Internacional

Esquerda argentina lança vibrante campanha “Nossas vidas valem mais que seus lucros”

André Augusto

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 17 de maio| Edição do dia

O PTS, organização irmã do MRT na Argentina, como parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, iniciou a campanha política “Nossas vidas valem mais que os seus lucros”, com o lançamento de spots (propagandas audiovisuais) que já fizeram grande sucesso nas redes sociais. Com a proposta “reduzir a jornada de trabalho para 6 horas, 5 dias por semana, sem redução salarial” e que ninguém receba abaixo da renda mínima familiar, atraiu a atenção de dezenas de milhares, e entusiasmou especialmente setores da juventude trabalhadora e estudantil, que vive precarizada sem poder concluir seus estudos porque precisa deixar a vida no trabalho.

Através das principais referências da esquerda argentina, Nicolás Del Caño e Myriam Bregman, os primeiros vídeos desta campanha, que ataca um dos núcleos fundamentais da sociedade capitalista, chegaram a mais de 1 milhão de visualizações. Muito além de preparar uma forte campanha militante, trata-se de colocar na ofensiva a batalha por ganhar a consciência de milhões de jovens e trabalhadores com ideias anticapitalistas e socialistas.

Sou Carla, estudante de Direito. Trabalho 9 horas por dia, de segunda a sexta. Das seis matérias em que me inscrevi no primeiro ano de faculdade, agora só posso manter duas por trimestre. Estudo como posso, no trem, no ônibus, na hora do almoço. Somos muitos nesta situação. E muitos outros tiveram de abandonar a faculdade. O trabalho me destrói a cabeça. Mas não me dou por vencida, realmente quero me formar, porém se torna cada vez mais difícil. E porque não quero me resignar a viver assim, apoio a proposta de Nicolás Del Caño.

Propomos reduzir a jornada de trabalho a 6 horas, 5 dias, repartindo as horas de trabalho entre empregados e desempregados, sem redução salarial, e que ninguém receba menos que a renda mínima familiar. Sabemos que Macri representa sua classe, e que com a cumplicidade do peronismo, veio governando para os ricos e grandes empresários.

Porque nos dizem que somos o futuro, mas estão nos roubando o presente.
Porque a vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores em todo o mundo valem muito mais que seus lucros!

Em outro spot da campanha, um jovem trabalhador precário de redes de fast-food coloca o problema vivido por centenas de milhares de jovens: a rotatividade do trabalho acaba com qualquer possibilidade de planejar a vida, inclusive estudar. A falta de emprego deixa a juventude à mercê da ganância dos capitalistas, que constroem este enorme “exército industrial de reserva” como dizia Marx, para diminuir os salários e chantagear os trabalhadores empregados.

Sou Juan, tenho 22 anos. Aos 18 consegui meu primeiro emprego, contratado por uma terceirizada. Trabalhei 6 meses numa oficina. Quando acabou o contrato fiquei 3 meses sem nada. Consegui outro emprego com turno rotativos e tive de deixar de estudar. Desde esse momento minha vida é assim. Quando não tenho emprego não posso estudar, nem sair, nem fazer quase nada porque não tenho dinheiro. Se consigo algo, é sempre rotativo e com escalas imprevistas, e posso levar até duas horas de viagem tanto na ida quanto para voltar. É impossível projetar qualquer coisa. Por isso apoio a proposta de Nicolás Del Caño.

Propomos reduzir a jornada de trabalho a 6 horas, 5 dias, repartindo as horas de trabalho entre empregados e desempregados, sem redução salarial, e que ninguém receba menos que a renda mínima familiar.”

Importante lembrar que esta campanha da esquerda argentina tem um caráter internacionalista. Myriam Bregman, que foi deputada federal do PTS pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, foi a única que denunciou no Congresso argentino o golpe institucional no Brasil, e saudando a grande greve geral brasileiro do último dia 28 de abril.

A campanha invade as estruturas de trabalho e estudo, com muita criatividade. No hall da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA (Universidade de Buenos Aires) – que recebe quase 15 mil estudantes por semana – não se pode passar com indiferença diante dos impactantes painéis realizados pela agrupação estudantil EnClaveRoja (que organiza a juventude do PTS e independentes), que imprimem esta campanha que tem Del Cãno e Bregman como portavozes. O recurso? A série Rick e Morty, parafraseando o lema da campanha Nossas vidas valem mais que seus lucros.

A campanha política “Nossas vidas valem mais que os seus lucros” deixa uma mensagem clara: que os capitalistas devem pagar pela crise que criaram.

Ao longo de sua história a classe trabalhadora conquistou a redução progressiva da jornada de trabalho até as atuais oito horas diárias que regem “legalmente” na maioria dos países (ainda que os capitalistas violem permanentemente este limite, usurpando os finais de semana, utilizando o chamado “banco de horas”, etc.) mas isso não foi uma concessão alegre dos empresários e industriais, ou um presente da “mão invisível do mercado”, mas uma conquista arrancada com muita luta e sangue. Assim mostra bem Marx n’O Capital usando o exemplo dos trabalhadores ingleses e irlandeses que trabalhavam 12, 14, ou 16 horas por dia. A jornada de trabalho de 8 horas foi a grande bandeira dos mártires de Chicago em 1886. Na revolução russa de 1917, a demanda pela redução da jornada foi um poderoso fator de organização e elevação da consciência de classe contra o czarismo.

Apesar dos enormes avanços tecnológicos e a diminuição do tempo socialmente necessário de produção, há quase um século não se modifica o parâmetro das oito horas de trabalho! Mais ainda, como se pode observar facilmente na vida cotidiana, os empresários colocam toda sua “inventividade” para aumentar este tempo de trabalho grotesco e totalmente desnecessário a serviço de seus lucros.

Não defendemos uma sociedade baseada no trabalho (somos marxistas, queremos liquidar a escravidão assalariada, chamada "sociedade baseada no trabalho"): lutamos por uma sociedade em que o trabalho humano seja o mínimo possível, que os avanços tecnológicos se encarreguem do "imundo trabalho", para que a humanidade se dedique à investigação, à ciência, à arte e à cultura, e para unificar as forças produtivas das principais potências mundiais acabando com as fronteiras nacionais. Uma sociedade comunista, de produtores livremente associados, verdadeiro início da história humana, que só pode ser alcançado destruindo os capitalistas a nível mundial.

Novos vídeos sairão nas próximas semanas, campanha que cobriremos aqui no Esquerda Diário.




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