Mundo Operário

ENTREVISTA COM SOCIÓLOGO SOCIALISTA AMERICANO

EUA: Classe trabalhadora, “precariado”, greves e estratégia socialista revolucionária

Charlie Post é professor de sociologia na City University de Nova York e militante socialista. Ele é colunista da revista Jacobin dos EUA e simpatizante do grupo estadunidense Solidarity. Com esta entrevista o Esquerda Diário dá sequência a uma série de entrevistas que tem feito com intelectuais sobre o tema da precarização do trabalho, terceirização e estratégia para combatê-la.

terça-feira 9 de junho de 2015| Edição do dia

Esquerda Diário: Os Estados Unidos são vistos como um país com um fraco movimento dos trabalhadores. Entretanto, as recentes greves dos trabalhadores das redes de fast food e o movimento pelo salário mínimo de 15 dólares tem chamado à atenção. Qual sua opinião sobre estes movimentos? Estão estas lutas refletindo uma mudança objetiva e/ou subjetiva no movimento dos trabalhadores dos EUA?

Claramente, o que ficou conhecido como “Fight for $15” (lute pelo salário de 15 dólares), protagonizado pelos trabalhadores de fast food, é um desenvolvimento muito bem-vindo no movimento de trabalhadores americanos. Inspirado pelo Occupy Wall Street do outono de 2011, vimos trabalhadores de várias redes de fast food mobilizar seus apoiadores em sindicatos e organizações progressistas para fazer dias de mobilização trabalhistas que duravam um dia, ações de desobediência civil nas empresas e locais turísticos em todo o país. Estes trabalhadores estão entre os setores mais pobres e mais precários da classe trabalhadora dos EUA, com um desproporção de mulheres, imigrantes e outras pessoas de cor.

Entretanto, há dois importantes motivos para questionar se esta nova onda de ativismo dos trabalhadores mudará a relação de forças entre o capital e o trabalho nos EUA. Em primeiro lugar, a estratégia do principal sindicato por trás da mobilização – O Sindicato Internacional dos Empregados dos Serviços (SEIU, na sigla em inglês). Ao mesmo tempo que o SEIU é um dos poucos sindicatos que aumentou seu número de filiados no século 21, ele continua sendo um dos sindicatos mais burocratizados e antidemocráticos do país – um sindicato extensivamente ligado a cooperação “trabalho-gerência” nos locais de trabalho e fora deles. Muito do crescimento em filiações deste sindicato são resultado de “organizar os empregadores” – oferecendo contratos trabalhistas com salários, direitos e regras de trabalho, abaixo da média, em troca de contribuições sindicais. Em muitos locais onde há hospitais ou prédios comerciais com representação do SEIU não há delegado sindical, e os trabalhadores, são chamados a expressar suas reclamações para “call centers” à centenas de quilômetros de distância e lhes é dito para “esperar pacientemente” a resposta do sindicato.

Se enfrentando com sindicatos mais democráticos e mais militantes na indústria da saúde, o SEIU se focou na “organização” de trabalhadores de fast food como forma de conter a queda nas afiliações e tentar influenciar a “narrativa política” através de um modesto aumento no salário mínimo. O resultado é que o SEIU atua mais como uma ONG que promove teatro de rua do que um sindicato organizando o poder desde o local de trabalho.

As realidades do movimento “Fast Food Forward” (Fast Food avante), impulsionado pelo SEIU, e também do “Lute pelo salário de 15 dólares” apontam para um segundo fator que impacta estas lutas – estes trabalhadores não tem a força social para vencer e mudar a relação de forças por si mesmos. O trabalho em fast food é um dos trabalhos mais não-qualificados no mundo. A capacidade dos trabalhadores em uma loja individual – ou em muitas lojas – de afetar a produção e lucratividade é mínima. Em outras palavras, este setor não será organizado loja a loja.

É possível organizar os trabalhadores do setor de fast food – e das redes varejistas de “grandes caixas” como o Wal-Mart? Podem. Mas não de jeito que o SEIU está tentando organizar os trabalhadores do fast food, nem da maneira que o Sindicato de Trabalhadores do Comércio e Comida (UFCW, pela sigla em inglês) está tentando com os trabalhadores do Wal-Mart. Uma estratégia “loja a loja” produz pouco mais que “greves” simbólicas, que não tem muito sucesso uma vez que os trabalhadores destas lojas tem tão pouco poder social. Por outro lado, a chave parece ser a organização das cadeias de suprimento para o fast food e das redes varejistas.

Como a maior parte da economia capitalista de hoje, tanto o ramo do fast food como as redes varejistas de “grandes caixas”, contam com sistemas de estoque just-in-time, com os suprimentos sendo entregues praticamente dia a dia. Os trabalhadores em armazéns centrais e centros de distribuição, ainda que sejam numericamente menos que os trabalhadores das lojas, têm uma vantagem, eles podem fechar centenas de lojas e forçar os sindicatos a reconhecerem suas corporações e formas de organização. Enquanto tanto o SEIU e o UFCW não parecem estar interessados no trabalho difícil e de longo prazo de organizar os trabalhadores subindo na cadeia de suprimento, sindicatos independentes como o Trabalhadores Elétricos Unidos (UE, na sigla em inglês) estão ganhando força dentro dos armazéns e centros de distribuição da Wal-Mart. Em última instância, o sucesso na organização dos trabalhadores nos armazéns e centros de distribuição é a chave para organizar os trabalhadores destes ramos da economia, e talvez pode servir para dar energia à organização dos trabalhadores do sul dos EUA, que é onde está localizada a maior parte da indústria pesada hoje em dia.

Esquerda Diário: Existe um debate mundial se as condições dos trabalhadores precários, tais como aqueles do ramo do fast food, deveriam ser considerados parte da classe trabalhadora ou se deveriam ser tratados de outro modo, como parte de um “precariado” ou de um novo sujeito. Você acha esta categoria útil?

A ideia de um “precariado” como uma categoria social com interesses diferentes do restante da classe trabalhadora é ideia problemática tanto empírica como teoricamente. Em primeiro lugar, esta ideia exagera muito o nível em que números crescentes de trabalhadores estariam em condições inseguras ou em trabalhos temporários, de part-time (tempo parcial) e, em alguns casos trabalhando via “agências de emprego” ou outros empregadores “não-tradicionais”.

Ao contrário do que muitos pensam, cerca de 90% de todos os empregados nos EUA trabalham em relações de trabalho tradicionais de empregador-empregado, e 83% destes em empregos de “horário completo”. As pesquisas de 1995 e 2005 do Escritório de Estatísticas do Trabalho mostram as duas que estes “arranjos alternativos”, tais como contratados independentes (tipo “pejotização” – nota do Tradutor) ou trabalhadores temporários de agências de emprego, representam, nas duas pesquisas cerca de 10% da força de trabalho. Enquanto aqueles empregados em “serviços de emprego” aumentou vertiginosamente de 1,512 milhões em 1990 para 3,849 milhões em 2000, estes números tinham caído para 2,717 milhões em 2010, uma queda de 1,132 milhões. Mesmo que os empregos não-tradicionais aumentem significativamente com os empregadores tentando expandir a produção sem incorrer em contratações permanentes, este tipo de vínculo trabalhista continua sendo uma clara minoria1.

Kevin Doogan fez uma exaustiva pesquisa multinacional dos empregos na União Europeia e chegou a conclusões parecidas2. O número de trabalhadores part-time aumentou bastante na Europa nos últimos trinta anos, particularmente no ramo da saúde e em grandes lojas de varejo. Entretanto, mesmo nestes empregos os trabalhadores não mudam de emprego em emprego de poucas em poucas semanas ou meses. Ao contrário, muitos destes trabalhadores permanecem na mesma empresa por anos. Os gerentes nestes ramos da economia querem o benefício de ter trabalhadores de part-time, incluindo vencimentos menores, combinado a uma habilidade para agendar regularmente o trabalho nestas empresas.

Esquerda Diário: Você pesquisou e comparou a situação atual da força de trabalho com dados históricos dos EUA e do Reino Unido. O que há de novo e sem precedentes nesta situação de “precariedade” disseminada, se olharmos o fenômeno de um ponto de vista histórico?

A “precariedade” tem sido a regra histórica para a maioria dos assalariados no mundo capitalista na maior parte dos dois últimos séculos. Com a exceção dos excepcionais “anos dourados” entre 1945 e 1975, a maior parte dos trabalhadores do Japão, dos EUA, Canadá, e da europa capitalista, sofria de trabalho inseguro, horas de trabalho que mudavam, turnos que mudavam, etc. Teoricamente também não deveria ser uma surpresa. Marx argumentou no Capital, cerca de 150 anos atrás, que a acumulação capitalista, com sua crescente mecanização da produção e a concentração e centralização do capital, constantemente reproduzia um exército industrial de reserva dos desempregados, sub-empregados e empregados precariamente. Ao contrário da teoria de um “precariado” distinto, com interesses opostos aos da classe trabalhadora estável – e a falida teoria da “aristocracia operária”3 – os “privilégios” dos empregados regularmente não vêm às “custas” dos precários. Ao contrário, o crescimento de uma parcela de trabalhadores part-time com maior insegurança no trabalho, aumenta a competição entre os trabalhadores e produz uma espiral decrescente nos salários e condições de trabalho para todos os trabalhadores.

O motivo para que a ideia de “precariado” tenha tanta ressonância hoje em dia deve-se a bem-sucedida ofensiva capitalista global contra o trabalho desde o final dos anos 70 – o neoliberalismo – que tornou todos trabalhadores mais precários. O enfraquecimento dos sindicatos, o desmantelamento da regulamentação estatal do mercado de trabalho e a dizimação dos benefícios do bem-estar social, tornaram o e emprego mais inseguro e as consequências do desemprego muito mais severas em todo o mundo capitalista. Falando isto de forma simples, o neoliberalismo fez a classe trabalhadora retornar a sua situação típica no capitalismo – a precariedade.

Esquerda Diário: Dada a situação atual da força de trabalho nos EUA e em menos países onde mudanças objetivas e subjetivas ocorreram, você acha que esta situação exige novas avaliações estratégicas e táticas para a esquerda socialista revolucionária?

A atual fraqueza dos movimentos de trabalhadores em todo mundo, não são, em minha opinião, resultado de mudanças “sociológicas” – nem o emergir do “precariado" nem tampouco a ideia da “globalização” consegui de fato “desindustrializar” os antigos centros de acumulação de capital, e também é verdade a idéia que a tecnologia teria “desmaterializado” a produção4. Ao contrário, as raízes podemos encontrar em um agudo deslocamento nas relações de força, especialmente desde o final dos anos 70, e como consequência da reorganização política e ideológica da classe trabalhadora.

Como a maioria dos marxistas entendem, a luta de classes da classe trabalhadora – e a consciência de classe – são necessariamente díspares. Em períodos de ascensão, particularmente durante greves de massas, massas de trabalhadores entram na batalha contra o capital e o estado criando as condições para a radicalização da classe. Entretanto, a separação dos trabalhadores dos meios de subsistência significa que os trabalhadores não podem permanecer em greve continuamente e todos ascensos terminam. Na diminuição da luta de classes, somente uma minoria dos trabalhadores se mantém ativa. De um lado, alguns se tornam membros plenos de organizações criadas no calor da luta – sindicatos e partidos políticos. Se tornam o oficialato dos trabalhadores – a base social para o reformismo no movimento dos trabalhadores. A maioria dos trabalhadores ativos busca “continuar a luta através de outros meios” – greves sobre condições de trabalho, manifestações políticas, atos, e etc. Esta “minoria militante” – a vanguarda dos trabalhadores – foi historicamente a audiência de massas para a política revolucionária antes da Segunda Guerra Mundial, ela dava a base social para o sindicalismo revolucionário, para a ala esquerda da socialdemocracia e para os primeiros Partidos Comunistas.

O giro do Partido Comunista à uma estratégia de frente popular depois de 1935 não só marcou o abandono programático da política revolucionária, mas inclusive desorganizou efetivamente à vanguarda dos trabalhadores. Os Partidos Comunistas em todo o mundo deixaram de ser organizações de militantes da classe trabalhadora que se organizavam de forma independente, e quando necessário, contra o oficialato dos trabalhadores. Eles, ao contrário, se tornaram terreno para recrutamento de novas camadas de burocratas sindicais e dos partidos.

Quando o capital tomou a ofensiva no final dos anos 1970 o oficialato trabalhista – socialdemocrata, comunista, ou “não-ideológico” (como se define a maioria dos burocratas sindicais nos EUA) – foi incapaz de organizar uma força militante que resistisse. Diferente de ofensivas capitalistas anteriores não havia uma minoria militante bem estruturada nos locais de trabalho e nas comunidades da classe trabalhadora, uma minoria que pudesse oferecer alternativas estratégicas e táticas. O resultado foi que o retrocesso da classe no final dos anos 1970 resultou na confusão dos próximos quarenta anos – criando o profundo nível de desorganização do movimento dos trabalhadores que vemos hoje.

Para a esquerda socialista revolucionária esta situação significa que não há tarefas simples e fáceis para reconstruir o movimento de trabalhadores ou um partido revolucionário de massa baseado na classe trabalhadora. Precisamos almejar dois objetivos simultaneamente – educar na política revolucionária aqueles trabalhadores que se tornaram militantes, e ativamente reconstruir a “minoria militante” ao redor da política da militância, solidariedade, democracia e independência política do capital5.

Tradução Leandro Lanfredi

NOTAS

1 Dados extraídos do US Bureau of Labor Statistics (BLS), ‘New Data on Contingent and Alternative Employment Examined by BLS, News, USDL 95-318, August 17, 1995; BLS, ‘Contingent and Alternative Employment Arrangements’ News, USDL 05-1433, July 27, 2005; US Census Bureau, Statistical Abstract 2012, p. 410.
2New Capitalism: The Transformation of Work (Cambridge, UK: Polity Press, 2009), Capítulos 7 e 8.

3 C. Post, “Exploring Working Class Consciousness: A Critique of the Theory of the Labor Aristocracy,” Historical Materialism 18,4 (2011).

4 Ver Doogan, The New Capitalism, Capítulos 2 e 3.
5 – Foi argumentado isto com maior detalhe em: K.A. Wainer and C. Post, Socialist Organization Today (Detroit, MI: Solidarity Pamphlet, 2006) [http://solidarity-us.org/pdfs/socialistorgtoday.pdf]




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