Gênero e sexualidade

UNIVERSIDADES FEDERAIS - UFRN

Estudantes da UFRN protestam em defesa das mães na universidade

Na manhã desta terça-feira (13) os estudantes do bacharelado de Ciências Sociais da UFRN fizeram uma manifestação em defesa do direito das mães e mulheres estarem na universidade.

terça-feira 13 de março| Edição do dia

A expulsão e humilhação da aluna Waleska da sala de aula pelo Professor Alípio Souza ganhou proporções nacionais e escancarou como as universidades não oferecem o mínimo de estrutura para a permanência das mulheres trabalhadoras mães estarem no ensino superior.

Os alunos da turma de Introdução à Sociologia, ministrada pelo Professor em questão, tanto no bacharelado, quanto na licenciatura, haviam definido em assembleia no dia anterior que fariam uma manifestação na entrada na aula, seguida de uma roda de conversa para abordar a temática das mulheres na universidade e um calendário de mobilizações para lutar em defesa da aluna Waleska e pelo direito das mães permanecerem no ensino superior, com creches que atendam a demanda.

O Professor Alípio Souza arrancou os cartazes da entrada na sala de aula que continham frases em defesa do direito das mulheres mães estarem na universidade. Também ofendeu os alunos que cantavam "Pra trabalhar, pra estudar, eu quero creche, creche JÁ!". Assediou uma estudante e a Professora Coordenadora do Bacharelado de Ciências Sociais, Juliana Melo.

O caso de Waleska atingiu proporções sem precedentes e evidenciou o caráter da universidade e da sua estrutura de poder. Após o golpe institucional, o orçamento da UFRN regrediu ao orçamento que tinha em 2007, sendo atacada pelo atual governo federal golpista. Porém já sofria com os cortes executados pelo PT que a partir do REUNI fizeram uma ampliação sem qualidade e privatizante do ensino superior, que além de não garantir vagas para realmente todos que quiserem estudar, impede materialmente que estudantes trabalhadores, em especial negros e mães, se mantenham na universidade.

Isso se dá tanto pela história de construção das universidades, pensadas para atender apenas a formação da elite intelectual burguesa com os impostos de toda a população, ampliada precariamente em meio ao crescimento econômico para formar quadros que pudessem servir a essa mesma classe (por isso com caráter privatizante e colocando bilhões públicos em instituições privadas) e com a crise capitalista mundial atingindo com cada vez mais força o Brasil, esta formação não é mais encarada como necessária e o que deveria ser um direito mínimo que não foi conquistado plenamente, passa a ser cada vez mais atacado.

Por isso é necessário enxergar o caso por dentro da conjuntura geral pela qual o país passa e pensar uma perspectiva que se enfrente diretamente com o caráter de classe da universidade, responsável por barrar ou expulsar a juventude trabalhadora, negra e mãe. As decisões na universidade são tomadas pela REItoria, o CONSUNI e o CONSAD, com mínima participação estudantil e dos trabalhadores, as duas amplas maiorias que constroem a universidade, uma estrutura que permite que a universidade não esteja a serviço dos trabalhadores e setores oprimidos e opera em uma lógica de elitização e terceirização de todos os serviços mais básicos que garantem o funcionamento desta, como a limpeza, jardinagem e segurança. É atroz que universidades federais como a UFRN não garanta o direito às mães poderem estudar, com uma creche para as mães garantida pela contratação de funcionários efetivos, sem empregos precários.

É urgente confiarmos na força de mobilização e luta dos próprios estudantes, que deveriam junto aos trabalhadores e professores definir os rumos da universidade e lutar pela garantia da permanência e do direito de ir à aula de Waleska e de todas e todos que precisarem. Para isso, são urgentes espaços de auto-organização, ou seja, assembleias de base gerais e por curso, para romper com o imobilismo da atual gestão do DCE (PT, Levante, Kizomba) que a partir da majoritária da UNE asfixiam o movimento estudantil em todo o país.

Podemos sim defender a subversão completa da universidade, nos 50 anos do Maio de 1968, nos aliar aos trabalhadores pela sua transformação. Repudiando cada ato de opressão sem devinculá-los da estrutura de poder que permite esse funcionamento. Neste 8 de Março, as mulheres espanholas fizeram uma greve de 5,3 milhões de trabalhadores, com piquetes, fechamentos de rua e ocupações, a partir dos métodos dos trabalhadores. É nestas mulheres que precisamos nos inspirar.

Veja o relato do Coletivo Acadêmico da UFRN:

Na manhã desta terça-feira, 13, o Professor Alípio de Sousa Filho, age novamente com postura agressiva para com a estudantada. Durante ato pacífico em roda de conversa sobre permanência de mulheres na universidade, contávamos com a presença do chefe de segurança da Universidade, diretores do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes (CCHLA), chefe de departamento de Ciências Sociais, coordenadoras do curso nas modalidades bacharel e licenciatura, além de outras/os professoras/es, servidores e estudantes presentes, sob o discurso “eu não estou vendo aqui, nenhum verdadeiro estudante com a vocação das Ciências Sociais, são militantes.” reforça estigmas ao tentar desqualificar o movimento estudantil. O professor em atitude truculenta, além de rasgar cartazes de apoio à luta colados na porta da sala de aula, em inesperada ação, usou de discurso machista, com caráter moralmente assediador, na tentativa de desviar o foco da discussão de permanência estudantil. Em atitude de descontrole, coagiu publicamente uma das alunas que compunha a roda chegando a segurar o seu pulso, tocando-a e abraçando-a contra sua vontade. Repetindo a mesma postura com uma das professoras presentes, afirmando ainda serem participantes de mesma base de pesquisa. Na tentativa de reprodução de fala da aluna, que no passado chegou a pedir auxílio com material bibliográfico para sua pesquisa de conclusão de curso, este, deturpa em provocativo tom, julgando de ser incapaz a professora assediada, em orientá-la, “falando você como mal professora, não orienta, não indica texto” (sic). O professor cessado de argumentos para defender-se dos fatos do dia 06/03 (dia em que ocorreu o caso link: https://www.facebook.com/cacsociais/posts/1710035115725738) parte para agressões pessoais. Criando grande agitação no ambiente, estudantes presentes passam a proferir palavras em apoio à Professora e aluna, sendo retrucados com “me chamam de machista, mas eu faço base de pesquisa com ela”, insultuoso ao tentar criar rivalidade entre elas, sendo cessada pelos professores e estudantes presentes. Após o ocorrido, estava colocado um ambiente de tensão, os representantes institucionais presentes demonstraram apoio quanto à continuidade da atividade, e que o processo de sindicância sob as atitudes do professor, está em andamento, com agora adesão destes novos episódios.




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