Sociedade

Estudante se suicida na UnB: a barbárie cotidiana

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 5 de junho| Edição do dia

Ontem, o pior aconteceu: Letícia, estudante de ciências sociais na UnB, subiu no topo de um dos edifícios da Universidade e se jogou de uma altura de 15 metros, apesar do apelo de um grupo de jovens que, no solo, viveram a devastadora experiência de assistir ao seu vôo para a morte.

Não é o primeiro suicídio na UnB e, em Brasília e no Brasil, são milhares de vidas ceifadas por ano, dezenas a cada dia: uma das formas da barbárie do nosso tempo, pela qual o capitalismo e suas relações atomizadas, sufocantes e depressivas é, acima de tudo, o total responsável.

Letícia se despediu, nas redes sociais, com o pungente argumento de que não conseguia mais viver, denunciando as relações que a atormentavam:
“Você não vai se encontrar na universidade. Você não vai finalmente ter amigos. Seu vazio não vai embora. Tudo vai ser igual, vai ser o mesmo, só que em outro ambiente e com outras obrigações. Você pode ir pro Japão, que nada vai mudar. Não tem como fugir de você mesma”.

Letícia não aguentou a panela de pressão.

Um tema que deveria ser obrigatório para toda e qualquer direção de esquerda do movimento estudantil, que é testemunha das relações doentias, do produtivismo escolar sem sentido, da massa infernal de leituras e deveres escolares alienantes e a estupidez burocrática e entediante do mundo escolar nesse sistema. A Universidade burguesa se converteu em uma instituição mórbida, a cara do regime, uma das faces mais cruéis e alienantes do sistema capitalista.

Como argumenta uma das melhores e mais sensíveis professoras da UnB, Camila Potyara: “O fato é que essa sociedade está doente. Está doente e adoece. A Universidade, inserida na lógica do capital, não poderia se comportar de maneira diferente: as pressões do produtivismo; a meritocracia que humilha e segrega; a competição e o individualismo exacerbados, são leis nesse espaço que deveria ser múltiplo, rico, coletivo.

Os/as estudantes estão doentes. Não conheço um/a único colega professor/a que também não esteja, em algum nível, doente. Os técnicos estão doentes. [...]
Puxadas de tapete; boicotes ao outro; a famosa prática de “cozinhar” as demandas dos colegas e dos discentes; denúncias e cartas anônimas; fofocas de corredores; descrença e piadinhas feitas a respeito da doença mental do próximo (mesmo com atestado); manipulações; panelinhas/igrejinhas; patrulhinhas ideológicas; julgamentos infundados; inveja; assédios morais; todas estratégias de guerra nesse espaço hostil da Universidade.

A luta pelo fim dessa sociedade capitalista que chafurda na barbárie, é tarefa que muitos de nós assumimos e continuaremos nela, de agora, até o fim”.

Essa deve ser a nossa perspectiva.
Liquidar com as infames relações capitalistas que imperam em todos os espaços, do local de trabalho em geral, da família patriarcal e possessiva até a Universidade.

A UnB, em especial, vive um agudo processo de desmanche, de desligamento massivo de jovens estagiários, demissão de centenas de trabalhadores terceirizados, de cortes de verbas, de programas etc nos marcos de um clima reacionário e podre de país à deriva, nas mãos de uma casta política [também judiciária, militar] corrupta, golpista, entreguista e cujo único papel é afundar o país na miséria das relações capitalistas, concentradoras de renda e fetichizadas pelo dinheiro e pelo carreirismo. Relações que operam, essencialmente para mutilar e roubar nosso futuro. A isso se soma a passivização das lutas sociais por parte da esquerda de mais visibilidade, que – a exemplo da burocracia da CUT, por exemplo – não vem reagindo minimamente aos ataques à classe trabalhadora, aos sucessivos e cotidianos golpes dos donos do poder contra o mundo do trabalho e a juventude.

Não há como isolar a subjetividade de uma juventude depressiva, angustiada, desse quadro que, em escala mais profunda, tem a ver com a atomização das relações humanas e o desenvolvimento, por outro lado, de uma desenfreada concorrência na luta pelo pão, por oportunidade [para desenvolver o potencial humano e criativo de cada um] e pelo desemprego e carga horária opressiva de cada dia.

A demissão em massa de trabalhadores da UnB é a contra-face de uma Universidade, pública, que não é prioridade de nenhum desses governos, dirigida como se fosse uma bolha, isolada das massas pobres, sem confluir para a vida real das massas, dos sonhos e do imaginário da juventude e mais: girando em torno do umbigo da burocracia acadêmica que não foi eleita por ninguém. E isso nos marcos de um regime acadêmico conservador, meritocrático, baseado na mais impiedosa e alienada “produtividade” e nos estúpidos e burocráticos métodos do Capes, do Ministério da Educação, da camarilha burguesa e medíocre [a começar do ministro da Educação, um perfeito palerma] que molda todo o ensino no Brasil.

Não faz sentido pensar o suicídio como um gesto isolado de uma jovem angustiada.

Sua morte, a morte de mais essa Letícia, é uma perda irreparável, uma derrota, mas também uma denúncia do podre dessa sociedade, das instituições burguesas, todas elas, em particular aquilo que o capitalismo tem a oferecer à juventude mais sensível: a miséria da política, o deserto da imaginação e o engessamento da vida [que é a marca dos espaços escolares].

Reagir a tudo isso é nosso dever. Em nome de todas as letícias, em nome da resposta que temos que dar, estudantes e trabalhadores, à barbárie civilizatória. Em nome da nossa própria dignidade.

É imperioso o engajamento de cada um de nós em um projeto de emancipação dessa sociedade regida pelo império do capital.

Se isso é utopia? Utopia é acreditar que a juventude de mais sensibilidade possa ser plena, criativa e que possa encontrar sentido nessa sociedade como ela é.

Sejamos realistas? Realismo é lutar, cotidianamente, não só contra nossos próprios “demônios interiores”, que as relações familiares e sociais do capitalismo retroalimentam todos os dias, mas lutar contra o sistema, pela expropriação do grande capital e o controle da economia pelas massas trabalhadoras e das escolas pelos que nela trabalham e estudam.

Realismo é lutar por uma revolução social que enterre uma sociedade que alimenta o individualismo, a depressão e depois vive da morte inaceitável, desnecessária, de parte da nossa juventude, na flor da idade, e que nos devasta a todos, pais e professores.




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