Entrevistamos Paula Almeida, tradutora de livro de Maiakóvski inédito em português

O Esquerda Diário entrevista Paula Vaz de Almeida, tradutora do livro "O que eu vou ser quando crescer?", de Vladímir Maiakóvski. Em tradução inédita e direta do russo para o português brasileiro, foi publicado pela editora Boitempo em dezembro de 2017, como parte das comemorações do centenário da Revolução Russa.

segunda-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

Esquerda Diário: O projeto do livro foi feito com base em sua primeira publicação, que aconteceu no ano de 1929. Você poderia nos contar um pouco do contexto histórico em que o livro está inserido e o porquê dessa escolha?

Paula Almeida: Maiakóvski escreve os sete poemas que compõem “O que eu vou ser quando crescer?” em 1928 e o livro sai no ano seguinte. Tanto do ponto de vista político como pessoal, foram anos muito difíceis para o poeta. Basta lembrar que ele se suicida em 1930. Como se sabe, eram intensas as dispustas que animara os ano vinte soviéticos, não só na arena política, mas também das artes. Maiakóvski era o poeta da Revolução, pois, além de um poeta revolucionário, me refiro à revolução que sua poesia representa para o verso russo, era um homem revolucionário e um bolchevique. E que pereceu, como muitos outros. Roman Jakobson fala sobre isso no ensaio “A geração que esbanjou seus poetas”, cuja leitura recomendo enfaticamente. Segundo o linguista russo, uma das marcas fundamentais de Maiakóvski é a celebração da tecnologia, da produção planejada, mas há também a convicção de que essa construção só faz sentido “sem o apego egoísta dos dias de hoje”. Essa formulação é do próprio Jakobson e é bastante válida pros dias de hoje, pois é da essência do capitalismo estimular esse individualismo radical que presenciamos, que nos espreita e com o qual tempos que lidar diariamente. Agora, tudo isso está na representação das profissões, e num sentido maior do que seria apenas uma euforia da época, como a animação com o bonde, a aviação, os carros ganhando as ruas. O que se percebe em cada um deles é a importância do coletivo, da participação de cada um com seu trabalho para o sucesso da sociedade. No poema sobre trabalhar na fábrica, o maior do conjunto, Maiakóvski escreve: “todo trabalho é único e necessário”. No dedicado à engenharia, diz: “o que precisa de todo mundo, não pode ter ninguém a menos”.

Foi por isso que nós escolhemos publicar a primeira edição de 1929. Existem muitas versões desse livro. Ele foi bastante popular na União Soviética e ainda é na Rússia de hoje, de modo que há diferentes projetos gráficos, com paratexto, digamos, mais de acordo com a estética das diferentes épocas em que saiu. Nós fizemos essa pesquisa e também a discussão se não seria o caso de fazer algo “mais contemporâneo”, vamos dizer assim. Acontece que as ilustrações de Níssan Chifrin recuperavam esse espírito, como, ainda, juntamente com a diagramação, que respeita as famosas quebras de versos maiakosvianas, imprimem o próprio movimento da época, além de ser muito moderno e atual. Por fim, tem o fato de que nos anos de 1920, devido aos esforços na área da educação, muitos artistas das vanguardas, em dupla, um poeta ou escritor e um artista gráfico, dedicaram-se à criação de livros para crianças. É algo realmente espetacular.

ED: Nas sete profissões representadas, Maiakóvski apresenta às crianças o mundo do trabalho a partir de uma outra lógica. Segundo Karl Marx, o que distinguia o pior arquiteto da melhor das abelhas é que o arquiteto projeta a sua construção em sua mente antes de executá-la, fazendo de seu trabalho uma intervenção consciente que constrói o mundo e, a partir disso, modifica sua própria condição de vida e sua consciência. A divisão social do trabalho surgiu com a sociedade de classes. Primeiro, a divisão sexual do trabalho, em seguida, uma divisão entre trabalho manual e intelectual. Você acha que essas questões são abordadas por Maiakóvski? De que maneira Maiakóvski expressa em seu poema o papel do trabalho na construção de uma nova sociedade, livre da exploração de um ser humano pelo outro?

PA: Excelente pergunta. Eu vou começar pelo segundo momento, de acordo com o que você apresenta, ou seja, pela divisão do trabalho entre manual e intelectual, pois essa está colocada bem claramente e tem ainda uma pegadinha do poeta. Os poemas se iniciam sempre com a mesma estrutura, e há a seguinte repetição: esta profissão é legal, mas aquela é mais ainda, e isso poderia sugerir uma hierarquia entre as profissões ou algum tipo de evolução dos ofícios. Mas isso é logo quebrado pela própria sequência das profissões: se, por um lado, “marcenaria é legal, mas engenharia é mais ainda”, por outro, “medicina é legal, mas a fábrica é mais ainda”. O mais interessante, ao meu ver, tem a ver com a reprodução do movimento do pensamento infantil, porque é muito próprio da criança se colocar dessa maneira diante das opções, diante do futuro como do sorvete. Então, não só não tem essa hierarquização, como não tem divisão hierárquica entre trabalho intelectual e manual, pois mesmo a abordagem das duas profissões que contam hoje com maior prestígio estão expostas de maneira bem diferente da qual as tratamos no capitalismo, de um modo geral, mas com especial fetiche no Brasil: a medicina e a engenharia. O engenheiro faz a planta, não o prédio, e ambas as etapas são igualmente representadas no poema e no seu complemento indispensável, a ilustração, como se Maiakósvski e Chifrin estivessem dizendo às crianças que o plano sem sua concretização não quer dizer muita coisa da mesma maneira que não se pode construir algo sólido sem um bom plano. Já o médico vai à cidade e ao campo, não fica no consultório, e cuida das crianças, pois é melhor prevenir do que remediar. É o único de cabelos e barba brancos, o mais velho, o sábio. Juro que fiquei pensando o que diria Maiakóvski sobre os jovens médicos brasileiros que atacaram seus colegas cubanos, por puro preconceito...

Agora, com relação à divisão sexual, não se pode dizer que era uma preocupação de Maiakóvski, embora, obviamente, como um revolucionário, ele defendia a emancipação das mulheres, combatia o amor romântico, embora fosse, é sempre bom dizer, um homem de seu tempo, tanto agente quanto sujeito ao machismo geral de sua época. O fato é que no essencial foi um soldado ao lado de suas camaradas das artes e da política. Mulheres, que, organizadas ou independentes, promoveram avanços realmente inéditos, para nós, brasileiras, até hoje, e ainda muito menos hoje. De todo modo, se não há propriamente uma proposição de participação feminina no mundo do trabalho tampouco há uma divisão do trabalho de acordo com o gênero, também não há no poema, quero dizer, em seu conteúdo, isso é fundamental, uma divisão dos trabalhos por gênero, já que essa questão fica totalmente diluída na própria linguagem. Isso, claro, é mérito do poeta, mas também da língua russa. Ocorre que, no original, fala-se dos profissionais, e os substantivos da língua russa para vários deles, como é o caso específico dos escolhidos pelo poeta, embora sejam palavras masculinas, são utilizados para se referir aos dois gêneros. Em português não é assim, embora se tenha palavras como “motorista”, aliás, uma das ocupações. Foi por isso que achamos mais adequado traduzir os “profissionais” pelas profissões, por exemplo, “carpinteiro” por “carpintaria”, “marinheiro” por “marinha”.

Se falo nós, não é devido a nenhum tipo de ranço, é porque foi uma decisão coletiva, primeiro com as editoras, Ivana Jinkings e Thaisa Burani, e depois com os revisores técnicos, Ekaterina Vólkova Américo e Flávio Aguiar, do russo e do português, respectivamente. E também nas ilustrações essa indeterminação, ou secundariedade, talvez seja mais preciso dizer assim, estava presente. Outro motivo para termos escolhido a primeira edição, de 1929, mas fazendo uma adaptação. O trabalho feito pela ilustradora e artista gráfica Beth Ponte foi bastante sutil, bem preciso, cirúrgico no sentido do que eu comecei a chamar de “tirar o excesso de homem”, com o perdão da palavra. Não se tratava, obviamente, de mudar as ilustrações originais, afinal, nosso objetivo era a primeria edição. E talvez nisso o fato de sermos quatro mulheres foi importante, porque tinha ali muita barba e muito bigode, e mesmo que nos dias de hoje a barba e o bigode continuem sendo muito bem-vindos, era incômodo, e até de acordo com a representação proposta ali, que é muito atual. Na publicação de 1929, as formas das personagens já propõem uma “neutralização”, se eu posso dizer assim, dos gêneros, ou pelo menos na sua representação mais imediata, binária, heteronormativa, por que não dizer, de homem e mulher. A vestimenta é um macacão de cor neutra usado por todas as personagens, ao qual os instrumentos relacionados a cada ofício vão sendo colocados e retirados para dar lugar à próxima possibilidade. E esse macacão é justamente aquele usado pela personagem pensativa da primeira página, que pode ser uma menina ou um menino, não está colocado, pode ter dezessete anos, mas pode também ser só uma criança diante do porvir. É preciso pensar que a adolescência, tal qual a concebe o mundo ocidental moderno, capitalista, que foi ganhando cada vez mais um sentido em si mesma, orientada para o consumo, não pertence ao universo do poema, por mais que o ano seja 1929. Vamos lembrar também que depois da Revolução as crianças passaram a ser parte da construção do novo mundo, não no sentido de lhes atribuir responsabilidades ou lhes preparar para a vida adulta, mas porque são parte integrante da sociedade. A Wendy Goldman fala disso no livro “Mulher, Estado e revolução”, publicação da Boitempo e da Iskra. E a nossa proposta seguiu essa linha.

Então, não é um catálogo das profissões do momento, como os inúmeros almanaques para jovens à beira do trucidante filtro social que é o vestibular em nosso país; nem Maiakóvski está se prestando a dar conselhos aos pequenos ou torná-los depositários do futuro, basta ver como ele se dirige aos camaradas futuros em “A plenos pulmões”. O final está em aberto, mas não deixa dúvidas: escolha a que gosta mais! Mas, sim, é preciso escolher. Ora, para que todos trabalhemos menos e nos humanizemos mais, precisamos de todas as mãos na obra. Se ele estava consciente do que viria a seguir, é outra história, mas há, sim, confiança na preparação daqueles que seriam, ou deveriam ser, os principais agentes da transição, afinal. E pra terminar de responder sua pergunta, eu volto ao ensaio de Jakobson, em que ele cita, recuperando “O percevejo”, uma peça teatral de 1929/1930, a rejeição de Maiakóvski à “substituição da dialética pelo compromisso, pela conciliação mecânica das contradições”. Em outras palavras, à burocratização da vida, que Maiakóvski recusou, como sabemos, até as últimas consequências. Em seu recado às crianças, essa recusa fica muito clara no trabalho com os versos, os jogos de palavras, a sonoridade, a língua cotidiana, a língua dos cartazes, que quase saltam das páginas e que eu espero ter conseguido recriar na minha tradução paras as camaradinhas brasileiras. Também no elogio ao lazer, o trem e o bonde são para dar mobilidade, levar ao bosque para descansar ao sol.

ED: Devido ao trabalho alienado e explorado pela classe dominante, e à necessidade de estabelecer uma força armada para proteger os privilégios dos exploradores, como diz Marx em seus “Manuscritos econômico-filosóficos”, no capitalismo, o que faz o homem se sentir mais animalizado é justamente o trabalho, ou seja, o exercício de uma atividade que deveria ser a mais humana de todas. E acaba sendo o próprio trabalho que faz com que ele se sinta mais humano nas atividades mais animais, como comer, dormir, reproduzir-se. Além disso, é um trabalho no qual não se reconhece, pois o faz como “mais uma peça” no sistema capitalista a serviço do lucro dos patrões, do qual foge “como da peste”. Na sua opinião, qual lição esse importante representante da vanguarda artística do início do século XX, que expressou um movimento independente do primeiro estado operário triunfante no mundo, pode deixar aos filhos dos trabalhadores e a mães e pais, aos próprios trabalhadores de hoje?

PA: Eu acho que a principal lição é a educação. Veja, outra repetição insistente é o verso “só preciso que me ensinem”. Se você transporta isso para a sociedade de hoje, capitalista, que promove a escravização dos mais pobres, pelos meios mais opressores existentes e em constante desenvolvimento, você vai ver que todos nós temos muito a aprender com esse poema de Maiakóvski. A educação pública está em séria ameaça, e para a repressão de professores não falta aparato. Isso em todos os níveis da Educação, seja da educação básica, em nível estadual e municipal, em que bastante comummos professores em luta por seus direitos serem recebidos com muito repressão, seja no nível superior, com inúmeros ataques. E ao pensamento, de um modo geral, com exposições sendo censuradas e a própria Boitempo, mais especificamente a editora Ivana Jinkins com o livro de Marx para crianças. Fora toda a precarização, as condições absurdas a que estão submetidos professores e alunos, os cortes nas bolsas de pesquisa, etc., etc. Junte-se a isso as reformas e a política econômica que estão impondo para a maioria da população, promovendo a pobreza e a miséria, aumentando o abismo social e a luta de classes. Num país atado “ao pelourinho do mundo”, essa triste metáfora é de Joaquim Nabuco, um liberal, abolicionista, mas liberal, o esclarecimento é uma arma fundamental do povo oprimido. Só que para aprender é preciso que alguém ensine.

Essa é a grande inversão que o capitalismo opera, você aponta muito bem, impossibilitando nosso desenvolvimento humano num sentido mais pleno, por meio do sequestro da nossa capacidade produtiva, mas também da nossa capacidade de nos realcionarmos e da nossa própria subjetividade. Eu não falo em educação num sentido formal apenas, nem como um direito negado, mas do acesso ao conhecimento, tão mercantilizado,e por mais que se tenha internet, etc. Então se tem uma lição – eu pessoalmente acho que o Maiakóvski, como poeta e revolucionário, está mais interessado em dar acesso a instrumentos, mostrar caminhos, do que em ensinar – mas se tem uma lição, e algo a aprender sempre tem, e posso até estar me projetando, é de que as crianças precisam reivindicar que as ensinem, eu “preciso que me ensinem” é o que elas devem gritar, porque elas podem aprender qualquer coisa e muitas vezes pelos próprios meios e até umas com as outras, mas ninguém aprende nada sozinho.

Agora, não é um livro fácil, só porque é para as crianças, já que Maiakóvski não estava de acordo com subestimar a inteligência de seus leitores, tanto que é acusado de incompreensível para as massas. A Marina Tsvetáieva diz uma coisa muito interessante sobre isso: a Rússia é o primeiro lugar onde as pessoas estão aprendendo a ler poesia, ela também nota que os trabalhadores tinham mesmo muita dificuldade de compreender os versos, e não só de Maiakóvski, porque o problema não era de modo algum com o entendimento da mensagem, mas com a palavra escrita. Segundo a poeta, as pessoas se dirigiam a Maiakóvski dizendo que ao ouvi-lo, e como se sabe o poeta era grande orador, elas entendiam tudo, mas quando liam, não entendiam nada. Ora, havia um imenso esforço de alfabetização e muito engajamento em torno do projeto, e Maiakóvski envolveu-se de corpo, alma e voz. Ele mesmo diz no poema “Incompreensível para as massas”, em que responde aos ataques: o livro bom é necessário a mim, a você e ao operário. E às camaradas crianças; são 14 os poemas que Maiakóvski dedicou a elas. “O que eu vou ser quando crescer?” é um deles.




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