Sociedade

LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS

ENTREVISTA: Henrique Carneiro, professor da USP que debate e pesquisa temas relacionados à legalização das drogas

sábado 23 de maio de 2015| Edição do dia

(Foto: Debatefilms, youtube.com)

Atualizado 23/05, às 22:45

Entrevistamos o professor Henrique Carneiro que é professor de Historia Moderna da USP, e também debate e pesquisa temas relacionados à legalização das drogas.

Esquerda Diário - A serviço de quais interesses está a manutenção da proibição das drogas no Brasil, e como você encara enquanto política de Estado?

A proibição é um tema muito complexo que não se pode reduzir a um único fator. É uma somatória de questões que se iniciam há cerca de um século com a junção de um interesse comercial, de estabelecer novos monopólios em várias áreas em que havia uso de produtos psicoativos tradicionais, que serão substituídos. Na indústria farmacêutica o ópio e a maconha serão substituídos pelos barbitúricos, benzodiazepínicos, ou mesmo opiáceos sintéticos de laboratório. Pela concorrência, também, da indústria de fibras sintéticas e de papel de celulose com os usos industriais da maconha foram proibidos. E, também, pelo controle de populações periféricas, que terminavam identificadas pelo uso que faziam de determinadas substâncias e eram bastante estigmatizadas por isso. Isso aconteceu na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, em que a maconha foi identificada como droga dos escravos. Isso se junta ao mecanismo da disciplina industrial fordista, que vai impor sobre a classe operária mecanismos muito mais acirrados de controle sobre a vida cotidiana. O Henry Ford foi um dos grandes defensores do proibicionismo, como a primeira grande lei seca nos Estados Unidos. Isso foi em sua origem. Depois esse mecanismo tomou uma dimensão internacional nas últimas décadas, que foi o de se transformar em uma especial remuneração especulativa do capital. Isto é, sobretudo depois da crise econômica de 2008, o narcotráfico se constituiu como uma esfera de alta rentabilidade, que vem suprindo o mercado financeiro de liquidez. Então, existe hoje como uma via de hipertrofia dos lucros, que é extremamente rentável, mas para um setor restrito da economia, que se liga ao tráfico de armas e de esferas de clandestinidade. Junto a isso há toda a gama de políticas repressivas, que atacam fundamentalmente aos jovens da classe trabalhadora.

ED – Como a legalização das drogas poderia beneficiar a classe trabalhadora e a população?

Retirando milhões de pessoas que praticam um consumo de maconha por razões recreacionais e medicinais da criminalização e da clandestinidade. Regulando um mercado que deixaria de ter uma violência intrínseca e poderia ser fiscalizado na qualidade, pureza e dosagem das substâncias psicoativas. Diminuindo uma das fontes da violência e da corrupção policial. Aumentando a renda fiscal do Estado que poderia ser direcionada para o orçamento social. E, por último, mas não menos importante, ampliando a tolerância na sociedade e o respeito às diferenças e incluindo a autonomia sobre as ingestões corporais na agenda dos direitos humanos fundamentais.

Também seria de grande importância para superar no movimento sindical e operário a cumplicidade da esquerda stalinista com o dispositivo proibicionista, denunciando os tratados internacionais repressivos, que têm nos EUA, países islâmicos, China, Rússia e Cuba alguns dos seus mais ferrenhos defensores, e demonstrando uma vocação democrática cultural libertária e antiproibicionista para uma nova esquerda revolucionária e emancipadora que se faz necessária.

ED – Qual é a sua opinião sobre a Marcha da Maconha?

Há uma espécie de tendência crescente de controlar a autonomia das pessoas. Tenho um pouco a sensação de que vivemos em uma época que tem contato com outras, marcadas por campanhas persecutórias no passado, como foi a Inquisição, ou a caça às bruxas. Hoje pode-se dizer que há uma espécie de caça às bruxas contemporânea é a caça às drogas. As drogas são vistas como um fantasma, algo que teria alto risco social, que teria o poder de fazer as pessoas perderem completamente seu juízo, generalizando alguns casos que são minoritários que chegam à compulsão e dependência patológica. Que, aliás, costumam ocorrer muito mais frequentemente com as drogas lícitas, como o álcool, o tabaco. Então, eu acho que as marchas instituíram hoje uma nova dinâmica emancipatória no sentido se colocar na ordem do dia uma questão social que antes não tinha sequer direito de existência. A importância então eu acho que é essa, permitir que esse setor social saia do armário, revele-se tal como ele é, ou seja, cerca de 10% de toda a população que está marginalizada por uma política de Estado. Os milhões de maconheiros que existem, se saírem às ruas por seus direitos, serão os que poderão de fato conquistar uma mudança e o fim da repressão.

Tem um fato que é relevante, que será alvo de uma disputa grande a partir de agora, que é a amplitude desse movimento, que abrange setores muito amplos e, eventualmente, contraditórios em termos sociais e ideológicos. Dentro da Marcha existem setores capitalistas e socialistas. Há machistas e feministas. Rastafaris e pacientes de câncer. Ou seja, distintas gamas de diferentes aspectos ideológicos. Nesse sentido, a Marcha tem um caráter de frente-única que deve ser mantido, mas que exige que haja no seu interior um debate sobre projetos alternativos para o modelo da gestão da economia das drogas. Há aqueles que são claramente neoliberais, fundamentados ideologicamente na obra de Milton Friedman, que era pró-liberalização, e que defendem um modelo privatista oligopólico para o que seria a indústria das drogas. E existe outro modelo, embasado na intervenção estatal, que já existiu inclusive para gerir o álcool em muitos países. Portanto, é preciso discutir não só a liberalização, mas também a forma de gestão, de modo a colocar as rendas da produção de psicoativos a serviço dos interesses sociais. Há também formas de cooperativas, de autocultivo, de modo a fazer com que possa até mesmo se prescindir de uma intermediação mercantil. No âmbito do atacado e da grande produção é preciso que seja impedido o domínio dos monopólios, tal como ocorre com o tabaco e o álcool




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