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Escandaloso aumento na concorrência no vestibular de medicina

sexta-feira 7 de agosto de 2015| Edição do dia

Segundo levantamento realizado pelo cursoPoliedro, a concorrência para o curso de Medicina nos vestibulares da USP, Unesp, Unicamp e Unifesp aumentaram enormemente se comparado os dados de 1980 com os de 2014. Enquanto a população brasileira aumentou em 67%, e a população do estado de São Paulo aumentou em 63%, os números de vagas ofertadas nestas universidades se mantiveram praticamente os mesmos: na USP e Unifesp se manteve igual, na Unesp também se manteve igual (mas com a implementação das cotas) e na Unicamp aumentou 22%.

Ao passo que as matrículas no Ensino Médio aumentaram em 160% nesses últimos 35 anos, não havendo nenhum processo de democratização do acesso à universidade, a concorrência, consequentemente, aumentou de maneira escandalosa: na Usp cresceu 35%, na Unifesp 40%, na Unesp a concorrência aumentou 88% e na Unicamp 663%(!!!).

A crescente elitização das universidades públicas paulistas

O sonho de cursar Medicina passa longe da maioria dos jovens trabalhadores, já que além da concorrência irreal, os custos para se manter cursando são igualmente absurdos, o que torna o curso ainda mais elitizado. De acordo com pesquisa do Enade de 2013, 84% dos estudantes disseram que não trabalham e que os gastos são financiados pela família ou outras pessoas.

Existem alguns cursos com perfil mais elitizado, porém, esse cenário faz parte de uma história de exclusão da universidade pública que não está restrita somente a esses cursos, mas sim ao projeto de educação que divide a educação para quem teve acesso a melhores condições socioeconômicas e educacionais e para quem cursou o ensino público, muitas vezes ainda conciliando com trabalho. Para alguns poucos existem as Universidade Públicas e algumas Privadas consideradas de excelência e para a outra grande maioria existem os cursos técnicos, o endividamento pelo FIES, o Prouni e até de repente alguns cursos dentro da universidade pública, mas serão os cursos à distância e com menor remuneração no mercado de trabalho.

O vestibular enquanto barreira para a juventude trabalhadora

O vestibular é colocado como sendo um sistema de ingresso ao Ensino Superior, mas, na realidade, é um sistema de exclusão - principalmente se formos ver o Ensino Superior Público, já que a experiência da maioria que passa por ele não é a de ser inserido, mas sim de ser barrado. Ou seja, é um filtro social para barrar a classe trabalhadora de ter o acesso à universidade. Barrar quem sustenta diariamente o seu funcionamento através dos impostos e que entra em seu espaço para garantir seu funcionamento, geralmente nos postos de trabalho mais precários, como são os postos terceirizados da limpeza, vigilância e manutenção.

Tal exame serve ainda à movimentação dos lucros dos cursinhos pré-vestibular e escolas particulares, que vendem através dos outdoors com rostos felizes de “bixos” [1] o sonho meritocrático de vencer a competição pela vaga na universidade. Aqui, o “sucesso” de ter entrado ou a derrota de ter “falhado” será condicionado ao mérito individual, recaindo o peso sob as costas dos indivíduos. É o que faz o cursinho Poliedro ao estampar em sua página principal a frase “Somos aprovação”, seguindo com a orientação de que “o aluno que cursar a turma Medicina deve ter consciência de que será um ano de muito trabalho e dedicação para alcançar seu objetivo (...). É necessário ter garra (...)”.

O incentivo ao esforço, à concorrência e “auto superação” passam a ideia de que não importa as diversas condições de estudo e de vida desiguais das classes sociais, basta se esforçarem para passar no vestibular. Essa ideia serve para esconder a total negligência do Estado na garantia de educação de qualidade e esconder o brutal sucateamento em que se encontra a educação pública. Os cortes de verba são bilionários, e as greves protagonizadas por professores de vários estados escancararam essa realidade já sentida pelos jovens nas escolas públicas.

Devemos nos levantar pela transformação radical da Universidade!

Na Unesp, a partir da greve e ocupações estudantis de 2013, barramos o PIMESP (programa racista do Estado de São Paulo que visava dificultar ainda mais o acesso de estudantes negros e oriundos de escola pública à universidade pública) [2] e conquistamos as cotas num sistema que prevê a reserva de 50% das vagas de forma gradativa para estudantes de escolas públicas até o ano de 2018 (15% em 2014, 25% em 2015, 35% em 2016, 45% em 2017 e 50% em 2018). Essa luta estudantil, por ter conquistas importantes no sentido do acesso e permanência na universidade foi duramente reprimida pela Reitoria que tentou suspender 95 estudantes por 60 dias com base no Regimento Disciplinar da época da Ditadura Militar, deixando claro que pune quem se coloca contra esse projeto elitista e racista de universidade.

Na USP, que recentemente aprovou a adesão parcial ao ENEM e ao SISU como forma de ingresso, o debate sobre as cotas está na ordem do dia. Algumas unidades irão aderir à esse sistema. Logo, serão cerca 13,5% de vagas disputadas através do ENEM, sendo que 2% do total de vagas ficarão destinadas para alunos negros. Cursos como o de Medicina, os da ECA e FAU não irão aderir ao modelo mantendo o perfil de cursos para os mais privilegiados.

A luta por cotas como parte da luta pelo fim do vestibular, junto a luta por permanência estudantil e pelo fim da estrutura de poder anti-democrática da Universidade fazem parte de uma mesma luta de transformação radical dessa universidade para poucos. Os poucos estudantes da classe trabalhadora que conseguem passar pelo filtro social do vestibular, se veem barrados em continuar os estudos devido à escassez de políticas de permanência estudantil. Por exemplo, com as cotas na Unesp, no ano de 2014, 14 das 90 vagas para o curso de Medicina em Botucatu foram reservadas para alunos oriundos de escola pública. No entanto, em um curso integral e com o alto custo de livros e materiais exigidos, a permanência se torna extremamente difícil.

A estrutura de poder anti-democrática da Universidade, expressa nos espaços de decisão (órgãos colegiados) e nas próprias relações professor-aluno em salas de aula, estão à serviço de manutenção desse projeto de universidade para poucos e da ideologia dominante, fazendo com que quase todo o conhecimento construído dentro desse espaço esteja diretamente destinado à acumulação do capital, com pesquisas, projetos e estágios vinculadas às empresas e formulação de políticas públicas governamentais.

É necessário que levantemos um forte movimento contra esse projeto de educação colocado para a juventude! Não podemos aceitar o futuro de endividamento, desemprego e celas que está sendo colocado para nós. O CACH da Unicamp fez o chamado de “Organizar a juventude para emergir contra a crise e o governo!” contra os cortes na educação e contra a redução da maioridade penal. Frente a todo esse processo de aprofundamento dos privilégios para poucos e de precarização para a grande maioria, é tarefa da juventude e do movimento estudantil combativo de esquerda se unir com um plano de lutas!




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