Política

CORONAVÍRUS

É verdade que os governadores do Nordeste combateram bem a pandemia?

Após cerca de quatro meses desde que foi declarada a chegada da pandemia no Brasil, a região Nordeste conta com cerca de 26.300 mortes pelo coronavírus, totalizando mais de um terço dos óbitos do país. Todos esses governos, em especial os dirigidos pelo PT, comemoram o refluxo parcial da pandemia, que não é fruto de qualquer política responsável ou “científica”, mas de terem feito os trabalhadores, os negros e setores mais precários responsáveis pela “imunização coletiva”, ao custo de milhares de vidas que poderiam ser salvas, e salvando os lucros capitalistas.

quarta-feira 5 de agosto| Edição do dia

Hoje o Brasil chegou perto das 100mil mortes, com mais de 1000 pessoas morrendo ainda todos os dias pelo coronavírus. Bolsonaro, que negou a pandemia desde o princípio, dizendo que não passava de uma “gripezinha”, é o principal responsável pela morte dos nossos parentes e amigos. É um representante da face mais nojenta da elite burguesa do país, que não estava nem aí em sacrificar a vida dos trabalhadores para salvar seus lucros, defendendo a contaminação e mortes massivas para “imunizar” a população contra o vírus.

Fez isso se apoiando em uma demagogia de que estaria preocupado com os empregos e liberando o auxílio emergencial (que ele queria que fosse de míseros R$200,00), enquanto aprofundava os cortes de salário, as demissões e a retirada de direitos dos trabalhadores de todo o país.

No Nordeste, ainda morrem cerca de 150 pessoas e 8000 são contaminados todos os dias, segundo dados de Junho. No Ceará, o estado com a maior taxa de mortalidade do país, a cada 1 milhão de habitantes, 787 morrem de COVID-19, e junto com a Bahia e o Maranhão estão entre os seis estados com maior índice de mortes do Brasil.

Até mesmo o plano de contingência elaborado no RN no dia 10 de fevereiro não impediu com que existissem mais de 200 pessoas na fila espera de um leito de UTI há três semanas, onde hoje existe uma queda dos casos após pico dramático.

Tabela 1: Total de casos registrados entre Março e Junho

Gráfico 1: Novos casos de coronavírus

Gráfico 2: Novos óbitos por coronavírus

Fonte: Comitê Científico Consórcio Nordeste https://www.comitecientifico-ne.com.br/

Segundo o próprio Comitê Científico do Consórcio Nordeste, a subnotificação da região chega a ser de 4-19 vezes o número real de casos. Além disso, ao passo que nas capitais os casos estejam diminuindo, a pandemia no Nordeste está se interiorizando, e alertam para a possibilidade de um efeito “bumerangue”, com uma nova onda de casos nos próximos meses.

Os governadores estaduais do Nordeste, em especial os do PT e PCdoB, tem divulgado orgulhosos os dados da queda no número de mortes em alguns estados. Os créditos dessa "conquista" - 26.300 mortes - foi atribuída à política do “fica em casa”. Investiram milhões em fortalecer a repressão policial, em especial nos lugares onde foi adotado lockdown, para “mostrar serviço” em alguns vídeos nas suas redes sociais.

Contudo, o que a própria pandemia mostrou é que a única classe essencial no capitalismo é a classe trabalhadora, que ocupa diversos postos essenciais de trabalho, e que estiveram desde o início no combate a pandemia. E esses mesmos trabalhadores da saúde, dos transportes, da produção e entrega de alimentos, máscaras, álcool gel, etc, não tiveram condições básicas para trabalhar na pandemia.

Enfermeiros, técnicos, serviços de limpeza dos hospitais, etc, trabalham sem testes, EPIs, morrendo aos milhares como “heróis”, dobrando seus turnos sem contratação suficiente de profissionais para atender a população, que morria nas filas dos hospitais sem UTIs e respiradores suficientes. Mais da metade dos trabalhadores da saúde de Pernambuco testados contraíram o COVID-19, no país onde a contaminação de enfermeiros é recorde.

Nos transportes, as empresas aproveitavam a pandemia para demitir cobradores e rodoviários, que fizeram fortes manifestações em especial em Recife, denunciando as mortes de trabalhadores pela falta de condições sanitárias de trabalho.

Os pontos de ônibus lotados foram retrato da outra face dessa política do fica em casa. Diversas categorias foram obrigadas a trabalhar na pandemia não por que era necessário para o cotidiano da população, mas para dar lucro aos capitalistas.

Esses governos responsabilizavam a população pelos baixos índices de isolamento para encobrir que a maioria dos trabalhadores não pode fazer “home office” como seus patrões.

Mesmo em estados onde foram decretadas medidas de isolamento radical, como lockdown no Ceará, Pernambuco e o Maranhão, a taxa de isolamento não subiu de forma significativa.

Isso porque velada ou abertamente incluíam como essenciais toda a indústria, telemarketing, e serviços, por exemplo: trabalho doméstico, como fez o “comunista” Flávio Dino (PCdoB) no Maranhão. Trabalhadoras domésticas, em sua maioria negras, como Mirtes em Recife, trabalhavam expostas enquanto a patroa deixava seu filho cair do prédio, um retrato do racismo da elite do país, e que explica por quê a letalidade do coronavírus foi muito maior para a população negra.

No telemarketing, as chefias em home office obrigavam os atendentes a trabalharem sem que fossem tomadas medidas básicas de higienização do ambiente, ou mesmo com gente contaminada sendo forçada a continuar no serviço, como aconteceu na Teleperformance do Rio Grande do Norte. Na Paraíba, funcionários de fábricas como a das Alpargatas da Havaianas apresentavam cada vez mais casos de contaminação, enquanto produziam sandálias.

O único motivo para seguirem trabalhando foi para dar lucro para as empresas e garantir o conforto das quarentenas de seus patrões, no caso das trabalhadoras domésticas. Por isso que sempre defendemos no Esquerda Diário que todo serviço não essencial e trabalhadores do grupo de risco fossem liberados sem perda de salário e com estabilidade de emprego. A garantia de um auxílio emergencial de no mínimo R$ 2000,00 para todos os autônomos e desempregados, para que de fato pudessem ter direito a quarentena, ao invés de sair às ruas buscar alguma forma de complementar os R$ 600,00.

No entanto, sabemos que as quarentenas isoladas são ineficientes, como mostram os números em todo o Brasil. Por isso era necessário, primordialmente, a realização de testes massivos para que as quarentenas fossem organizadas de maneira racional, e que fossem disponibilizados os quartos de hotéis e prédios ociosos para atendimento de saúde e isolamento da população, dirigidos por trabalhadores e especialistas da saúde. Essas medidas continuam totalmente necessárias, pois mesmo com os números em queda, ainda morrem centenas de pessoas todo os dias na região pelo coronavírus e não há garantia nenhuma que os números não voltem a subir.

Enquanto os patrões mantêm trabalhadores expostos ao vírus em telemarketings ou para produzir sandálias, algo totalmente secundário durante a pandemia, vimos demissões em várias indústrias. Enquanto isso, faltavam testes e acumulavam-se doentes nas filas por leitos e respiradores. Porque não se reconverteram as indústrias químicas, têxteis e automobilísticas para a produção de respiradores, máscaras e testes pro combate à pandemia e ainda diminuir o desemprego?

Por isso, é necessário que a própria classe trabalhadora lute pela reconversão da produção sob o controle dos próprios trabalhadores, pois a burguesia e seus representantes já mostram que não estão dispostos a promover nenhuma medida de combate sério à pandemia.

Nada disso foi feito pelos governos estaduais do Nordeste, que nesse sentido fizeram o mesmo que governadores da direita como Dória, Witzel, que, ainda que de forma velada, apostaram em uma mesma via de responder a pandemia e a crise econômica que o próprio Bolsonaro: mantiveram a classe trabalhadora e os setores mais precários da população seguissem nas ruas tentando sobreviver à crise e ao coronavírus, para salvar os lucros capitalistas e cumprindo o papel de fazer a chamada “imunização coletiva”. A imunização coletiva significa expor setores de massa da população ao vírus para que se desenvolvam imunidade em um número elevado de pessoas, diminuindo significativamente a taxa de transmissibilidade.

Para coroar, os governadores do Nordeste (PT, PC do B e PSB) ainda assinaram – junto a outros governadores – uma carta contra uma fila única de leitos do SUS e do sistema privado de saúde. Isso só prova que qualquer medida mínima só poderá ser arrancada na base da mobilização, sendo urgente que se levante a expropriação do sistema privado de saúde sob controle dos trabalhadores, para que possam aumentar a capacidade de leitos disponíveis para toda a população, organizando uma fila única de leitos tanto para os pacientes de coronavírus, mas também de outros procedimentos que foram interrompidos durante a pandemia pela escassez de leitos.

A própria reabertura econômica está se dando mesma forma desordenada com a qual decretaram o isolamento, não garantindo nem mesmo testes massivos que pudesse encontrar e isolar os contaminados para que exista uma quarentena racional. Uma reabertura que evidencia uma cumplicidade dos governadores, inclusive do PT e PCdoB, com o governo Bolsonaro em favor dos interesses dos grandes empresários do país, que querem salvar seus lucros ao custo da vida dos trabalhadores.

Ante esse fato, para preservar suas próprias vidas e saúde, é necessário que em cada local de trabalho que esteja funcionando os trabalhadores levantassem comissões de segurança e higiene, com estabilidade de cipista aos seus membros, que determine as condições sanitárias de trabalho e garanta a licença remunerada dos grupos de risco e dos casos suspeitos e confirmados de Covid, exigindo a contratando novos trabalhadores para substituir esses afastados.

Enquanto isso, a penúria do desemprego vai se aprofundando no Nordeste, sendo a região do país onde teve o maior número de trabalhadores afastados. Segundo dados do IBGE de junho, a região chegou a 16,8% de trabalhadores desempregados, sendo o total do país de 13,5%, isso sem contar aqueles setores de informais que com a pandemia ficaram sem fonte de renda, que segundo algumas pesquisas levariam ao dobro do número de desempregados do país. Entre os jovens da região chega a 34,1%.

Todos os governos do Nordeste ofereceram isenções tributárias, suspensão de dívidas e uma série de recursos para salvar os lucros dos empresários da região, dizendo que com isso estariam salvando empregos. Nada disso ocorreu, apenas no Rio Grande do Norte passaram mais de 10.000 demitidos durante a pandemia e indústrias como a Guararapes, do bilionário bolsonarista Flávio Rocha, dono da Riachuelo, demitiram 320 funcionários no último mês.

Ou seja, tais isenções serviram apenas para encher os bolsos desses empresários, e mesmo os governos do PT e PCdoB, que dirigem grandes centrais sindicais como a CUT e a CTB, propuseram qualquer medida legal para impedir essas demissões. Ao contrário essas mesmas centrais foram responsáveis por negociar a MP da Morte do Bolsonaro, que levou a cortes de salários, suspensões de contratos, e ainda assim um aumento do desemprego, como mostramos.

Diante da trégua nas disputas entre Bolsonaro e o STF, que tem o objetivo de conter os ânimos da população que paga pela crise e avançar com as privatizações, uma nova reforma da previdência e mais ataques, esses governos aprofundaram a sua passividade diante de Bolsonaro, inclusive com Fátima dizendo que Bolsonaro teria “compromisso com a vida da população”. Uma prova de que não tem interesse em derrotar o seu governo, mas garantir melhores condições de governabilidade, sem maiores convulsões sociais, ao ponto de Flávio Dino ter proposto chamar o próprio Bolsonaro para pensar medidas de combater ao desemprego.

As centrais sindicais, não só as patronais, mas em especial a CUT e a CTB, foram garantidoras dessa estabilidade do governo Bolsonaro pelo qual os governadores do PT e PCdoB batalharam. Impediram a unificação e a organização das diversas lutas da saúde, dos transportes, nos primeiros meses da pandemia. Agora que os entregadores de aplicativo protagonizaram duas paralisações neste mês, essas centrais se recusaram a organizar outras categorias, como os metroviários de SP, para se aliarem nessa luta.

Mesmo em meio a pandemia, o governo de Fátima Bezerra (PT) no RN quer aprovar uma reforma da previdência que vai atacar os professores e servidores da saúde, aprovada já em todos os outros estados da região, e aí as centrais mostram que são cúmplices do PT quando ataca os trabalhadores

Essa é a cara da impotência desses governos, do PT e PCdoB e suas burocracias em particular, em responder à pandemia e a crise econômica. Não tem nada a oferecer para os trabalhadores e o povo pobre.

Se a classe trabalhadora é essencial é dela que pode vir uma saída. E não foram poucos os exemplos de luta dos trabalhadores da saúde, de rodoviários, do telemarketing, e muitas outras categorias que, de forma separada, mostraram disposição de impedir a catástrofe iminente para a vida da população.

Por isso que nós, do Esquerda Diário Nordeste, viemos colocando a necessidade de que a esquerda socialista apontasse um programa de emergência trabalhadores contra a pandemia do coronavírus e do desemprego. Além dos pontos que já colocamos acima defendemos um SUS 100% estatal e sob controle dos trabalhadores, a contratação de profissionais da saúde, limpeza e serviços, com contratos efetivos.

A proibição das demissões, junto à redução da jornada de trabalho sem redução de salários. Um plano de obras públicas para a construção de hospitais, centros de saúde, e moradias que superem o problema crônico de saneamento no país.

A luta por esse plano emergencial poderia ser um ponto de partida na luta contra o governo Bolsonaro e Mourão e contra todo esse regime escravista. Por isso também que defendemos que a única saída política para o país é levando às últimas consequências o fato de que os trabalhadores são essenciais, e que por isso deveriam ter assumido a linha de frente do combate a pandemia, mas também deveriam ter o direito de mudar todas as regras desse jogo. É isso que defendemos sobre a necessidade de impor pela luta uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde os trabalhadores apresentem as suas próprias leis, revertendo as reformas trabalhista, da previdência e cada ataque à saúde e educação.

Os governos do PT abrem espaço pro Bolsonaro no Nordeste: é preciso uma alternativa independente

Em pesquisa encomendada pela VEJA, a aprovação do governo foi de 30,3% da população para 39,4%, um aumento em 9,1%, ao mesmo tempo sua desaprovação caiu de 66,1% para 56,8%. Sua xenofobia contra os nordestinos não se alterou, mas o impacto do auxílio emergencial, para uma população empobrecida e desesperada, se fez sentir, assim como as obras de transposição do Rio São Francisco. Estes dados revelam o que pode se desenvolver para uma relocalização de Bolsonaro e da extrema-direita na região, frente inclusive ao abandono por parte dos governos estaduais. Mostram ainda a impotência do PT e do PCdoB, que abrem caminho dos estados que governam para o Bolsonaro se fortalecer entre os trabalhadores mais precários, na medida que são incapazes de responder às necessidades na maioria da população.

A passividade imposta pela CUT e CTB também é responsável para esse fortalecimento de Bolsonaro e o descrédito em relação aos sindicatos. Essas centrais são parte fundamental de garantir a estabilidade do governo Bolsonaro e desse regime, enquanto trabalham estrategicamente para a tentativa do PT se recompor eleitoralmente, apontando que a saída contra o governo Bolsonaro é apenas nas eleições de 2022, inclusive com esses governadores compondo frentes amplas com Luciano Huck, Rodrigo Maia, FHC e grandes empresários. A saída não virá dessas alianças com a direita, que infelizmente diversos parlamentares do PSOL se propuseram a compor.

Queremos fazer um sério debate com os setores da esquerda socialista, como o PSOL, que vem formando alianças eleitorais com o PT em capitais importantes na região, como em Recife, onde o PSOL apoiará a candidata Marília Arraes, herdeira das oligarquias do estado. O mesmo tipo de aliança foi feito em outras cidades como Belém-PA e Campinas-SP. Não é esse o caminho para superar a estratégia do PT, que rifa a vida e a luta dos trabalhadores para atualizar a sua aliança com os grandes capitalistas e direitistas no país. É inadmissível que seja esta a lógica da esquerda, ainda mais em um momento no qual se constata um aumento na popularidade de Bolsonaro no Nordeste

Veja também: PSOL se prepara para estar junto com o PT em várias capitais na contramão de uma alternativa independente

O papel da esquerda socialista nesse momento é o oposto, mas batalhar para construir uma alternativa à esquerda do PT que aposte no desenvolvimento da luta dos trabalhadores e do povo para impor que sejam os capitalistas que paguem pega crise. Em primeiro lugar, é necessário unificar a esquerda socialista em um polo antiburocrático, junto aos sindicatos combativos, aos sem-terra, movimento negro, de moradia, e que se ligue sobretudo à luta dos entregadores para exigir das grandes centrais sindicais que organizem uma Frente Única contra Bolsonaro e cada ataca aos trabalhadores e a população.

Chamamos às organizações como PSTU, o Bloco de Esquerda do PSOL, a se somarem nessa batalha pela recomposição da esquerda socialista, que possa fazer frente também à revitalização do stalinismo, em organizações como UP e PCB, que repetem a velha estratégia de confiança em setores progressistas da burguesia, defendendo o impeachment e alianças com PSB e PDT em “frentes de esquerda”.

Convidamos todos os leitores e apoiadores do Esquerda Diário no Nordeste e no Brasil a se somarem ao MRT nesta batalha, pela construção de uma organização revolucionária da classe trabalhadora, para que os capitalistas paguem pela crise. Viemos organizando os grupos de estudos dos cursos de Marx, Lenin, Trotski e Rosa Luxemurgo, a juventude Faísca e o coletivo de negras e negros anticapitalistas Quilombo Vermelho, dezenas de pessoas de diversos estados da região com esse objetivo, fazer os debates sobre as tarefas dos revolucionários no Brasil e da necessidade de uma ferramenta política, um partido, que supere o PT pela esquerda.

Um partido revolucionário é a única ferramenta capaz de recuperar o legado das lutas contra a colonização, a escravidão, dos quilombos, das ligas camponesas no Nordeste para dar uma resposta de fundo ao atrasado que o capitalismo impõe sobre a região, apostando na luta por um governo de trabalhadores para superar o domínio oligárquico, da exploração da seca, do latifúndio e do imperialismo.




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