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Entre o passado e o presente: a situação da classe trabalhadora no capitalismo

Douglas Silva

A situação da classe operária é a base real e o ponto de partida de todos os movimentos sociais de nosso tempo porque ela é, simultaneamente, a expressão máxima e a mais visível manifestação de nossa miséria social. (ENGELS, 2008, p.41)

Entre o passado e o presente: a situação da classe trabalhadora no capitalismo

Douglas Silva

Quando Engels escrevia A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845), em plena revolução industrial e, com ela, o desenvolvimento do operariado como seu “produto imediato”, o capitalismo dava sua primeira mostra de como colocaria, a todo custo, o lucro acima das vidas dos trabalhadores. O autor dedica considerável atenção à exploração do trabalho de homens, mulheres e crianças, mas, também, sobre como as condições de vida – sob o capitalismo – se deterioravam frente à sede por lucro dos grandes industriais. Hoje, 175 anos após a primeira publicação da obra de Engels nos perguntamos: retomando as denúncias e reflexões do autor sobre a classe trabalhadora inglesa, qual a situação das mesmas nos dias atuais? O que podemos extrair, da obra, sobre o tratamento destinado aos que vendem sua força de trabalho aos donos do capital?

Durante toda a história do capitalismo, assim como vemos nos relatos apresentados por nosso autor, não foram poucas as doenças que se espalhavam nos bairros operários. O modelo de produção capitalista chamava atenção para o fato que, no intuito de extrair o máximo de lucro, os operários seriam empurrados às piores condições de vida. Na obra, fica nítido o erro que é separar a defesa das vidas – o que inclui melhores condições para se viver bem – da economia. Longe da falsa dicotomia dos tempos de crise como a do coronavírus, o capitalismo cria as condições do que a imprensa operária daquele período chamava de "assassinato social", quando a sociedade burguesa, com seus baixos salários – quando não o desemprego absoluto – e abandono do operariado à própria sorte, lançavam os trabalhadores à morte.

O desenvolvimento capitalista à custa de vidas operárias

O desenvolvimento dos operários no passado está intrinsecamente ligado ao surgimento das máquinas, ao avanço tecnológico – o qual abriu caminho para a expansão industrial – e ao desenvolvimento das grandes cidades carregadas pela poluição e péssimas condições de higiene. Por outro lado, o avanço daquele período não possibilitou aos trabalhadores, sob a lógica do capital, melhorar suas condições de vida. Ao contrário, ao passo que a indústria expandia, a vida dos operários se tornava ainda mais degradante, submetidos às priores condições de moradia, alimentação e expostos a todos os tipos de doenças de uma sociedade que ainda mal conhecia o saneamento sanitário. Em suma, o capitalismo construía sua marca como produtor da miséria humana, em prol do enriquecimento de uma parcela ínfima da população.

Portanto, Engels chama atenção para o impacto das enfermidades sobre os operários, como as condições de trabalho, desde os baixos salários, os quais mal garantiam a subsistências dos mesmos, e o pouco tempo livre que os expunham às mais variadas doenças e péssimas condições de higiene.

[...] quando as enfermidades chegam, quando o homem – cujo trabalho sustenta a família e cuja atividade física exige mais alimentação e, por conseguinte, é o primeiro a adoecer –, quando esse homem adoece, é então que começa a grande miséria. E é então que se manifesta, agora de forma mais aguda, a brutalidade com a qual a sociedade abandona seus membros justamente quando mais precisam de sua ajuda. (ENGELS, 2008, p.115)

Além do mais, como mencionado anteriormente, o capitalismo se desenvolvia ao passo que as cidades se tornavam mais povoadas e grandes parcelas de trabalhadores pobres se viam aglomerados em pequenos bairros operários. Desta forma, a partir de vários relatos e artigos da comunidade científica daquele momento, Engels chama a atenção para como as epidemias eram

[...] em geral três vezes mais mortíferas em Manchester e em Liverpool que nos distritos rurais; nas cidades, as doenças do sistema nervoso são cinco vezes mais numerosas que no campo, e as do aparelho digestivo, mais de duas vezes; nas cidades, as doenças pulmonares matam duas vezes e meia mais que no campo; nas cidades, as mortes de crianças causadas por varíola, sarampo, coqueluche e escarlatina são quatro vezes maiores que no campo; nas cidades, as mortes por hidrocefalia são três vezes mais numerosas que no campo e as motivadas por convulsões, dez vezes. (ENGELS, 2008, p.147).

A preocupação destinada aos impactos das enfermidades sobre os operários se dá, justamente, pelo tratamento reservado a eles pelo capitalismo em ascensão. Os burgueses de sua época, como os de hoje, eram responsáveis não apenas pelas péssimas condições de trabalho nas fábricas, mas, também, pela degradação das próprias condições de vida.

Toda miséria reservada aos trabalhadores, não raramente, os levava à morte. Fica mais do que nítido, nos dias de hoje, que longe da falsa dicotomia dos tempos de crise como a do coronavírus, o capitalismo cria as condições favoráveis à miséria humana e ao desenvolvimento das mais diversas doenças, seja pela maior exposição ou pelas dificuldades de tratamentos geradas pelo sucateamento da saúde, das privatizações e ataques promovidos por governos burgueses. Além, é claro, dos próprios salários que, não eventualmente, não permitem ao trabalhador nem mesmo uma boa alimentação e constituição de uma boa imunidade frente às doenças.

O cenário da obra de Engels não se trata de um passado que não ecoa no presente, pelo contrário, a ganância dos grandes industriais de sua época continua sendo a força motriz do capitalismo em crise. Dos grandes centros imperialistas aos países da periferia, como o Brasil, a crise, não criada, mas escancarada pelo coronavírus, lança luz sobre a precarização do trabalho e o total desprezo com as vidas humanas. A falta de garantias mínimas sobre a manutenção de seus salários e empregos empurra grande parcela da população para o desespero de ser praticamente obrigada a escolher entre suas vidas e a ganância gerada pela irracionalidade do modelo capitalista de produção.

O proletário [...] que só possui de seu os próprios braços, que consome à noite o que ganhou durante o dia, que está inteiramente sujeito ao acaso, que não tem nenhuma garantia futura de assegurar-se os meios mais elementares de subsistência – em função de uma crise ou de um capricho do patrão pode ficar desempregado –, está reduzido à condição mais revoltante, mais desumana que se pode imaginar. (ENGELS, 2008, p.155).

Como se não bastasse a miséria, suas vidas são sacudidas ao primeiro sinal de crise. Quando a sociedade se depara com momentos marcados pela falta de equilíbrio capitalista – quando o sistema não mais consegue responder às crises da mesma forma que antes e se atola em crises ainda mais agudas – a burguesia joga aos lobos os trabalhadores e suas famílias, geram condições ainda mais miseráveis para salvar seus lucros enquanto destina aos operários a miséria.

A condição de vida daqueles que trabalham hoje no Brasil

É nessas condições, entre o modelo de produção capitalista e as condições de vida propiciadas pelo mesmo, em que se desenvolvem as mais diversas contradições de um sistema que enquanto alcança diversificados avanços tecnológicos – como a própria 5G, que atualmente veio ditando os rumos da disputa comercial entre EUA e China – empurra cada vez mais setores massivos da população para a precarização do trabalho.

Ao lado da precarização, segue a carestia de vida destinada à maioria da população pobre. Como indicado por vários estudos, as piores condições de trabalho no Brasil seguem sendo ofertadas aos negros e às mulheres, os quais se encontram em situações de maior vulnerabilidade frente à crise do coronavírus. Afinal, o que mais se parece com os bairros operários apresentados por Engels do que as periferias do Brasil, com esgotos a céu aberto, moradias que possuem o dobro de pessoas, se comparado ao número de cômodos, e a falta do acesso à água tratada que ainda atinge milhares de brasileiros?

Se referindo à epidemia de cólera em Manchester, naquele período, Engels chama atenção ao pavor da burguesia quando se deparava com a própria miséria gerada pelo seu sistema de exploração. Sem nenhum arrependimento sobre levar suas vidas por cima da miserável vida dos operários ingleses, a burguesia, na verdade, temia que as consequências de tal miséria os atingissem, seja por meio de revoltas ou pela extensão que poderia alcançar as enfermidades de sua época.

Quando a epidemia deu seus primeiros sinais, uma onda de pavor envolveu a burguesia da cidade. De súbito, ela se recordou da insalubridade dos bairros pobres – e tremeu com a certeza de que cada um desses bairros miseráveis iria se constituir num foco da epidemia, a partir do qual a cólera estenderia seus tentáculos na direção das residências da classe proprietária. (ENGELS, 2008, p.105).

Assim como Engels chamava atenção para o fato da proliferação de doenças se fazerem tão presentes nos bairros operários – auxiliada pela escassez de cuidados básicos com a saúde dos trabalhadores por parte da sociedade burguesa daquele momento – hoje, no auge do capitalismo, a burguesia segue sem garantir os serviços mais elementares na área da saúde, por exemplo. De acordo com o levantamento feito pelo Instituto Trata Brasil, quase 35 milhões de brasileiros não possuem acesso à rede de água potável e 95 milhões não têm coleta de esgoto.

Além do mais, diferente do que alguns analistas burgueses tentam fazer crer, a crise, inclusive a sanitária escancarada pela chegada da Covid-19, não teve seu início no ano de 2020. Em 2013, o país teve mais de 14.982 milhões de casos de afastamento por diarreia ou vômito. Sendo que foram registrados 2.193 óbitos em razão das infecções gastrointestinais – 59% das mortes foram em pessoas com mais de 70 anos de idade, os mesmos com quem o presidente Bolsonaro parece nada preocupado em suas coletivas de imprensa sobre a pandemia.

Entre 2016 e 2036, estima-se que o valor presente da economia total com a melhoria das condições de saúde da população brasileira seja de R$ 5,949 bilhões, ou seja, todo o investimento calculado pela pesquisa destinado a saúde durante esses anos seria muito inferior ao pacote de R$1,2 trilhão anunciado somente para 2020 pelo governo federal, para salvar os bancos. Valor, inclusive, quase 10 vezes maior do que o destinado aos banqueiros durante a crise de 2008.

Ao passo que a carestia de vida aumenta, aumenta também o número de trabalhadores informais em decorrência da alta taxa de miséria crescente no país. De acordo com o IBGE, em 2018, antes mesmo da crise alcançar a proporção na qual se encontra hoje, o país tinha 13,5 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, a maior taxa em sete anos.

Os dados refletem a vida de milhares de trabalhadores hoje no país e demonstram que, longe de ser uma questão do passado, serviços essenciais seguem sendo negados pela sociedade burguesa a parcelas significativas de trabalhadores no Brasil e no mundo. Assim como os operários retratados pela obra de Engels na Inglaterra, hoje, no Brasil, ao contingente de operários das diversas fábricas do país se somam os milhares de trabalhadores informais que refletem a total precarização e miséria possibilitada pelo capitalismo.

Em 2019, um estudo do Instituto Locomotiva, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, apontou que quatro milhões de pessoas trabalham para serviços de plataformas digitais – como Ifood, Rappi e Uber – no Brasil. Seus trabalhadores fazem jornadas de trabalho muito mais longas que as oito horas previstas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), por exemplo. Muitos jovens, maioria das periferias das grandes cidades, pedalam de bicicleta até 12 horas por dia, além do percurso entre suas casas e os estabelecimentos de delivery.

Associadas às péssimas condições de trabalho estão as mais lastimáveis condições de moradia, alimentação e cuidados básicos com a saúde. A relação que Engels busca em sua obra, entre a vida dos operários, desde suas condições materiais mais elementares para sobrevivência, e o modelo de exploração capitalista, apontam os elementos essenciais para o autor afirmar “que as habitações operárias nos piores bairros urbanos, somadas às condições gerais de vida dessa classe, provocam numerosas doenças.” (ENGELS, 2008, p.138). Chamando atenção para as condições sanitárias, sua obra mantém um vínculo vivo entre o passado e as características indissociáveis de um capitalismo em constante processo de degradação da vida humana como apontam as pesquisas atuais.

Em suma, a produção da miséria, como ressalta Engels, segue a mesma lógica das mercadorias numa sociedade burguesa. Ou seja, se existem poucos trabalhadores, mão de obra, o preço tende a subir e as condições de vida a melhorarem, mas “se há muitos trabalhadores, o preço cai, vem o desemprego, a miséria, a fome e, em consequência, as epidemias, que varrem a ‘população supérflua’.” (ENGELS, 2008, p.122).

A miséria que nos foi legada e a emancipação para os novos dias

No cerne da questão referente às péssimas condições de vida da classe trabalhadora do passado e das condições atuais, está a condição de escravo assalariado do operário e a propriedade como direito inviolável da sociedade burguesa – ao menos a da burguesia.

Afinal, quem detém os meios necessários para a garantia de subsistência? Qual classe controla, por meio do Estado, o funcionamento de toda sociedade? A esse respeito, Engels nos diz:

O proletariado é desprovido de tudo – entregue a si mesmo, não sobreviveria um único dia, porque a burguesia se arrogou o monopólio de todos os meios de subsistência, no sentido mais amplo da expressão. Aquilo de que o proletariado necessita, só pode obtê-lo dessa burguesia, cujo monopólio é protegido pela força do Estado. Eis por que o proletariado, de direito e de fato, é escravo da burguesia, que dispõe sobre ele de um poder de vida e de morte. (ENGELS, 2008, p.118)

A burguesia e a irracionalidade do sistema capitalista garantem seus lucros a todo custo, por cima da miséria, da fome e da morte de milhares de trabalhadores, inclusive em períodos de maiores crises como a vigente. Fazem com que os trabalhadores acreditem que, entre a falsa dicotomia de vidas versus economia, não existe outra forma de organização da vida social que não seja a burguesa.

Como Engels nos chama atenção, conhecer a situação da classe trabalhadora é fundamental para pensar novos horizontes, para compreender que, longe de toda miséria e precarização oferecida pelos capitalistas, pode existir uma nova forma de organização social. Como ele diz, “o conhecimento das condições de vida do proletariado é, pois, imprescindível para, de um lado, fundamentar com solidez as teorias socialistas e, de outro, embasar os juízos sobre sua legitimidade [...]” (ENGELS, 2008, p.41). Portanto, conhecer a vida dos operários, ainda que com suas diferenças particulares ao longo da história, significa conhecer as condições necessárias para superar a situação atual das coisas, e avançar na compreensão e construção de um novo mundo pautado num modelo de produção em que nossas vidas possam valer mais do que o lucro – uma sociedade comunista.

REFERÊNCIAS:

ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. 1. Ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

http://www.tratabrasil.org.br/saneamento/principais-estatisticas/no-brasil/agua

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/03/24/internas_economia,836224/pacote-anunciado-pelo-governo-deve-liberar-r-1-2-trilhao-aos-bancos.shtml

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25882-extrema-pobreza-atinge-13-5-milhoes-de-pessoas-e-chega-ao-maior-nivel-em-7-anos

https://www.ilocomotiva.com.br/single-post/2019/04/29/ESTAD%C3%83O-Na-crise-aplicativos-como-Uber-e-iFood-viram-maior-empregador-do-pa%C3%ADs

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Douglas Silva

Estudante de Ciências Sociais da UFJF
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