Teoria

CURSO SOBRE REVOLUÇÃO

Em Campinas, jovens e trabalhadores, discutem a atualidade da ideia "Revolução"

No último domingo, cerca de 40 jovens e trabalhadores de Campinas discutiram significados da ideia de revolução para os dias atuais. A atividade ideológica contou com militantes do MRT, jovens da Faísca, trabalhadores, estudantes universitários e secundaristas. O objetivo foi resgatar o conceito clássico de revolução e refletir sua importância nos dias atuais. O presente texto apresentará uma síntese de temas e conclusões que a atividade alcançou.

terça-feira 2 de agosto de 2016| Edição do dia

Que época vivemos?

O ponto de partida de toda reflexão foi compreender mudanças de época que estamos vivendo. Após anos de um discurso triunfalista do capitalismo, vemos cada vez mais setores de trabalhadores, e principalmente, juventude percebendo que tal sistema social não pode satisfazer nossos mais básicos anseios e que suas promessas não podem ser cumpridas.

A queda do muro de Berlim significou a reincorporação direta de quase um terço do mundo ao capitalismo e abriu um período que nominamos de restauração burguesa. Esse período, caracterizado pelo neo-liberalismo e o fim das experiências dos estados operários, significou um fortalecimento do individualismo, da vida privada, da fragmentação, objetiva e subjetiva, dos trabalhadores e do imediatismo sem precedentes. Ou seja, recompôs as posições morais da burguesia nas distintas classes. Esses valores contribuíram para apagar do horizonte dos jovens e trabalhadores a idéia de revolução e de socialismo.

Do ponto de vista teórico, duas das ideias mais disseminadas eram a de que o “fim da história” havia chegado e de que a classe operária não existia mais. Essas ideologias, ainda que com diversos matizes, se apoiavam no fim dos estados socialistas, para afirmarem que havíamos chegado a um ponto onde as grandes rupturas históricas haviam ficado para trás e a democracia e o capitalismo se desenvolveriam de forma equilibrada rumo à superação de suas contradições.

A crise econômica iniciada em 2008 marca o início de mudanças importantes neste "espirito de época". A crise econômica veio acompanhado de novos fenômenos políticos e sociais que colocaram em cheque as teses triunfalistas. Escrevemos em um artigo de preparação "Restauração Burguesa e crise capitalista: por que queremos debater revolução?": "Com a queda do Lehman Brothers em 2008 e o início de uma nova crise capitalista, produto da incapacidade de reprodução desse modo de produção, abre-se uma novafase mundialmente e se colocam novos desafios para o marxismo revolucionário e a classe trabalhadora. Por um lado, uma profunda crise de subjetividade do proletariado, que viu durante toda a ofensiva neoliberal setores de sua própria classe se voltarem contra ela, a partir das burocracias nos sindicatos, por exemplo. Por outro, seu desenvolvimento objetivo e o capitalismo em crise. Ao mesmo tempo, a luta na França contra a Reforma da Previdência em 2010 e, em outra magnitude, fenômenos como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis e Junho de 2013 no Brasil desenhavam um novo dinamismo na luta de classes internacional e no cenário de crise capitalista, com a juventude cumprindo um papel central."

O que queremos quando dizemos Revolução?

Nas mobilizações atuais, seja na greve geral francesa contra a reforma da previdência, na luta da população mexicana no Estado de Oaxaca ou no fenômeno "Black lives Matter" nos Estados Unidos, percebemos que a confiança de que o capitalismo é um sistema viável vem diminuindo cada vez mais. Novas formas de pensar e sentir aparecem mundialmente demonstrando anseios profundos por mudanças radicais. A palavra revolução reapareceu com uma grande magnitude.

Porém qual significado desta ideia? Mesmo a burguesia e defensores do capitalismo passaram a utilizar essa palavra tentando retirar seu conteúdo radical. Como disse Florestan Fernandes "A palavra revolução tem sido empregada de modo a provocar confusões". A atividade buscou resgatar as ideias presentes no "Manifesto Comunista" para concluir que uma revolução é a mudança radical e violenta da estrutura social, mudança de relação de poder entre as principais classes de um sistema social, quando uma classe oprimida ascende tomando o lugar de uma classe opressora.

Seguindo as ideias presentes no Manifesto o curso discutiu que a revolução que queremos possui um objetivo ainda maior. Não só derrotar a burguesia e livrar os trabalhadores de seu julgo de opressão e exploração, mas construir um mundo onde as classes sociais não mais existam, onde após um período de transição com um poder de classe dos trabalhadores o Estado se definhará junto a estratificação social e as relações de propriedade e exploração.

Quem faz a Revolução?

Diferente de quando utilizamos a palavra revolução para indicar uma grande e abrupta transformação, uma revolução social que derrote o capitalismo só pode ser feito pelas massas proletárias. Por aqueles que tudo produzem e estão na base de nosso sistema social. Os trabalhadores precisam destruir o poder da burguesia e construir sua própria política, seu próprio poder, que ao invés de defender os privilégios de uma minoria social, servirá impedir a restauração capitalista e iniciar revoluções constantes em todas as esferas da vida.

O debate também passou por temas como a continuidade do potencial revolucionário da classe trabalhadora e sobre as possibilidades das massas não mais confiarem na burguesia e nas direções vinculando seu descontentamento com um anseio pela revolução.

Revolução permanente: uma resposta atual

Uma parte apaixonante da discussão foi compreender que, ainda que o discurso triunfalista do capitalismo tenha se enfraquecido, as massas e os trabalhadores não são ainda revolucionárias. Porém, expressam um descontentamentos crescente com o modo de vide que o capitalismo nos impõe. Muitos de nossos anseios estão em conquistar questões básicas que o capitalismo prometeu em seu surgimento como educação universal, direito à vida, à terra, à livre sexualidade e etc, mas se mostrou incapaz de concretizar.

O revolucionário russo Leon Trotsky desenvolveu a teoria de revolução permanente para expressar a dinâmica da revolução, principalmente em países de desenvolvimento capitalista atrasado, mostrando a incapacidade da burguesia em conquistar mesmo as tarefas democrática como o direito à terra e independência nacional. Neste sentido, o sujeito da revolução é a classe trabalhadora mesmo quando as tarefas são inicialmente democráticas. Porém, a revolução não pode parar neste estágio e necessitará, para não se degenerar, avançar rumo à coletivização dos meios de produção e democratização radical dos instrumentos de poder social.

Foi em nome desta mesma teoria que os revolucionários junto ao Trotsky lutaram contra a contra-revolução interna que a revolução russa sofreu. A teoria do socialismo em um só pais se contrapôs às teses internacionalistas e democráticas da revolução permanente para defender um sistema social que, longe de avançar para a revolução internacional e o fim das classes sociais, mantinha o privilégio de uma burocracia que como fim histórico cumpriu o papel de restaurar o capitalismo.

Ainda que as condições materiais em países como o Brasil se difiram consideravelmente da Rússia, a teoria da revolução permanente nos parece indicar uma lógica e um programa imprescindível para os revolucionários. As questões democráticas devem estar para nós intimamente ligadas ao nosso objetivo último que é o comunismo, também, para disputarmos a hegemonia social. Demonstrar a incapacidade dos empresários e seus representantes políticos de cumprirem qualquer papel progressivo no mundo atual, que o único que abre caminho para as conquistas é a classe trabalhadora junto à juventude e ao conjunto dos oprimidos.




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