Política

CAMPINA GRANDE (PB)

Esquerda Diário debate política nacional na plenária municipal do PSOL em Campina Grande (PB)

No dia sábado 18 de junho no Sindicato dos Bancários em Campina Grande (PB) foi realizado um debate sobre conjuntura política nacional intitulado: “Crise Política: Desafios e Perspectivas” que contou com a participação do Professor de Ciência Política Gonzalo Rojas pelo Esquerda Diário e de Gilmar Felipe pelo MST, na plenária municipal do PSOL dessa cidade.

Shimenny Wanderley

Campina Grande

quinta-feira 23 de junho de 2016| Edição do dia

Depois das palavras inicias a cargo do presidente do PSOL de Campina Grande, Celso Batista, foi Gilmar Felipe, pelo MST, que iniciou sua apresentação tentando explicar a política do MST em relação aos governos petistas, com um primeiro momento de crítica ao PT, sua opção pela política de conciliação de classes apenas para posteriormente concluir que na realidade “o PT não tem responsabilidade política e que a estratégia de conciliação de classes foi o que tardou o golpe”.

Afirmou que existe um processo de golpe contra os governos de centro-esquerda com a finalidade de privatização, com a transferência dos investimentos públicos para o privado, legitimado pelas parcerias público-privado, sem mencionar as políticas destes governos nesse campo.

Para ele, o MST nunca teve ilusões de que o PT faria a reforma agrária, principalmente por ter optado por um governo de conciliação de classes e que para garantir sua governabilidade cedeu mais para a classe dominante do que para os trabalhadores. O que em si já é escandaloso, Gilmar trata de tornar “de manual”, algo típico do liberalismo petista que concilia com a direita e a patronal. As justificativas tardias de sua subordinação absoluta ao petismo são pouco úteis para salvar a imagem do MST. Gilmar teria de explicar porque então o MST alimentou durante mais de uma década a idéia de que o PT realizaria esta reforma quando em verdade se aliou com os magnatas do agronegócio como Blairo Maggi contra os trabalhadores rurais e os grupos indígenas (nem falar da relação privilegiada com Kátia Abreu e a nefasta bancada do boi).

Mencionou o tema da governabilidade petista fortalecendo “simultaneamente o capital e forças populares esquecidas” para afirmar que estamos frente a um retrocesso, para concluir que o poder Judiciário foi o mentor intelectual do processo de golpe, sendo determinante para este fim, sem relacionar com os interesses do bloco das classes dominantes nem mencionar o papel dos governos petistas no fortalecimento das instituições autoritárias tanto do judiciário como da Policia Federal que hoje são protagonistas do golpe institucional.

Em sua análise, Temer pode não ficar na presidência, mas vai deixar como herança: repressão e criminalização das lutas sociais, desmonte das políticas públicas e retirada de direitos trabalhistas, sem mencionar que os ataques já haviam sido iniciados pelos governos petistas.

Para Gilmar a saída deve ser a partir da união de todas as forças, construindo uma unidade de luta pelo Fora Temer, ao mesmo tempo que é necessário discutir projetos para o depois, ter como tarefa investir no trabalho de base, reconhecendo a perda no movimento sindical, que se manteve apático durante esse período, se reduzindo a luta de resultados e não política. A unidade apresentada desta forma, sem programa é acrítica e funcional aos interesses eleitorais do lulismo e a burocracia pelega cutista criticada momentos antes.

Em síntese, na intervenção de Gilmar esteve totalmente ausente uma estratégia política ofensiva de combate ao golpe de Temer, fazendo jus ao que fizeram o MST, a CUT e a CTB, que contiveram qualquer mobilização independente dos trabalhadores no curso do golpe e depois, para canalizar a raiva popular contra a direita no desejo reacionário da volta de Lula em 2018.

Gonzalo Rojas, pelo Esquerda Diário, fez uma intervenção política completamente diferente que a anterior se colocando do ponto de vista da independência da classe trabalhadora como vem sustentando este jornal.

Inicialmente realizou uma introdução onde se apresentou desde o Jornal Esquerda Diário (Brasil) impulsionado pelo Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) que faz parte de uma rede internacional de jornais que inclui La Izquierda Diário da Argentina, México, Chile, Uruguai e Bolívia, IzquierdaDiario Espanha, Revolution Permanente da França, LeftVoice nos Estados Unidos e KlassegegenKlasse na Alemanha.

Depois apresentou dois eixos gerais principais para poder entender a força da crise política no Brasil: a situação em relação a crise econômica mundial do capitalismo e seus impactos no país e o giro a direita na superestrutura política latino-americana.
Do ponto de vista da crise geral do capitalismo expressou que não estamos frente a uma crise cíclica “normal”, mas frente a uma crise estrutural do capitalismo mundial. Isto significa que não estamos numa situação “de ciclos normais” onde há um período de expansão, se sucede um período de retração para depois tomar novo impulso outro período de expansão, já que deste ponto de vista as perspectivas de crescimento da economia mundial são raquíticas até nos países capitalistas avançados, senão que é a crise iniciada no ano 2008 é muito mais profunda, já que se inicia na principal potência imperialista mundial (Estados Unidos) e articula de forma desigual e combinada crises econômicas, políticas e sociais que se manifestam de forma particular em cada formação econômico-social, mas batem muito forte na América Latina em geral e no Brasil em particular.

Em relação a este tema consideramos importante a leitura do artigo de André Augusto intitulado: “Economia mundial: coluna vertebral da crise econômica brasileira”, publicado por este jornal o dia 07 de junho deste ano. O que fica claro é que a crise capitalista não foi apenas uma “marolinha” como afirmou Lula, seus desdobramentos geraram elementos do tsunami que contribuíram decisivamente, articulados a crise política para afastar Dilma da Presidência.

O segundo eixo que Gonzalo explicou, foi a partir de um quadro geral, alguns indicadores nos permitem afirmar que estamos presenciando no cenário político da América Latina um giro a direita na superestrutura política como: o triunfo eleitoral de Macri na Argentina; a derrota do plebiscito pela re-reeleição de Evo Morales, a gigantesca crise política na Venezuela com o Parlamento tentando cortar o mandato de Maduro procurando formas de antecipar as eleições e nesse contexto o impeachment de Dilma, através de um golpe institucional no Brasil.

Se pronunciou contra o golpe com argumentos bem diferentes que os dos ex-governistas. Argumentou que o impeachment, é uma medida antidemocrática, bonapartista, que ficou na Constituição Brasileira como resquício de uma transição pactuada entre a ditadura militar e o regime político constitucional, afirmando que nem o Parlamento dos conchavos, nem uma justiça de classe pode ter autoridade política para passar por cima de milhões de votos.

Segundo Gonzalo Rojas o balanço que tem que ser realizado é que foi o próprio PT quem abriu o caminho para o avanço da direita articulada com uma estratégia de controle das organizações de massas, para passivando-as permitir passar os ajustes de “seu” governo.

A preocupação foi destacar que é importante levantar o “Abaixo Temer golpista” no marco de uma estratégia política revolucionária, questão central para se delimitar politicamente dos grupos ex-governistas e seus satélites.

Enfatizou que o Fora Temer e o combate a seu governo, não pode ser feito a partir de alianças com a direita, como apontam Lula e o PT. A posição de Lula, que propõe fazer uma “oposição responsável” para “não incendiar o país” é parte de sua estratégia de fato de assumir que o golpe já passou e pensar nas suas possibilidades eleitorais no ano 2018. Neste contexto o caráter do “todos juntos pelo fora Temer”, defendido na mesa pelo MST também, depois de anos governando com os métodos corruptos dos capitalistas, não passa de uma estratégia de conchavos políticos com fins eleitorais.

Gonzalo Rojas também destaca a passividade das burocracias sindicais como a CUT e CTB, frente ao processo do golpe e depois, que na verdade estão mais preocupadas em garantir seus espaços nos aparelhos que dirigem, que em organizar a luta com os métodos da classe trabalhadora. Existe uma clara articulação entre o pacifismo do PT e o controle político da burocracia sindical sobre os trabalhadores através de suas organizações de massas.

A posição do PSOL em geral se situa entre a defesa irrestrita Lava Jato, defendida por Luciana Genro, defendendo que uma instituição corrupta, arbitrária e cheia de privilégios como o judiciário poderia “acabar com a corrupção”, e a adoção das práticas políticas petistas. Estas posições, num sentido contrário, tem em comum a ausência de uma estratégia política de independência de classe.

Finalizou sua intervenção afirmando que a saída para a crise tem que estar pautada na independência política da classe trabalhadora, através de um programa que permita intervir na luta de classes. Por isso explicou que é necessário articular o combate ao governo Temer com a luta por uma saída política de fundo para os trabalhadores e a juventude através de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela mobilização, se diferenciando daqueles que pretendem uma constituinte exclusiva (meramente dedicada a maquiar o regime político antidemocrático atual que dificulta tremendamente ou exclui a participação política dos trabalhadores e seus partidos de esquerda nas eleições, como o MRT).

A defesa dessa constituinte deve ter uma perspectiva anticapitalista e transicional, que em base à luta de classes contra as demissões e as perdas salariais que aumentaram a exploração do trabalho nos últimos meses, ataque os direitos de propriedade dos capitalistas, liquide o pagamento da fraudulenta dívida pública, imponha que todo juiz ou político de alto escalão seja eleito, revogável e receba o mesmo que uma professora, estatize sob controle operário as empresas estratégicas e rompa relações com o imperialismo, realizando uma radical reforma agrária que o PT nem sequer começou em 13 anos. Deve servir portanto não para recomposição do regime político, e sim ser conquistada pela mobilização dos trabalhadores e juventude.

Abriu-se espaço para intervenções dos presentes, onde os principais pontos levantados foram sobre a responsabilidade do PT sobre esse processo, a fragmentação da esquerda, a necessidade de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, não exclusiva que colou num setor da militância do PSOL e questão das opressões e sua relação com a classe trabalhadora, bem como os limites do projeto democrático popular.

Entre estes diferentes temas Gonzalo Rojas escolheu três para fazer suas considerações finais.

Sobre o tema da relação entre opressão e exploração e reconfigurações da esquerda e os sujeitos políticos, destacou o papel da classe trabalhadora na França onde há 3 meses os trabalhadores e a juventude revolucionária e anticapitalista estão lutando contra a reforma trabalhista com os métodos de ação direta. Chamou a não reproduzir incompatibilidades entre explorados e oprimidos como pretendem os acadêmicos e uma “nova esquerda” sem sujeitos, que o que unifica é a política e o programa revolucionário com centralidade na classe trabalhadora e sua aliança com a juventude e os setores oprimidos da cidade e do campo. Nesse momento destacou a importância das ocupações das escolas secundaristas, bem como a ocupação da USP e Unicamp sublinhando a necessidade de transformar a luta pela educação em luta política, como faz a juventude da Faísca e o MRT.

O segundo tema é que não dá de jeito nenhum para separar o fracasso da política de conciliação de classes do PT do programa democrático-popular defendido, entre outros, pelo MST. Afirmou que o fracasso da política de conciliação de classes é o fracasso do programa democrático-popular, “nova” forma de apresentar de forma mais palpável para os desavisados a política estalinista da frente popular, defendida historicamente pelo PCB no Brasil, sempre tentando encontrar uma fração burguesa nacional para subordinar a classe trabalhadora, que supostamente teria conflitos com imperialismo no marco de uma revolução por etapas.

Enfim, aproveitando a oportunidade de realizar o debate de conjuntura frente a dirigentes e militantes do PSOL de Campina Grande (PB) destacamos mais uma vez como lutamos por uma saída de fundo a crise orgânica do sistema político brasileiro (econômica, política e social). A necessidade de um plano de emergência que faça barrar as demissões, abrir os livros de contabilidade das empresas que demitem em massa e a expropriação sob controle operário das fábricas que ameaçam fechar e roubar os empregos; escala móvel de salário e horas de trabalho, reduzindo a jornada sem redução salarial.

Por isso levantamos: Abaixo o governo golpista de Temer, por uma nova Constituinte imposta pela luta! E exigimos que a CUT e a CTB rompam com sua paralisia criminosa e levantem este programa com os métodos da classe trabalhadora, para que os trabalhadores façam com sua mobilização que os capitalistas paguem pela crise e decidam os rumos do país rumo a uma perspectiva de governo operário anticapitalista.




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