Sociedade

CORRUPÇÃO POLICIAL

Enquanto PMs recebiam propina, quem pagava era a juventude negra com mortes e prisões

O esquema de propinas de policiais a criminosos em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, mostrou que os policiais presos somavam 250 autos de resistência, além de explicitar que usuários eram presos no lugar de traficantes para "cumprir meta".

segunda-feira 3 de julho| Edição do dia

Os 96 policiais militares investigados na megaoperação da Polícia Civil de quinta-feira, 29, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, somam 250 autos de resistência, ou seja, quando o agente mata um suspeito, alegando legítima defesa. Na prática, todos sabem que os autos de resistência são expedientes jurídicos para legalizar o extermínio da juventude negra por parte da polícia. Execuções em grande escala nas favelas são feita e ocultadas sob o disfarce dos "autos de resistência".

Os PMs presos são suspeitos de formar um esquema de corrupção com traficantes. Quando faltava propina, eles diversificavam as modalidades de crime. Por três vezes no período de investigação, que resultou em 63 prisões, sequestraram traficantes que não conseguiram arrecadar o valor combinado. Eles também revendiam armas e drogas apreendidas para o Comando Vermelho.

Contudo, como não podiam ficar prendendo os traficantes para não perder sua fonte de subornos, eles passaram a prender usuários de drogas sob a acusação de tráfico. O recurso era utilizado para "bater as metas" de prisões de sua unidade (cuja existência por si só é um escândalo e exemplifica bem o que é o encarceramento em massa no Brasil).

O esquema era combinado com os traficantes: eles deixavam uma quantidade grande de drogas em um local pré combinado com os policiais, que iam lá e apreendiam. Então, os policiais prendiam algum usuário e o levavam para a delegacia, atribuindo a carga apreendida a ele e o incriminando por tráfico. Os traficantes, que viam seus "clientes" presos, não gostavam da prática. Mas era um preço baixo a se pagar para poder continuar com seus negócios.

A polícia ainda investiga se o aumento em quase três vezes dos roubos a cargas em São Gonçalo pode ter relação com o esquema de corrupção entre PMs do 7º Batalhão (São Gonçalo) e traficantes. Essa modalidade de crime cresceu 277% no primeiro quadrimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2014, quando começou a investigação.

De acordo com o delegado Marcos Amin, da Homicídios de Niterói e São Gonçalo, a atuação crescente de traficantes em roubos de cargas pode ter relação com a cobrança de dívidas por PMs envolvidos no esquema. O roubo de carga seria um modo de angariar verba para sustentar o esquema de propinas. "Há um investigação que aponta a um aumento no roubo de cargas. Possivelmente, isso seria fruto de um ‘bote’ de R$ 1,5 milhão de um traficante do Morro do Salgueiro", disse o delegado. "Um dos traficantes alvos da operação tomou um ‘bote’ (prejuízo) e teve de roubar carga para repor o dinheiro da boca de fumo", completou.

Até o momento foram presos 96 policiais militares e 76 traficantes. O número pode parecer alto, mas na verdade representa um bode expiatório. O esquema de São Gonçalo foi exposto, mas mostra como se dá o funcionamento habitual da polícia, tal qual os esquemas de Odebrecht e JBS mostram como é o funcionamento habitual do acordo entre empresários e políticos.

Os autos de resistência e a incriminação de usuários também são a demonstração de que, na guerra às drogas, quem lucra são os traficantes e a polícia, enquanto quem paga com suas prisões e mortes são os jovens das favelas que servem como "alvo" para a polícia poder continuar com seus esquemas de corrupção, lucrando fartamente com o tráfico.




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