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Luta contra Bolsonaro | Enfrentar a extrema-direita com a auto organização, sem confiança na institucionalidade

A morte de Genivaldo, homem negro dentro da viatura da PRF, o projeto de mensalidade para universidades públicas e outros ataques colocam a centralidade da retomada de um movimento estudantil combativo e auto-organizado contra esta corja reacionária, retomando a confiança dos estudantes na sua aliança com trabalhadores, e a maior unidade de ação possível das organizações estudantis e sindicais contra a extrema-direita, sem confiança na institucionalidade.

Marie CastañedaCoordenadora do CACS Marielle Franco da UFRN (Ciências Sociais)

sexta-feira 27 de maio | Edição do dia

A atrocidade racista realizada pela Polícia Rodoviária Federal do Bolsonaro contra um trabalhador negro no Sergipe, a violência policial de Castro no Rio que nessa semana realizou novas operações brutais e já matou 182 pessoas em 39 chacinas em 1 ano, o ataque neonazista na Unicamp, a PEC que institui a mensalidade nas universidades públicas, o ataque da extrema-direita a uma faixa no Setor 2 da UFRN por um assessor de deputado General Girão, apenas poucos dias após a homenagem escravista do deputado Coronel Azevedo em um evento em defesa da monarquia e a perseguição do interventor Bulhões na UFRGS colocam a centralidade da retomada de um movimento estudantil combativo e auto-organizado contra esta corja reacionária, retomando a confiança dos estudantes na sua aliança com trabalhadores, e a maior unidade de ação possível contra a extrema-direita, sem confiança na institucionalidade.

A extrema-direita quer abrir as asas e mostra a que veio, enquanto avança na privatização da Eletrobrás junto ao Congresso Nacional, busca meios para intimidar a juventude, seja na UFRN com o assessor do General Girão tentando remover uma faixa da juventude Faísca Revolucionária, com o Interventor Bulhões perseguindo os estudantes e trabalhadores do instituto de artes que se mobilizam por um espaço físico não infestado por escorpiões, ou com um grupo neonazista invadindo um bar frequentado pelos estudantes em frente à residência universitária da Unicamp. A proposta de instituir a cobrança de mensalidade nas universidades públicas com a PEC 206 é mais um forte ataque da extrema direita com Bolsonaro, alinhado a militares, do centrão e da direita como o MBL. Buscam avançar no projeto de massacre da juventude negra com a polícia do bolsonarista Castro que incrementa sua violência em busca de votos e no Sergipe em que a polícia rodoviária federal do presidente matou um homem negro brutalmente com uma cámara de gás improvisada em uma viatura. Para Bolsonaro e os militares, calar os questionamentos da juventude é tarefa central, assim como arrancar direitos e reprimir. Precisa ser prioridade nossa auto organização em aliança com os trabalhadores para respondermos à altura.

A assembleia geral realizada na Unicamp e a manifestação anti-racista contra a extrema-direita realizada na última sexta-feira precisa ser um exemplo de como o movimento estudantil se organiza contra a extrema-direita, apostando nas suas próprias forças. É por isso que nós da Faísca Revolucionária, junto a estudantes independentes na gestão do CACS Marielle Franco, convocamos uma assembleia da Ciências Sociais na última sexta-feira que tirou um dia de paralisação contra a extrema direita e viemos exigindo a realização de uma assembleia geral da UFRN. O movimento estudantil já demonstrou ser capaz de colocar dezenas de milhares nas ruas contra o governo Bolsonaro e seus ataques, como fez durante o Tsunami da Educação, as primeiras manifestações contra o governo Bolsonaro e Mourão. Uma experiência que precisa ser retomada e aprofundada desde as bases para seguirmos enfrentando essa extrema direita asquerosa. Moradores revoltados fizeram a polícia recuar em protesto contra a morte de Genivaldo no Sergipe, um exemplo a ser seguido:

E isso precisa ser feito sem confiar na institucionalidade, dentro e fora da universidade. Dentro da UFRN, é escandaloso que a diretoria do CCHLA ainda não tenha se pronunciado contra o ataque da extrema-direita, sendo que antes ela tinha sido responsável pela remoção da faixa no começo do semestre e voltou atrás depois da organização des estudantes contrária a essa ação autoritária. Já a Reitoria, responsável por administrar os cortes de Bolsonaro e do Congresso Nacional, veio com um discurso de responsabilidade científica, e tampouco se pronunciou. Por isso, exigimos o repúdio de ambas instâncias e que garantam plenas condições de organização e mobilização para estudantes, trabalhadores efetivos e terceirizados e professores, para que possamos organizar nossa luta contra a extrema-direita. Não temos qualquer confiança na estrutura de poder da universidade, que mantém trabalho terceirizado semi-escravo dentro da UFRN, além de acobertar casos de assédio nas Ouvidorias sob total controle da própria Reitoria e ataques, justamente por isso exigimos plenas condições de mobilização, sendo esse um direito básico do livre pensamento e da autonomia das universidades.

Esta situação também se dá nas outras universidades, onde nacionalmente as Reitorias mantém os campi no escuro, tanto literalmente quanto figurativamente sem acesso à totalidade das contas e a real situação financeira das universidades em meio a uma crise orçamentária histórica que é descarregada nos setores mais precários. Há também Reitorias que são diretamente dirigidas por Interventores bolsonaristas como o já mencionado Bulhões na UFRGS. Contra estes, também defendemos a autonomia completa dos estudantes, trabalhadores e professores para organizar sua luta, sem nenhuma confiança nas demais estruturas de poder, como os conselhos.

As universidades, especialmente federais, passaram por um processo de mudança na sua composição social, ainda que as vagas sigam sendo exclusivas para uma parte ínfima da população, em 2019 mais de 70% dos estudantes eram de baixa renda, que enfrentam o elitista ensino remoto e a precária permanência que é piorada pelos ataques de Bolsonaro e do Congresso Nacional.

Bolsonaro quer aprofundar o projeto empresarial para as universidades diante de uma crise orçamentária que na verdade é um projeto de precarização do ensino para privatizar as universidades públicas. O teto de gastos, os cortes bilionários na educação pública são expressão disso. Bolsonaro aprofunda a terra arrasada deixada pelo golpe institucional de 2016 na educação, que começaram com cortes implementados pelos governos do PT.

Consequentemente, defendemos que sejam justamente estes estudantes, juntos aos trabalhadores efetivos e terceirizados e professores, que decidam democraticamente sobre os rumos das universidades e seu funcionamento. Defendemos que é necessário arrancar uma assembleia estatuinte por meio da luta, com a dissolução da Reitoria e dos Conselhos Universitários e que seja construindo um governo tripartite das universidades, com maioria estudantil a partir da composição concreta das universidades. Isso se combina com a radicalização imediata do acesso, com as cotas proporcionais à população negra em cada estado rumo ao fim do vestibular e a estatização das universidades privadas e a garantia de permanência plena dos estudantes. Para defender uma universidade à serviço da classe trabalhadora e das maiorias populares, um enfrentamento contra a precarização acelerada imposta pela extrema-direita, é este programa que precisa ser levantado, sem nenhuma confiança na institucionalidade.

A confiança na institucionalidade tampouco pode nos dar respostas a nível nacional. Na recente batalha autoritária entre Bolsonaro e o STF, Bolsonaro saiu em vantagem conjuntural no que tange Daniel Silveira, contra a instituição judiciária que arquitetou junto ao Congresso Nacional e toda a direita e a extrema-direita o Golpe Institucional de 2016, manipulou com tutela dos militares as eleições de 2018 e abençoou cada um dos ataques que sofremos desde então, como por exemplo o Marco Temporal contra os povos indígenas e quilombolas e a terceirização irrestrita. Junto ao Congresso Nacional, tem a reacionária extrema-direita como produto da sua própria atuação durante os anos de governo do PT. A extrema-direita é a correia de transmissão dos ataques para fazer com que os trabalhadores paguem pela crise e precisamos nos contrapor inclusive programaticamente para dar um basta nisso, por isso defendemos a revogação da reforma trabalhista, todas as reformas e privatizações e o não pagamento da dívida pública para garantir inclusive meios para garantir saúde e educação.

Por isso, é necessário reconstruir um movimento estudantil que acredite unicamente na sua própria força organizada para lutar. Na UFRN, na Unicamp, na UFMG, na UFRGS, na USP e em todo o país construímos a Faísca Revolucionária para defender a aliança com a classe trabalhadora, a única essencial - como ficou provado na pandemia - neste sistema de miséria, opressão e exploração e que produz reacionários como Bolsonaro, Mourão e os militares, para lutar para realmente derrotá-los. Consequentemente, batalhamos pela aliança junto aos trabalhadores em cada processo de luta, como fizemos durante a greve dos professores de Minas Gerais e a greve dos garis no Rio de Janeiro há poucas semanas, e estamos batalhando agora em apoio aos trabalhadores da CSN.

Para a auto-organização des estudantes, democrática e combativa desde as bases, temos um empecilho concreto: a política levada adiante pela direção da UNE que, mesmo dirigindo centenas de diretórios centrais estudantis, não organiza os estudantes para lutar contra a extrema-direita desde as bases, uma necessidade urgente frente aos ataques contra os estudantes e trabalhadores com a privatização da Eletrobrás, com o avanço contra as cotas e também para as mulheres. Nesta última semana, Mayara foi assassinada em Campinas (SP), Estefani em Natal (RN) e em Minas Gerais uma série de mulheres trans foram perseguidas por um homem armado que atirava e uma trans foi atropelada num brutal caso de transfeminicídio. Enquanto isso, a UNE é dirigida pelo PCdoB e pelo PT, que atuam centralmente na campanha de Lula junto ao reacionário Alckmin ou em medidas parlamentares paliativas que majoritariamente não são levadas adiante. E nas bases das universidades se recusam a organizar assembleias democráticas pela base, ou só o fazem quando são praticamene obrigadas pela realidade e es estudantes. Sua estratégia é canalizar qualquer disposição de resistência mais ativa que possa existir contra a extrema direita e seus ataques para fazer campanha eleitoral, como se somente com o voto pudessemos fazer a extrema direita desaparecer. Mas esses ataques mostram como o bolsonarismo é uma força social que precisa ser combatida pela nossa autoorganização. Ao mesmo tempo que ao colocar Alckmin como vice, Lula demonstra toda sua submissão ao capital financeiro internacional, submissão no suprassumo da conciliação petista que nos trouxe até aqui, não é alternativa para enfrentar de fato a extrema-direita. Foi nos governos de Alckmin que o PSDB buscou avançar em projetos privatistas nas universidades estaduais paulistas, sendo USP e Unicamp as últimas universidades do país que aprovaram as cotas etnico-raciais somente depois de muita luta, se enfrentando com esse projeto elitista e racista do qual o vice de Lula sempre foi um dos mais exímios representantes.

A conciliação oferece troca de favores com Claudio Castro responsável por mais uma chacina, homenageado como chanceler da UERJ pelo ex-reitor e futuro candidato a deputado pelo PT, assim como deputados do PT e PCdoB estão votando juntos com Kim Kataguiri a ida do projeto de mensalidade nas universidades. Essas alianças com inimigos enfraquecem o combate necessário à extrema direita que sobe seu tom racista, autoritário e contra os direitos dos trabalhadores e da juventude.

Por isso nos inspiramos na juventude estadounidense, na geração U (Union de sindicatos em inglês) e suas Union Babes, onde jovens negres, latines, LGBTQIAP+ e o que mais se misturar no árco-íris são linha de frente de uma campanha de sindicalização histórica na Amazon, Starbucks, Chipotle e outros, mostrando a disposição da geração linha de frente do Black Lives Matter que lutar pelo seu futuro. Frente às eleições de meio mandato que se aproximam, fica mais evidente ainda como votar em Biden e no Partido Democrata não derrotou o Trumpismo. Existem diferenças estruturais e substanciais entre os Estados Unidos e o Brasil, um país imperialista e uma semi colônia dependente, mas a conclusão de que a escória trumpista não pode ser condenada à lata de lixo da história devido ao desvio eleitoral que promoveu o Partido Democrata, nos serve para pensar a luta contra o bolsonarismo e os militares. No recente escândalo de ataques ao direito ao aborto nos Estados Unidos, também podemos ver à quem estão à serviço as instituições do Estado burguês.

A votação da reacionária PEC 206 que pretende instituir a mensalidade nas universidades públicas foi adiada na CCJ. Para derrotar de fato esse duro ataque à educação pública e também para impor justiça por Genivaldo, é urgente organizar a mobilização pela base para construir um dia de paralisação nacional com atos de rua por todo país. A UNE, os DCEs e CAs precisam cumprir esse papel, com assembleias de base em todas as universidades, impulsionando a auto-organização dos estudantes em aliança com os trabalhadores para derrotar os ataques de Bolsonaro, militares, MBL e centrão. Batalhamos para que essa luta se desenvolva e que esteja nas mãos dos estudantes, por isso lutamos por eleger delegados de cada universidade para uma luta nacional contra a extrema direita.




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