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OPINIÃO

Eduardo Molina: o entusiasmo pela revolução

Não me lembro do momento exato em que conheci Eduardo Molina, mas foi pouco tempo depois de iniciar a militância, há mais de 20 anos. Como a maioria da minha geração militante, tenho muitas recordações vinculadas a ele. Em primeiro lugar, destacaria sua maneira extremamente amável de tratar as pessoas, sua paciência para colaborar com quem não tínhamos nem sua experiência, nem seus conhecimentos e sua predisposição constante de compartilhar alguns destes, encorajando a militância a se formar e a refletir.

quinta-feira 26 de setembro| Edição do dia

Eduardo era um cara que sabia de tudo, como de fato viemos recordando estes dias. Mas acredito que tem dois temas nos quais ele era incrivelmente fiável e cujas contribuições (orais ou escritas) nos ajudaram muito aos que andávamos Às cegas: a revolução boliviana de 1952 e a revolução cubana.

Recordo especialmente de um ciclo de debates sobre ambas revoluções, que ele deu na faculdade de Ciências Sociais (quando o edifício estava na rua Marcelo T. De Alvear) que era apaixonante pela grandeza dos eventos tratados, mas sobretudo pelo entusiasmo com o qual Eduardo falava, especialmente da revolução boliviana: escutava-o falar e via a força da classe operária em um processo revolucionário. A capacidade de recriar esse imaginário em anos em que todos nos diziam estupidezes de que a classe trabalhadora não existia mais entre outras, parece-me que foi um aporte fundamental ao desenvolvimento de novas camadas de militância, que é um trabalho tão necessário nesse momento como agora.

Eduardo era uma pessoa que sabia de tudo, como disse, mas além disso, era muito organizado para expor suas hipóteses e ideias. Tinha um conhecimento monumental da história da Bolívia, a história do Estado, das classes, os agrupamentos políticos, os debates intelectuais. Recordo que, uma vez, um companheiro que havia conversado com ele sobre a Bolívia, me comentou o quanto havia ficado impressionado com o debate e tivemos o seguinte diálogo:

— Fiquei pensando que Eduardo é um dos principais intelectuais.
— Do partido?
— Não, da Bolívia.

Claro que era um exagero, porque na Bolívia existem grande intelectuais (e também de outros países). E, além disso, Eduardo, por ser discreto, não era uma pessoa especialmente conhecida. Mas certamente poderia ter discutido de igual para igual com qualquer um dos intelectuais bolivianos e argentinos mais importantes ou de qualquer país.

Eduardo realizou – entre outras coisas – um importante acompanhamento do processo de luta de classes dos finais dos anos 90 e começos dos anos 200 na Bolívia, teve na "guerra da água" e na "guerra do gás" seus marcos mais destacados. Muitos de seus artigos, dispersos aqui e ali – em páginas e revistas anteriores a La Izquierda Diario que contém seus artigos dos últimos anos – são uma escola de marxismo independente de qual seja. Claramente, vendo os fatos retrospectivamente, certas previsões ou análises de conjuntura podem não ter sido de todo acertadas, mas para poder fazer esse juízo primeiro tem que conhecer os fatos, sua dinâmica e os aportes conceituais que Eduardo fez para pensar sobre eles. Também contribuiu com elementos para pensar os processos políticos posteriores na América Latina e situações muito difíceis como a que há alguns anos existe na Venezuela. Mas, pessoalmente, fico com suas análises do ascenso de lutas boliviano, de onde, apesar do grande domínio do assunto, se notava o entusiasmo e também a preocupação sobre suas perspectivas políticas, todas vividas com urgência e grande empatia.

Neste momento triste, além de saudar calorosamente sua família e a toda gente que foi sua amiga, gostaria de destacar a importância do trabalho realizado por companheiros como Eduardo, tanto pela qualidade de suas contribuições para reflexões, como pelo trabalho constante, sem pressa, mas sem pausa, de transmissão da tradição, dos conhecimentos e da experiência às novas camadas de militantes. O que quero dizer é que, às vezes, ocorrem momentos de muito avanço na luta de classes ou de muita politização ou de muito debate ideológico. Eduardo passou por esses e aqueles. Minha geração passou por esses mais que nada. Companheiros como ele eram fundamentais para fazer uma transmissão da experiência e das ideias, para resistir em momentos difíceis, mas também para prepararmos para momentos onde se abrirão novas oportunidades.




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