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Entre distopia, ansiedade e revolução: diante da “missão mais importante da nossa geração”

Vitória Camargo

Entre distopia, ansiedade e revolução: diante da “missão mais importante da nossa geração”

Vitória Camargo

Nesta semana, Pujol, comandante do Exército brasileiro, defendendo o autoritarismo das Forças Armadas, com seu “braço forte” para atuar se necessário, afirmou que o combate ao Coronavírus talvez seja “a missão mais importante da nossa geração”. Usando outras palavras, há algumas semanas, também o diretor-geral da OMS declarou que estamos diante da crise que nos “definirá”. Vê-se que, dos militares aos organismos internacionais, a classe dominante sabe que as marcas, sejam políticas, ideológicas e em especial econômicas, da crise sanitária e de uma crise capitalista que se arrasta e agora dá saltos ao precipício, são profundas, ao passo que os desfechos possíveis são vários.

O Coronavírus encontra a geração filha da crise capitalista

É preciso partir de que o Coronavírus não encontra uma geração humana qualquer, nem rompe uma “normalidade” capitalista qualquer (se é que dá para chamar algo de normal na era do trumpismo, das disputas entre nacionalismos econômicos e das crises dos regimes políticos). O Coronavírus vai de encontro a gerações tanto "filhas" diretas da crise de 2008, quanto que tiveram suas condições de vida, como os idosos com as reformas da previdência, drasticamente alteradas a partir das necessidades dos ajustes burgueses. Vai de encontro a uma geração que enfrenta a pauperização desesperadora dos setores que se viram excluídos do “pacto social” neoliberal, dos desempregados, dos informais, dos ambulantes, dos trabalhadores por aplicativo da "uberização", enfim, dos que mais sentem o impacto de ter de escolher entre “direitos e emprego” ou “entre morrer de fome ou morrer de Coronavírus” - aqueles que Bolsonaro busca convencer com sua demagogia negacionista. Mas também vai de encontro à geração que, na juventude, teve seus sonhos e ilusões de ascensão social, de que a vida gradualmente melhoraria, frustrados pela crise de 2008 e seus efeitos. São os perdedores absolutos e relativos da globalização. Segundo emblemático artigo já relativamente antigo do jornal The Independent, os millenials, nascidos nos anos 80 e chegando aos 30 em meio à crise, são a primeira geração desde o pós-guerra a viver com renda menor do que seus pais.

O Coronavírus encontra também a geração das doenças psicológicas, do ritmo acelerado das redes sociais, do instantâneo, da alta conectividade, em oposição ao maior distanciamento nas relações. Se depressão, ansiedade, crise do pânico sempre expressaram patologicamente os dramas sociais no capitalismo, nunca antes se diagnosticou e medicalizou (e, nessa linha, lucrou) tanto em relação à saúde mental. Segundo a OMS, em 2019, o Brasil era o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de pessoas. O país se mantém no topo desse ranking desde pelo menos 2017, quando de 2008 a 2017 a OMS declarou um aumento de 18% nos casos, mundialmente, em comparação às taxas de 2005 a 2015. Além disso, no mundo, o suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos. Não há dúvidas de que a crise capitalista, suas incertezas, a precarização da vida e das relações econômicas e sociais, aprofunda os dramas, gera traumas, rompe planos e sonhos dessas gerações.

Se tudo isso é verdadeiro, estamos diante de um momento que potencializa e recria. Se em 2015 o principal debate colocado entre alas da burguesia e do imperialismo internacional talvez dissesse respeito ao "estancamento secular", afirmado por Larry Summers, isto é, sobre a diminuição da produtividade a longo prazo nesse sistema, em contraposição a um certo otimismo burguês de que, com a desalavancagem das dívidas, estaríamos caminhando para uma recuperação econômica; neste momento, pelo contrário, jornais burgueses não descartam a palavra, antes proibida, não somente de uma nova Grande Recessão, mas de uma Depressão econômica diretamente.

Assim, a expectativa quanto ao que se inicia e está por vir nas próximas semanas (meses, anos) não garante um sono tranquilo. Estamos caminhando para um cenário italiano no Brasil? O sistema de saúde de fato vai colapsar em Abril, como afirmou o Ministro? Seguiremos no ritmo alucinado e indiscriminado das notícias, às vezes pouco fiáveis, de corpos enterrados sem serem testados, da subnotificação? De fato, o Brasil "rejuvenesce o vírus" e distorce os grupos de risco? Como será a disseminação do Coronavírus nas favelas?

À parcela dos jovens e trabalhadores confinados em quarentena, multiplicam-se propagandas que tratam dos cuidados com as doenças psicológicas, indicam redes de apoio virtuais e se analisam nos jornais seus impactos também na saúde mental. Advertem que o alcoolismo, na quarentena, pode se aprofundar, bem como a ansiedade e a depressão. Investem pesadamente em aplicativos de streaming, jogos virtuais e entretenimento de massas. A questão é que, isolados em casa, talvez em contato com familiares que são obrigados a seguir nas ruas trabalhando, sob o temor de serem demitidos, diante da incerteza do pagamento dos salários, sem serem testados, neste momento há uma ansiedade de massas com certa razão de ser. Há uma brutal incerteza sobre o futuro, e raros prognósticos positivos.

Distopias e cenários pré-apocalípticos: novamente profecias auto-cumpridas?

Diante de tantas incertezas, mais do que nunca a interpretação de que um vírus apocalíptico, um "inimigo invisível", impossível de ser contido, está devastando o planeta e suas civilizações, extirpando vida humana por onde passa, torna-se supostamente mais factível. Como já escrevemos, as distopias vêm saindo caro à burguesia. A crise sanitária se dá após anos de investimentos da indústria cultural em distopias tecnológicas, em telas pretas, sem saída. Uma pandemia que impede parte da humanidade de sair de suas casas poderia desenvolver um intrigante enredo distópico. Por trás deles, há sempre uma força oculta, totalitária, que rege as vidas humanas em uma linha pré-determinada da qual é impossível escapar.

Assim, geralmente o que está por trás da suposta confirmação distópica e de todas as analogias com os cenários apocalípticos é uma profunda desilusão com o futuro, um pessimismo e um ceticismo exacerbados. Em 30 de Setembro de 2018, Letícia Parks escreveu sobre distopias: "a ideia de um futuro determinado previamente, independentemente das interferências subjetivas dos homens e mulheres de uma época, é uma ideia fundamental para evitar que esses homens e mulheres se vejam como sujeitos que definem os rumos da história. Ao passo que se acredita que o futuro necessariamente será ruim, aceitam-se que esses rumos não são controlados por ela ou pelos sujeitos de sua época, mas por um destino incontrolável da realidade, como se existisse um espírito que paira no ar e que costura a história sem qualquer interferência dos que nela vivem."

A questão é que, mais do que nunca, a noção do enfrentamento da humanidade contra um vírus, deslocando o eixo da guerra unicamente a esse inimigo, está contaminada por uma interpretação distorcida do papel dos sujeitos, que, contra o vírus, devem conferir aos governos que vieram atacando a saúde, aos empresários que estão unicamente preocupados com a manutenção de seus lucros, aos militares e seu "braço forte", a responsabilidade de regerem seus destinos. Isto é, neste momento, as previsões mais céticas ou pessimistas, que dão o caos, o apocalipse, o colapso e o agudo sofrimento, como um dado absoluto e exclusivo da realidade, contra o qual há pouco, se não somente o confinamento absoluto, a se fazer e "salve-se quem puder", terminam por se constituir como profecias também auto-cumpridas, por conferir confiança, força e autoridade a "agentes externos ordenadores". Agentes que, de antemão, por um lado, buscam um plano pré-determinado na hercúlea tarefa de reconstituir a ordem burguesa em crise. Por outro, pelo contrário, o que lhes falta é verdadeiramente um plano de guerra capaz de enfrentar o vírus - nem o mais elementar, que são testes massivos para garantir eficácia ao método da quarentena, há. O que queremos dizer aqui é que os porta-vozes do pessimismo e do ceticismo exacerbados, frente ao qual não há saída, acabam por fortalecer justamente os verdadeiros impulsionadores do sofrimento das massas, uma vez que bloqueiam qualquer possibilidade de outro sujeito, se não a burguesia interessada unicamente em salvar seus lucros, cedo ou tarde, de dar uma saída.

No Brasil, por exemplo, a combinação entre não se vislumbrar um sujeito independente, o negacionismo grotesco do presidente brasileiro, que choca, em contraposição à defesa da quarentena "generalizada" sem nenhum plano (com aspas, afinal, uma expressiva parcela da classe trabalhadora seguirá fazendo a sociedade funcionar), pode no imediato impedir que se confie de fato numa força capaz de alterar os rumos dessa trágica crise. Contraditoriamente, acaba por fortalecer justamente a ala que veio tratando os idosos como "gastos ao Estado", com suas reformas, os antigos golpistas que fortaleceram Bolsonaro e os que agora não apresentam nenhum verdadeiro plano de guerra, como Maia, Dória, enfim, sem falar nas direções da classe trabalhadora que nada têm a apresentar a não ser "confiem no Congresso e nos governadores".

Assim, como contracara, neste momento um "espírito de época" distópico termina por fortalecer os mais interessados em restaurar, em novas bases, a ordem que produz verdadeiramente o caos, que permite com que se chegue até aqui após décadas de degradação dos sistemas de saúde e ataques à classe trabalhadora e ao povo pobre, isto é, termina por fortalecer a burguesia e suas saídas autoritárias.

A luta de classes não está pausada, está acelerada

Não poderia deixar de ser mencionado que, das grandes distopias, as portadoras de um futuro tecnológico, onde inclusive as tecnologias passem a controlar tudo, sempre figuraram nos "clássicos". Refletindo sobre as velhas teses do "fim do trabalho" e do domínio dos robôs, há que se perguntar: onde estão os robôs agora trabalhando para garantir que toda a classe trabalhadora e o povo pobre estejam em suas casas em quarentena? Onde estão os robôs construindo casas para as populações de favelas e hospitais, para impedir o colapso do sistema de saúde? Por que, em fábricas como as de sabão e produtos de higiene, tão procurados nessa crise, o trabalho não está diminuindo, e sim aumentando? Por que a burguesia, que supostamente é empreendedora de si, apresenta tanta resistência em liberar a classe trabalhadora e colocar em xeque seus lucros?

Essas perguntas, atualmente, não passam de provocações já superadas, de antigas teorias que podem, ao máximo, figurar na "história das ideias", descoladas da vida material concreta e das dinâmicas do mundo real. Nesta semana, diga-se de passagem, parte da classe trabalhadora italiana entrou em greve. No Brasil, vimos, no início do ano, com a greve petroleira, que a classe trabalhadora não está estrategicamente derrotada. As teorias que forjaram gerações anteriores não são nada mais do que risíveis agora. Seja diante do segundo ciclo da luta de classes internacional, que também marca esta geração com toda força, seja diante de uma crise sanitária e capitalista de grandes proporções: aos olhos do mundo, reafirmemos que há somente uma classe que trabalha e ela faz tudo funcionar, como elabora brilhantemente Marx. A burguesia, como um parasita, atrela seu futuro ao trabalho dos explorados (e também, muitas vezes, oprimidos). Pelo contrário, em crises como essa, se os hospitais, as fábricas, os metrôs, os supermercados, não funcionam sem a classe trabalhadora, à qual faltam álcool em gel, máscaras, testes, e por aí vai, devemos dizer: cada fábrica, cadê metrô, cada supermercado funciona, e já é assim todos os dias, sem os empresários e patrões. É preciso que os trabalhadores assumam o controle, para garantir sua segurança, para que funcionem muito melhor e estejam a serviço dos interesses da sua classe, como dizem operários na França.

Com isso, enquanto há uma busca por atrelar a geração filha da crise a um "espírito de época" que mina a possibilidade de qualquer sujeito alternativo entrar em cena, esse sujeito está mais visível do que nunca e as ideias do marxismo ganham nova vitalidade. Aos que honrosamente aplaudem nas janelas, vejamos que nos aplaudidos está uma força de classe, não de indivíduos "cidadãos" atomizados. Diante da reafirmação da etapa imperialista, de crises, guerras e revoluções, a missão da nossa geração, definitivamente arrancada de qualquer perspectiva de estabilidade gradual e perene das conquistas graduais que o neoliberalismo buscou construir, passa por confiar em primeiro lugar na força da classe trabalhadora e querer dar uma resposta ao conjunto das angústias dos mais oprimidos e explorados, os que mais sofrem nesta crise. Apenas assim, é possível ver em seu horizonte não o caos desorganizado, a ser respondido com confiança nos carrascos, e sim a hipótese de enfrentar a catástrofe pela reorganização da produção e da economia para apontar a uma sociedade em que de fato se possa viver plenamente. Essa é a única maneira de combater o pessimismo das saídas individuais desesperadas e responder à ansiedade das massas em tempos tão sérios.

Referências:

Depressão e sensação de fracasso: outros frutos amargos do capitalismo

OPAS - Folha informativa - Saúde mental dos adolescentes

Netflix, Black Mirror e a distopia tão cara à burguesia

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