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POLÊMICA

Em nome da “democracia”, André Singer defende estabilidade do governo Temer

Polêmica com recente texto de André Singer, ex-porta voz do governo Lula.

domingo 3 de junho| Edição do dia

Em coluna para Folha de S. Paulo, o ex porta-voz do governo Lula, André Singer, afirma que a greve dos caminhoneiros criou “o mais perigoso vazio desde a redemocratização de 1985” e celebra as “forças políticas [que] saíram da letargia para defender o regime democrático”. Em meio a uma das maiores crises do governo Temer, o intelectual petista aplaude a coalizão de contenção. A malandragem está em não dar nomes, mas as “forças políticas que saíram da letargia” configura um amplo leque que vai do Temer ao Exército, passando pelo PSDB, DEM, PT e demais partidos da ordem. A justificativa: se trataria de um putsch em curso no país.

Dessa forma André Singer escancara a necessidade de conciliação do PT para manter o governo Temer de pé até as eleições e o regime tal como é: avesso aos anseios de mudança da maioria da população, em especial da classe trabalhadora cansada com tantos aumentos, desemprego, ataques e mentiras. A greve dos caminhoneiros, animada por setores patronais do grande transporte e do agronegócio, visava grandes subsídios para o empresariado, ao mesmo tempo em que destampou os desejos de intervenção militar das viúvas da ditadura. Os impactos, por outro lado, geraram ampla desestabilização do governo Temer e do regime político como um todo. A definição mais acertada, remarcada pelo Esquerda Diário durante todo o processo, é a de que quem vem conseguindo canalizar essa insatisfação vem sendo a direita mais reacionária, calcada nas palavras de ordem de Intervenção Militar e da disputa por parcelas de subsídios visando o lucro. Desse ponto de vista seria um equívoco imenso apoiar as mobilizações em curso, guardadas todas as comparações delirantes com o fantasma de Plínio Salgado de lado. Tudo isso se deu graças ao papel que a CUT e o PT cumpriram de deixar nas mãos de setores patronais e de direita a radicalização. Bolsonaro e amigos agradecem.

E o texto de Singer escancara ainda mais esse problema. Coalizão nenhuma com os partidos da ordem e o Exército vai conter o crescimento da direita: apenas uma esquerda radical, com independência de classe, que pode apontar um caminho distinto para canalizar tamanha insatisfação vai fazer frente à direita. Ao invés de aproveitar a situação e erguer uma grande greve dos petroleiros, de forma a disputar a hegemonia desde um ponto de vista operário, Singer aplaude a coalizão entre as forças políticas para salvaguardar o regime de 88. Como a greve dos petroleiros foi traída pela CUT, a direita segue se fortalecendo.

Curiosamente o intelectual petista fala da tentativa de um putsch, mas nada fala sobre a presidenta do seu partido, Gleisi Hoffmann, sair publicamente apoiando o movimento. Gleisi estaria junto dos golpistas? Ou é mais um discurso eleitoral? Mas mais estarrecedor ainda é o silêncio de Singer com relação à CUT. Singer fala de um putsch em curso, resgata o fantasma de Plínio Salgado e do integralismo, até agradece a Deus junto de Temer pelo fim da greve - mas a CUT parece não entrar na equação. A verdadeira "sorte" de Temer, longe de ser o conforto da bênção de Deus relembrada positivamente por Singer ao final do texto, é a capacidade da CUT em apassivar e desmoralizar o movimento operário a não sair na ofensiva contra o governo.

Várias coisas não são explicadas conscientemente para esconder a defesa da estabilidade do regime visando as eleições. Outra coisa aparentemente sem razão é o motivo da data de 1985, mas nós trazemos aqui: 1985 foi o ano em que Tancredo Neves foi indicado e morreu no dia da posse, aprofundando a crise da transição conservadora “lenta, gradual e segura” uma vez que Tancredo era o nome de confiança dos militares para assegurar a transição. Com essa comparação, Singer afirma sorrateiramente que Temer está morto, mas que não devemos enterrá-lo ainda para garantir uma transição lenta, segura e gradual em outubro. E assim Singer defende a estabilidade do governo Temer em nome da estabilidade do regime de 88. O resultado na época foi ter colocado Sarney na presidência e garantido tudo o que os generais buscavam para que a ditadura não punisse os torturadores e corruptos. E dessa vez, o que virá?

Para nós, na incessante busca pela independência de classe e do crescimento de uma organização operária que supere a conciliação de classes do PT, nada se resolveu e nem se resolverá com a estabilidade desse regime carcomido, desde que sejam os trabalhadores os que tomem as rédeas da ofensiva. O “regime democrático” que Singer defende é o mesmo que garante os absurdos privilégios da casta jurídica e política no país; o mesmo que mantém impune os torturadores da ditadura; o mesmo que mantém o pagamento de uma dívida pública monstruosa para os grandes bancos e capitalistas; o mesmo que permite Bolsonaro e cia desfilar reacionarismo e ódio criminoso por aí; o mesmo que permite a polícia subir os morros e assassinar a juventude pobre e negra há décadas. A lista de atrocidades é tão grande quanto a vontade de Singer e do PT de manter o governo Temer estável. De demagogia em demagogia, a direita agradece e a classe trabalhadora segue sendo atacada.




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