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Estados Unidos: estudantes negros da Universidade de Missouri derrubam reitor racista

O reitor da Universidade de Missouri, Tim Wolfe, renunciou ao cargo depois de grandes protestos de estudantes por conta da maneira como a administração atuou nos denunciados casos de racismo dentro da universidade.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 18 de novembro de 2015| Edição do dia

Segundo relatos, sistematicamente acontecem ataques racistas, como pinturas de símbolos nazistas nas pareces, insultos e xingamentos aos negros, ataques a atividades culturais levadas por negros, e sem que a direção da universidade tome posição sobre os fatos.

Durante várias semanas, estudantes negros realizaram manifestações contra o que chamaram de uma “resposta pífia” aos insultos raciais e vandalismo praticados contra estudantes negros. Eles também exigiam uma resposta da instituição ao assassinato de um estudante negro, Michael Brown, em Ferguson (cidade do Missouri). Michael, conhecido como “o gigante gentil”, tinha 18 anos e acabara de ser aceito na universidade, quando foi morto por um policial branco, como expressão do ódio racista das forças repressivas norteamericanas.

Os assassinatos de Mike Brown, Eric Garner e Freddie Gray abriram fenômenos de rebelião negra e enfrentamentos com a polícia em Ferguson, Baltimore, Oakland e Nova York, além de um massivo movimento de solidariedade estampado na consigna #BlackLivesMatter.

Também o aluno de pós-graduação da Universidade de Missouri, Jonathan Butler, iniciou uma greve de fome na semana passada, o que apressou a queda do reitor. No último sábado, jogadores de futebol americano, negros, igualmente se somaram ao protesto e prometeram boicotar as partidas e as atividades de outros clubes, até que Wolfe renunciasse. Os membros do corpo docente da Universidade realizam greve e a Associação dos Estudantes do Missouri, que representa mais de 27 mil estudantes de graduação, exigiu a renúncia de Wolfe. Finalmente, nessa segunda-feira, o reitor anunciou, em uma conferência de imprensa, que abandonaria o cargo.

Este acontecimento se desenvolve em meio a uma ebulição de lutas no movimento estudantil norteamericano. Em Cleveland, estudantes da Cleveland State University (CSU) marcharam junto a mais 115 campi universitários na "Million Student March", um movimento nacional contra o endividamento estudantil e em defesa do salário mínimo de 15 dólares a hora para os trabalhadores das universidades.

No ato da CSU, os estudantes se pronunciaram em assembléia contra a mercantilização da educação pública e superior, "usado em benefício das classes capitalistas" e "abrigando a mais dura exploração do trabalho", ao invés de servirem como instituições de ensino. Os estudantes defenderam que as instituições poderiam ser facilmente convertidas em estabelecimentos públicos, com financiamento público, através da "redução do orçamento militar e a taxação das grandes fortunas". Mais alentador ainda, ao saírem do prédio, os estudantes, em sua maioria negros, cantavam "A Internacional".

Em vários campi, os estudantes denunciam não apenas a utilização da educação superior como meio de obter lucros, mas também se solidarizam com causas internacionais como a causa palestina contra o Estado assassino de Israel, contra o racismo - em solidariedade aos estudantes de Missouri - e a favor de melhores condições de trabalho para os funcionários dos campi. Nisto podemos enxergar a influência clara do espetacular exemplo do movimento estudantil sulafricano, que em meio à luta contra o aumento das tarifas universitárias, levantaram a bandeira do anti-imperialismo e a defesa da efetivação imediata e inquestionável de todos os trabalhadores terceirizados da África do Sul no quadro de funcionários efetivos, algo que conseguiram realizar nas universidades.

Ademais, este movimento coincide com a greve dos professores de Chicago, que em 2009 protagonizaram a greve mais longa na história dos Estados Unidos e colocaram desvendaram claramente o reacionarismo inerente aos partidos Republicano e o Democrata, de Barack Obama, cuja estratégia comum foi afogar a greve para que não servisse de exemplo num país que criminaliza o movimento operário, impede a sindicalização e tem tolerância zero para qualquer mobilização operária.

O movimento estudantil, depois das experiências do OccupyWallStreet, viveram uma evolução importante nas greves da educação no Canadá em 2014, que agora ganham continuidade nos EUA, com contornos mais claramente de enfrentamento ao lucro dos capitalistas que antes estavam ausentes. O protagonismo da juventude negra é produto direto da grande politização gerada durante as rebeliões contra o racismo policial, protestos que agora adentram algumas universidades. Além disso, a sintonia impressionante deste movimento inicial nos EUA com a vanguarda do movimento estudantil internacional, os estudantes negros sulafricanos com suas exigências programáticas avançadas e métodos radicalizados, mostra que as "ondas de choque" da juventude internacional com a precariedade da educação e a falta de futuro estão forjando uma nova geração para enfrentar a crise capitalista, desde as Américas até a África.




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