez, o tema foi sobre o trotskismo brasileiro nos anos 1930, seu legado e sua história na luta pela revolução socialista internacional nos dias de hoje.

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

segunda-feira 2 de agosto | Edição do dia

Falaram no encontro Giovani Bertolazi Brazil, formado em História pela UFSM e mestrando na UFPel. Sua apresentação, dentre outras coisas, abordou os antecedentes e atuação da Oposição de Esquerda no Brasil (1930-1933) . Diante de uma esmagadora crise capitalista em 1929 e as sucessivas traições revolucionárias por parte da burocracia stalinista que havia usurpado o poder dos sovietes, Trótski lança as bases para a fundação da Oposição de Esquerda Internacional. Os bolchevique-leninistas, como se denominavam na época, se opunham ao etapismo stalinista, ou a ideia de que o sujeito revolucionário nos países atrasadas era a burguesia e não o proletariado - contrariando a própria experiência da revolução russa -, e se opunham à teoria do socialismo em um só país, a própria negação do internacionalismo proletário e dos fins comunistas da revolução internacional. Foi então que, dentro do PCB, se formou uma fração alinhada com essa política, denominada Grupo Comunista Lênin, inicialmente organizado em sua maioria como um grupo de estudos políticos concentrado. Posteriormente, organizou-se enquanto Liga Comunista, impulsionando importantes jornais operários como “A Luta de Classes”. Dentre seus precursores estão Lívio Xavier, Mário Pedrosa, Aristides Lobos, João da Costa Pimenta, entre outros.

Contamos também com a participação de Carlos Prado, professor da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, que também foi o mediador da mesa. Ele abordou os debates sobre a IV Internacional entre os trotskistas brasileiros em 1933, em especial na primeira Conferência Nacional da Liga Comunista de 1933. Nela foi deliberada a saída da LC enquanto fração do PCB diante da desastrosa e ultra-sectária política stalinista na Alemanha que deu passagem à Hitler e os nazistas ao se recusarem a realizarem a frente única com a social-democracia. Nessa perspectiva é que se dão os debates acerca da caracterização do Estado operário soviético, uma importante discussão entre Aristides Lobos, Mário Pedrosa e Pinheiro sobre qual deveria ser a posição dos oposicionistas frente a degeneração da Internacional Comunista - se era preciso abandoná-la e criar outro partido, passar à agitação da greve geral e a insurreição armada. Com a evolução dos debates, as conclusões de Trótski superam essa polêmica na medida em que coloca a necessidade da defesa do Estado operário soviético e a necessidade de uma revolução política, na qual se preservasse a economia planificada e a socialização dos meios de produção, mas com democracia operária soviética, destronando a burocracia.

O terceiro a falar foi Henrique de Bem Lignani, militante da CST/PSOL e professor de história. Em sua exposição, discutiu sobre a história do Partido Socialista Revolucionário (PSR), organização política trotskista do pós-guerra e sua política frente à aberta conciliação de classe do PCB se aliando com Getúlio Vargas nos anos da “União Nacional". Esse foi um período de intensas greves operárias, nas quais se formavam comitês de greve que transbordavam as burocracias sindicais tanto getulistas quanto das dirigidas pelo PCB - este que, ao invés de apostar na auto-organização operária em aliança com os oprimidos, apoiou o "Queremismo" de Getúlio, um histórico ditador e assassino de comunistas. O legado da política dos trotskistas do período é fundamental para restabelecer os fios de continuidade do marxismo revolucionário atual. Dentre esses fios, podemos citar o estímulo à auto-organização, mas sem virar as costas aos grandes sindicatos e a procura por avançar na consciência política dos trabalhadores em luta ligando suas necessidades imediatas a um fim político, indo além das demandas meramente econômicas e a profunda separação das lutas imposta pelas direções da época.

Por fim, Icaro Rossignoli, professor da rede pública no estado do Rio de Janeiro formado em história pela UFRJ e militante do Reagrupamento Revolucionário, tratou sobre os trotskistas brasileiros e a "questão russa", sobretudo os debates com a esquerda brasileira do “período democrático”. Sua exposição apresentou os debates feitos pelo PSR com a esquerda influenciada por essa concepção, que consistia numa ideia muito presente no pós-guerra de que era preciso combater os “polos totalitários” da URSS e do fascismo. Os trotskistas argumentam com o grupo “Vanguarda Socialista”, que posteriormente iria aderir ao PSB, contra o liquidacionismo de que a URSS se tratava de um “capitalismo de Estado”, uma definição que levava ao abandono da principal trincheira do proletariado mundial, apesar da burocracia stalinista. Esse debate foi um dos divisores de água no trotskismo internacionalmente, sendo que a necessidade da defesa das conquistas da revolução russa, a estratégia soviética, a independência política do proletariado e a revolução política são os principais fios de continuidade a serem defendidos - e também os principais pontos de divergência, adaptações e deriva estratégica dos grupos de tradição trotskista no pós-guerra.

Ainda hoje,às 19h, será realizada a conferência de abertura oficial do evento, com o mote "Da Comuna a Trótski" e a participação do prof. Dr. Antonio Rago Filho (PUC-SP) e Frank García Hernández, organizador do I Encontro Internacional Leon Trótski, realizado em Havana, Cuba, em 2019, editor do blog Comunistas e preso político das manifestações de 11 de julho na ilha.

É possível assistir ao vídeo no seguinte canal do YouTube: Encuentro Trotsky




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