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Estigma, saúde e luta de classes nas páginas d´Os Capitães da areia de Jorge Amado.

Kleiton Nogueira

"A Gangue" é uma pintura de Herberth Gwimma inspirada no livro Capitães da Areia

Estigma, saúde e luta de classes nas páginas d´Os Capitães da areia de Jorge Amado.

Kleiton Nogueira

Quando tive a oportunidade de visitar Ilhéus, cidade em que Jorge Amado passou um período da infância, conheci um pouco da ambientação desse autor, sua casa, que hoje é um museu com quadros, escrivaninha, e pertences do autor. Quem conhece um pouco dessa ambientação reconhece que Jorge Amado tem pluma na escrita, e de fato consegue transpor para a ponta da pena os elementos inerentes à realidade social: costumes, desejos, ou seja, a própria vivência, como se fora uma espécie de antropólogo na sua incansável etnografia.

Quem também conhece um pouco da Bahia, e especificamente da Geografia urbana de Salvador, consegue identificar na paisagem urbana uma obra memorável de Jorge Amado: Os capitães da Areia, lançada em 1937, e que narra o cotidiano de um grupo de garotos “na” rua, que vivem num trapiche e cometem roubos na cidade. Nesse livro, a narração em si é cativante e chama atenção do leitor por prender a cada instante nas aventuras e estórias dos personagens, que possuem uma complexidade curiosa, muitos, com dilemas pessoais e morais, e acima de tudo, materiais.

Todavia, gostaria de chamar atenção a um tema que, bastante atual, está presente nos Capitães da Areia: estigma, saúde e luta de classes. Num momento em que o mundo vivencia uma pandemia com milhares de mortes, não é só a literatura de Albert Camus com “A peste”; Daniel Defoe através de “Um Diário do Ano da Peste”; ou até mesmo , “Amor nos Tempos do Cólera” do Colombiano Gabriel García Márquez, que conseguem nos remeter às situações que, apesar de relatarem casos passados de moléstias e epidemias, parecem atuais. Jorge Amado também consegue explorar a temática no livro, através do cotidiano dos capitães da areia.

Nesse sentido, a presente reflexão tem por objetivo explorar nuances no texto de Jorge Amado que nos remeta a relação existente entre estigma, saúde e luta de classes, sem, contudo, abrir mão da crítica qualificada. Como um meio de trabalhar com o binômio forma-conteúdo, subdivido a presente exposição em duas partes principais que se ligam de forma orgânica formando um todo textual: Inicio trazendo os principais personagens da trama de modo a caracterizá-los a partir do próprio Jorge Amado, aproveitando a oportunidade para tecer considerações sobre o viés stalinista de Jorge Amado através de seu realismo socialista, incorporado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em seguida, foco na relação entre estigma, saúde e luta de classes, explorando o caso da epidemia de Varíola que é narrada no livro, sem contudo, abrir da mão de uma síntese dialética, entendendo a arte e a literatura não como meros descritores da realidade, mas como práxis de mudança pela sua função pedagógica de fomento de uma cultura questionadora.

Veja mais em: O realismo socialista revisitado – parte I (os precedentes históricos)

Sobre esse tema em específico indico o curso: Trótski e a Revolução, realizado pelo Esquerda Diário na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) com a participação do professor Romero Venâncio da Universidade Federal do Sergipe (UFS).

Veja mais: Minicurso: Trotski - Literatura e Revolução organizado pelo Esquerda Diário na UFCG

Personagens que dão vida à obra

Pode parecer curioso, mas sempre gosto de apresentar ambientações como personagens, pois estas, acabam tomando vida própria por aclimatar distintos diálogos. No livro de Jorge Amado podemos considerar personagens a própria cidade de salvador, com suas ruas, costumes e classes sociais. Aqui, o autor consegue evidenciar uma composição de classes, que apesar de não ser profunda, exibe a básica divisão entre burguesia e proletariado.

A cidade de Salvador, com a típica segregação urbana, com locais ricos, e a área pobre e decadente, reflete também muito da nossa época atual. Quem hoje, ao visitar grandes centros urbanos não consegue olhar a paisagem e perceber distinções nos locais ? Infraestrutura, moradia, acesso à esgotamento sanitário e a boas condições de vida são fenômenos atuais. O próprio trapiche, local no qual os capitães da areia passam a maior parte do tempo, retrata essa realidade. É uma rugosidade, um aspecto presente na paisagem.

SOB A LUA, NUM VELHO TRAPICHE ABANDONADO, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite (AMADO [1937] 2008, p.20).

E é assim, banhados pelo mar de Salvador, ao som das ondas e do calor litorâneo que vive os capitães da Areia. Isso não retira o fato da precariedade e das condições físicas da habitação. Condição que também é atual, basta lembrarmos que muitos brasileiros e brasileiras não possuem casa própria, vivem de aluguel ou mesmo na rua, ou estão a mercê de soterramentos.

Veja mais: Família soterrada em Recife: tragédia escancara descaso dos governos

O grupo dos capitães da areia é consideravelmente grande, na obra chega-se a contar 100 garotos das mais diversas idades, dentro os personagens podemos destacar Pedro Bala, o comandante do grupo, é uma espécie de herói encarnado na mais cartesiana tradição do realismo socialista. Bala é o líder, visionário, que leva à frente a sua turma pelas ruas de Salvador, tem em si um ar de liderança que a tudo dá um jeito e a quem todos se espelham.

[...] Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem quinze anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de todos os seus becos. Não há venda, quitanda, botequim que ele não conheça. [...] . Pedro Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe [...] Pedro Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de uma agilidade espantosa[...] (AMADO [1937] 2008, p.22-23).

Na trama, há uma centralidade do Pedro Bala, e apesar do livro ser rico, não pode-se negar a função principal que esse personagem ocupa. Elementos como valentia, liderança, visão e astúcia são explorados por Jorge Amado na construção de Pedro Bala. Além disso, sua origem, filho de um estivador que faleceu numa greve, dá um toque especial ao jovem que no decorrer do livro vai se tornando um “grande camarada”, organizador de greves e manifestações. Em alguns momentos da trama, esse “grande irmão” se sobrepõe de fato como a encarnação de uma liderança, ao mesmo tempo em que se apresenta como degenerado e burocrata, tema que retomaremos em momento posterior à nossa reflexão.

O professor é outro personagem que tem características peculiares. Apesar de viver no trapiche, é o único que saber ler. Jorge Amado procura explorar esse lado fazendo questão de esboçar o professor como um devorador de livros, amante da arte, e um bom articulista dos roubos, sendo uma das cabeças pensantes do grupo. Se Pedro Bala tem a valentia, impulsividade e o senso de heroísmo incitado pelo realismo socialista, o professor é a encarnação da inteligência e reflexão, sempre bolando planos:

João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tornara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre [...] era o único que lia correntemente entre eles e, no entanto, só estivera na escola ano e meio [...] Aquele saber, aquela vocação para contar histórias, fizera-o respeitado entre os Capitães da Areia, se bem fosse franzino, magro e triste, o cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de míope. Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços e níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da noite da Bahia (AMADO [1937] 2008, p.25).

O sem pernas é o personagem mais revoltado do grupo. Ao certo, há em sem pernas um dos elementos do estigma. Por ser deficiente físico, tem uma aparência que todos zombam. O complexo de inferioridade é existente, e não raras vezes há uma espécie de melancolia, trauma e raiva no personagem:

Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valerá-lhe o apelido. Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, humilde e tristonho, na sua porta, pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite (AMADO [1937] 2008, p.26).

Volta Seca também é um dos mais valiosos personagens. Remete bastante ao sertão nordestino, especialmente por ter o desejo e uma fixação pelo bando de Lampião. Sua estética é sertaneja, e a todo instante procura fazer referência a Virgulino e ao grupo de Cangaceiros que dominam os sertões do Nordeste e desafiam à volante, política da época.

Veja mais: Cangaço - Protorrevolucionário?

João Grande, por sua vez, é um dos mais altos do grupo. É comum Pedro Bala fazer referência a sua Bondade e lealdade:

E os menores, aqueles pequeninos que chegavam para o grupo cheios de receio tinham nele o mais decidido protetor. Pedro, o chefe, também gostava de ouvi-lo. E João Grande bem sabia que não era por causa da sua força que tinha a amizade do Bala. Pedro achava que o negro era bom e não se cansava de dizer: — Tu é bom, Grande. Tu é melhor que a gente. Gosto de você — e batia pancadinhas na perna do negro, que ficava encabulado (AMADO [1937] 2008, p.24).

Já Pirulito, poderia ser caracterizado como o superego do grupo associado ao medo de Deus, ao receio do pecado e do inferno, e a devoção ao divino. É um dos personagens que sempre vive a fazer orações no Trapiche, e que tem o sonho de se tornar Padre.

No mesmo grupo ainda encontramos o Boa Vida, um dos mais malandros do grupo, apreciador da música e da boa conversa, sua casa não era exatamente o trapiche, mas a cidade de Salvador.

Por sua vez, o gato é o personagem mais galanteador. Um dos mais preocupados com a aparência física e com as roupas. Sua paixão pelas mulheres só não é maior do que a paixão que possui por Dalva, prostituta a quem o Gato se envolve num relacionamento amoroso durante o enredo do livro.

Temos ainda Dora, uma menina do morro, que devido a epidemia de varíola “Alastrim”, fica órfã junto ao irmão “cara de fuinha”. Dora ocupa na trama vários lugares: vai ser vista como mãe pelos capitães, mas também irmã, e amante, especialmente por Pedro Bala, a quem se apaixona por Dora. Nela, os capitães da Areia encontram alento e compaixão, afetos que dificilmente tiveram na vida devido a própria condição de abandono/violência.

Além desses personagens temos aqueles que ocupam um lugar de “escada” na trama, ou seja, preparam diálogos e são peças do enredo. São eles: Querido de Deus, figura simpática que ensina capoeira aos capitães da areia e tem admiração pelo grupo. Aninha, uma mãe de santo do candomblé, faz visitas ao grupo, e aconselha o bando com base nos ensinamentos da religião de matriz africana.

O Padre José Pedro, um dos amigos dos capitães da areia, por vezes visitava os garotos no trapiche com a esperança que suas pregações e ensinamentos da bíblia surtam algum efeito. A luta do Padre com a igreja católica é um dos flancos que Jorge Amado também explora. Uma igreja católica baseada em dogmas e aliada da burguesia, que mesmo diante de alguns rompantes de ajuda do Padre José Pedro aos garotos do trapiche, não esconde a aversão ao comunismo, lado que também é explorado por Jorge Amado. Essa problematização fica evidente no diálogo do padre com o seu superior,no qual o padre é repreendido por ser aliado dos capitães da areia.

No tópico a seguir apresento um dos personagens que, na trama do livro, se vincula com a epidemia de varíola. Apesar de não ser um personagem central, Almiro, um dos capitães da Areia, é apresentado por Jorge Amado, em minha opinião, como vítima do estigma por contrair a doença, mas para além disso, denuncia toda uma cadeia social associada à forma como a doença era tratada na época, elemento que em certa medida nos faz lembrar dos períodos epidêmicos que a Covid-19 nos coloca.

Estigma e Saúde: a Varíola sob a cidade de Salvador

No capítulo intitulado “Alastrim”, Jorge Amado dedica sua pena a descrever os efeitos da doença sobre a população de Salvador. Alastrim seria o nome dado à varíola. Uma doença antiga, que remonta à antiguidade, quando os seres humanos fincaram os primeiros assentamentos agrícolas por volta de 10.000 (a.c). Em sua concepção biológica a doença é causada por um vírus do gênero ortopoxvÌrus, famÌlia poxviridae. Seus sintomas podem ser identificados como febre alta, dor de cabeça, calafrios, dores nas costas, seguida de erupções na pele do enfermo, que tomam todo o corpo do paciente evoluindo para pústulas e vesículas com líquido.

Evolução da erupção cutânea numa criança com varíola. Fonte: LEVI; KALLÁS, 2002.

Jorge Amado se dedica a descrever a doença num misto de religião, crença, castigo, cuidados em saúde, desigualdades social e estiga:

OMOLU MANDOU A BEXIGA NEGRA PARA A CIDADE. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negro cheio de chaga em cima da cama. Então vinham os homens da saúde pública, metiam os doentes num saco, levavam para o lazareto distante. As mulheres ficavam chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam. Omolu tinha mandado a bexiga negra para a Cidade Alta, para a cidade dos ricos. Omolu não sabia da vacina, Omolu era um deus das florestas da África, que podia saber de vacinas e coisas científicas? Mas como a bexiga já estava solta (e era a terrível bexiga negra), Omolu teve que deixar que ela descesse para a cidade dos pobres. Já que a soltara, tinha que deixar que ela realizasse sua obra. Mas como Omolu tinha pena dos seus filhinhos pobres, tirou a força da bexiga negra, virou em alastrim, que é uma bexiga branca e tola, quase um sarampo. Apesar disto, os homens da saúde pública vinham e levavam os doentes para o lazareto. Ali as famílias não podiam ir visitá-los, eles não tinham ninguém, só a visita do médico. Morriam sem ninguém saber e quando um conseguia voltar era mirado como um cadáver que houvesse ressuscitado. Os jornais falavam da epidemia de varíola e da necessidade da vacina. Os candomblés batiam noite e dia, em honra a Omolu, para aplacar a fúria de Omolu. O pai-de-santo Paim, do Alto do Abacaxi, preferido de Omolu, bordou uma toalha branca de seda, com lantejoulas, para oferecer a Omolu e aplacar sua raiva. Mas Omolu não quis, Omolu lutava contra a vacina. Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto. ((AMADO [1937] 2008, p.134-135).

No trapiche dos capitães da Areia, Almiro contraiu a doença. No livro, esse personagem é descrito como gordo e preguiçoso, e que mantinha relações sexuais com o Barandão, também um capitão da areia. Aliás, o tema do sexo é basante forte nas produções de Jorge Amado. A descrições dos corpos, as perfomances no ato sexual, a discriminação, e até mesmo o receio, são temas que o autor destaca na obra.

Um dos momentos mais duros do livro, releva o processo de estigma sobre o personagem Almiro. Aliás, a própria nomenclatura “bexiguento” é um termo revelador que se expressa na linguística, mas que remete ao processo material do real significado do que é contrair varíola:

Almiro foi o primeiro dos Capitães da Areia que caiu com alastrim. Uma noite, quando o negrinho Barandão o procurou no seu canto para fazer o amor (aquele amor que Pedro Bala proibira no trapiche), Almiro lhe disse: — Tou com uma coceira danada. Mostrou os braços já cheios de bolhas a Barandão: — Parece que também tou queimando de febre. Barandão era um negrinho corajoso, todo o grupo sabia disto. Mas da bexiga, da moléstia de Omolu, Barandão tinha um medo doido, um medo que muitas raças africanas tinham acumulado dentro dele. E sem se preocupar que descobrissem suas relações sexuais com Almiro saiu gritando entre os grupos: — Almiro tá com bexiga… Gentes, Almiro tá com bexiga (AMADO [1937] 2008, p.134).

Em verdade, além do estigma da varíola, o personagem enfrentava também a discriminação acerca da sexualidade. Como fica claro, relações sexuais entre os próprios capitães da Areia era proibida e punida com a expulsão:

Sem-Pernas falou com sua voz fanhosa para Barandão:— Agora tu vai ter bexiga na piroca, negro burro. Barandão o olhou assustado. Depois, Sem-Pernas falou para todos, apontando Almiro com o dedo: — Ninguém aqui vai ficar bexiguento só por causa deste fresco. Todos o olhavam, esperando o que ele diria. Almiro soluçava, as mãos no rosto, encolhido na parede. Sem-Pernas falava: — Ele vai sair daqui agorinha mesmo. Vai se meter em qualquer canto da rua até que os mata-cachorro da saúde pegue ele e leve pro lazareto. — Não. Não — rugiu Almiro. — Vai, sim — fez Sem-Pernas. — A gente não vai chamar os mata-cachorro aqui pra toda polícia saber onde a gente se acoita. Tu vai por bem ou por mal e leva teus trapos. Vai pro inferno, que a gente não vai ficar com bexiga por você. Por amor de você, xibungo… (AMADO [1937] 2008, p.135).

A discriminação em relação as relações homoafetivas é um traço da tradição stalinista. É sabido que a Rússia, antes da Revolução de 1917, possuía leis contra as práticas homoafetivas. Foi apenas com a atuação de militantes e pela atuação dos bolcheviques que através da Revolução Russa houve o processo de descriminalização, fazendo com que a Rússia desse saltos nessa temática e avançasse.

Veja mais em: A descriminalização da homossexualidade na URSS: um marco na história da liberação sexual

Todavia, com a degeneração e burocratização do partido comunista pelo stalinismo, todos esse avanço foi destruído, retrocedendo de forma reacionária. No ano de 1928, por exemplo, Doutor Nikolai Pasche-Oserki chegou a colocr que a hmossexuaildade seria um perigo, não deixando de atacar também a conquista das mulheres revolucionárias, como o aborto. Na década de 1930 o stalinismo passou a discriminar, vigiar e deter de forma massiva os homossexuais. As pessoas detidas pela burocracia stalinista eram condenadas à prisão e ao exílio na Sibéria. Já no ano de 1934 Stálin introduziu no código penal a lei que tornaca os atos homossexuais como crimes, passíveis de penas de 8 anos. E não para por aí, a degenerada imprensa stalinista realizou uma forte campanha contra essas práticas.

Veja mais em: O stalinismo e sua pesada herança homofóbica

É importante o destaque desse ponto, porque faz parte da lavra ideológica a que Jorge Amado pertence. Militante e quadro político do PCB, percebemos em sua obra a degeneração que o stalinismo promove na pauta sexual. O próprio Pedro Bala, personagem tido como herói apresenta uma postura contraditória, à semelhamça de Stálin, ele que garante a lei no trapiche contra as práticas homoafetivas, ao mesmo tempo em que numa das passagens mais pesadas do livro, comete estupro contra uma jovem, e inicialmente pensa em consentir ao estupro coletivo da personagem Dora, assim que está chega ao trapiche. Aliás, essa visão da mulher como objeto é bastante presente na obra, não apenas pelo estupro que Pedro Bala comete, mas pela descrição e fatores subjetivos que Jorge Amado aciona a todo instante a mulher é vista como algo que se pode possuir independente de sua vontade.

Nesse sentido, ao retornarmos ao caso específico de Barandão, este vai ser ser defendido por alguns companheiros do trapiche, todavia, acaba sendo encaminhado para a sua família, e vai ser a posteriori, enviado ao lazareto, local nos quais os infectados com varíola ficavam. Obviamente que esses espaços eram destinados aos subalternos, negros, mulheres e crianças que viviam na rua. Ir ao Lazareto era ter a certeza de morte, pois o acesso à saúde e os cuidados nesses locais eram mínimos, além de não haver o controle necessário, colocando as pessoas de forma indiscriminada nos mesmos espaços sanitários.

Aos ricos, havia o processo de afastamento e reclusão, além de terem acesso aos médicos privados e aos confortos necessários para recuperação, como alimentação, boa moradia e higiene. Mesmo que atingissem os ricos da cidade, os pobres eram os mais afetados pela doença, as precárias condições de vida certamente influenciaram para que houvesse uma maior probabilidade de infecção.

O sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982), reflete, sobre o ponto de vista de uma Antropologia/Sociologia da Saúde sobre esse tema do estigma. Para esse cientista, no livro: Estigma – notas sobre a manipulação da identidade, o estigma pode ser caracterizado como uma referência a um determinado atributo que influi na percepção depreciativa. O autor ainda identifica três tipos de estigmas: abominações do corpo que seriam vinculados às deformidades físicas; culpas de caráter individual associadas aos aspectos morais e subjetivos, mas que também reverberam em processos de ordem material, como o desemprego ou comportamento político radical; e os estigmas tribais que seriam aqueles ligado à raça, nação e religião.

Em todas essas especificações de estigmas persiste o aspecto da unidirecionalidade, no qual um determinado atributo consegue afastar os sujeitos, criando uma espécie de barreira no qual outros atributos dos sujeitos não são identificados. No caso específico do personagem Almiro, é nítido que, ao apresentar características corpóreas vinculadas à uma doença - Bolhas pelo corpo e coceira -, todos no trapiche direcionam à visão para esse aspecto, apagando os outros atributos, inclusive o que faz dele um capitão da areia, ocasionando assim na tentativa de expulsão de Almiro, sem a presença da liderança do grupo, Pedro Bala.

O próprio sem pernas, aleijado, vive um dilema vinculado ao estigma. E talvez, ouso afirmar, que esse personagem é o que mais nos traz nuances subjetivas vinculadas aos aspectos concretos da sociabilidade. Vive em conflito, sente o peso do complexo em suas costas e pernas, é do grupo o mais amargurado e deprimido, vivendo em constante conflito interno pelas “marcas” que a vida produziu em seu corpo e mente. Ele carrega em si um ódio pela forma como a sociedade é dividida, e compartilha da imagem que o grupo tem , que suas condições materiais e vida possuem relação com os de cima, ou como Florestan Fernandes gostava de pontuar “do andar de cima”.

No caso específico de Almiro, ser “bexiguento” é uma marca que produz ojeriza, medo e pavor, esse caso revela uma cadeia de operações subjetivas e materiais que no capitalismo tomam proporções maiores. Se o fenômeno do estigma de fato é existente na história concreta humana desde antes do modo de produção capitalista, com os próprios relatos bíblicos do tratamento aos leprosos, é nesse modo de produção, com sua produção cultural voltada ao individualismo e a competição entre os indivíduos que a categoria toma uma potencialidade maior a partir dos processos diferenciativos de cara realidade concreta material das formações econômicos-sociais distintas, elemento que de certa maneira é ausente em Goffman.

Nesse sentido, posso apontar que a categoria está presente em todo o livro. Afinal, uma sociedade dividida em classes, a burguesia enxerga os capitães da areia como aniquiáveis, apagados. As roupas sujas, desgastadas, os roubos e o modo de vida, não condizem com uma sociabilidade dita burguesa. O revés desse processo se encontra numa economia política da desigualdade, no qual o próprio Marx n’O Capital apontava ao evidenciar os processos materiais concretos que formam o mais valor e a exploração capitalista.

Mas o estigma não condiz apenas a uma vertente subjetivista, está condicionada por uma materialidade e sociabilidade que no modo de produção capitalista toma contornos acentuados. São os corpos que em certa medida são descartáveis, não numa visão necropolítica, pois, seria uma tautologia, tendo em vista que o modo de produção capitalista em si, reverbera uma condição de morte, basta investigarmos as descrições realizadas por Marx n’O Capital para evidenciar a mais-valia e a mais-valia, ou até mesmo Engels, que investigou a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, e também a condição de moradia dos trabalhadores, chegando a conclusões empíricas que persistem até os dias atuais.

Esse processo também está atrelado a luta de classes. Entendo que essa luta é constante, e em seus momentos de ruptura, nas ruas, são reverberações dos estigmas subalternizantes, da força e do consenso que o estado capitalista, entendido aqui como uma relação, e não como mero receptáculo, força na sociabilidade capitalista. Nesse aspecto, podemos considerar que Jorge Amado transparece essa noção da luta de classes, sendo o livro, um relato desse processo a partir da realidade social brasileira, e em específico de Salvador.

À guisa de conclusão, é importante considerarmos que o momento atual de pandemia, no qual o Brasil é um dos locais em que mais se morre por Covid-19 no mundo, cuja ações e inações do governo Bolsonaro materializam o total descaso para com a vida da classe trabalhadora brasileira, é necessário considerarmos, sob o ponto de vista dialético, uma superação a essa forma de sociabilidade, de forma permanente como Trotski defendia.

Diferentemente de Jorge Amado, que num realismo socialista faz apologia a uma visão individualista de liderança, pensemos de modo a colocar em questão a necessidade da independência de classe, da formação de uma contraposição à ordem estabelecida, uma ordem que muitos partidos de esquerda no Brasil querem gestar, a exemplo do petismo, que enxerga 2022 como a única saída, mas que de modo concreto implica apenas na gestão de um regime podre e em crise, que nada tem a nos oferecer enquanto possibilidade de vida, pelo contrário, reforça apenas o nível de exploração e desigualdade que historicamente são “estigmas” que recaem sobre os subalternos.

Nesse sentido, pensar a saúde no período atual implica considerá-la numa empreitada dialética num processo que constitua de fato a ruptura com a exploração burguesa, e que potencializa a saúde pública no Brasil sob direção das trabalhadoras e dos trabalhadores. Todavia, tais apontamentos não são realizados numa gama idealista, pelo contrário, aponto apenas a concretude de elementos que já existem, e que são germes de tal processo, afinal, nessa pandemia, quem de fato fez as coisas funcionarem se não as trabalhadoras e trabalhadores da saúde ? Entregadores que vivem na condição precária dos aplicativos, e de toda uma matriz da classe trabalhadora. Esse germe é a força de nossa classe, elemento concreto presente na realidade.

Além disso, finalizo essa pequena reflexão indicando também um filme sobre a obra de Jorge Amado. É uma produção nacional dirigida por Cecília Amada, neta de Jorge Amado. Em si, o filme modifica algumas questões do livro, ou deixa de apresentar algumas passagens, mas de modo geral serve bastante como uma forma de ilustração de uma sociabilidade que Jorge Amado identificou ao escrever a obra.

Referências

AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras. [1937] 2008.
ANDRAD, Homero Freitas de. O realismo socialista e suas (in)definições. Literatura E Sociedade, 15(13), 152-165. 2010. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2237-1184.v0i13p152-165. Acesso em: 17 Jun. 2021.

CANDIDO, Antônio. A literatura e a formação do homem. Ciência e Cultura. São Paulo, v. 24, n.9, p. 803-809, 1972.

GOFFAMAN, Erving. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução: Mathias Lambert. [1891] 2004.

LEVI, GUIDO CARLOS e KALLÁS, ESPER GEORGES. Varíola, sua prevenção vacinal e ameaça como agente de bioterrorismo. Revista da Associação Médica Brasileira [online]. 2002, v. 48, n. 4 [Acessado 12 Junho 2021] , pp. 357-362. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-42302...> . Epub 28 Jan 2003. ISSN 1806-9282. https://doi.org/10.1590/S0104-42302002000400045.

SCLIAR, Moacyr. Literatura e medicina: o território partilhado. Cadernos de Saúde Pública [online]. 2000.

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Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)
Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)
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