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TELEMARKETING - DENÚNCIA

É verdade que a ATENTO protege seus trabalhadores da Covid? Relatos mostram outra realidade

Nós no Esquerda Diário fizemos diversas denúncias das condições em que trabalhadores do telemarketing estão sendo expostos em meio à pandemia do Covid-19. A empresa Atento nos procurou dizendo que a saúde de seus funcionários está em 1º lugar. Será mesmo? Nos envie seu relato com a realidade no dia a dia da empresa.

quarta-feira 27 de maio| Edição do dia

Frente à enorme repercussão, nas redes sociais e no próprio Esquerda Diário, das inúmeras denúncias dos trabalhadores do telemarketing de diversas empresas acerca das condições de trabalho durante a pandemia, a multinacional Atento entrou em contato com a equipe do Esquerda Diário. Segundo comunicado da empresa, a saúde e o bem estar de seus “colaboradores” (sic) “estão no centro da estratégia da Atento”. As denúncias que continuam chegando ao nosso portal, porém, mostram outra realidade. O que nos leva a levantar a pergunta: e aí, trabalhadores do telemarketing, com quem está a verdade, afinal?

No início da quarentena no Brasil, vimos estourar diversos protestos de trabalhadoras e trabalhadores de grandes empresas de call center em diversas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, além de outros estados brasileiros. As denúncias vêm de trabalhadores de várias empresas. A impactante frase “não podemos morrer na P.A.” mostrava, ao mesmo tempo, o desespero e a revolta dos trabalhadores desse setor, que viram suas vidas ameaçadas diante das precárias condições de trabalho.

Vídeo de trabalhadores da empresa AlmaViva exigindo condições seguras de trabalho.

Saiba mais: Trabalhadores do telemarketing paralisam e fazem ato em SP: "Não vamos morrer na PA"

A Atento é uma gigante entre as empresas que atuam nas áreas de telemarketing e call center no Brasil. Com um faturamento de cerca de 827 milhões de dólares em 2019 - segundo dados divulgados pela própria empresa - mantém seus trabalhadores com salários muito baixos, que em muitos dos casos mal ultrapassa o salário mínimo, e em condições ultra precárias de trabalho, com muitos trabalhadores sofrendo pressão psicológica, assédio moral ou reclamações agressivas de seus clientes para que atinjam, acima de tudo, as tão estimadas “metas”.

As milhares de denúncias que circularam pelas redes sociais chocaram pelo nível de desrespeito com as vidas que atuam nesse setor, rapidamente considerado “essencial” pelo reacionário e sanguessuga Governo Federal de Jair Bolsonaro, inclusive, por meio do decreto 10.282, permitindo que os grandes empresários pudessem se apoiar nessa desculpa inescrupulosa de “serviço essencial” para seguir lucrando em meio à pandemia. Justamente o que fez a Atento. Em comunicado enviado à equipe do Esquerda Diário, a empresa se apoia nisso para seguir funcionando e expondo seus trabalhadores:

“O Decreto 10.282 do Governo Federal, publicado no Diário Oficial da União em 22 de março, que insere a atividade de call center entre serviços essenciais, aumenta a nossa responsabilidade em garantir um ambiente seguro para os nossos colaboradores.”

Pois bem. Pois bem. O governo Bolsonaro classificou essa atividade como essencial, o que já é bastante questionável, tendo em vista que a Atento também opera serviços tal como cobranças bancárias e venda de serviços de TV a cabo, por exemplo. Se já não bastasse isso, trabalhadores relataram a ausência de cuidados elementares, como sabão nos banheiros, álcool em gel e materiais de proteção, como máscaras de uso individual dos headsets. Também há denúncias de outras situações de negligência, como a recusa de liberação das pessoas que são do grupo de risco, demissão de trabalhadores que contraíram a Covid-19 e a manutenção de profissionais aglomerados nas salas de atendimento.


Denúncias de operadores de telemarketing que prestam serviço a diferentes empresas, relatando condições de descaso das patronais.

Em sua nota, a Atento diz que a partir do dia 13 de abril passou a cumprir com seu dever de liberar todos os trabalhadores do grupo de risco, incluindo gestantes e pais de filhos menores de 14 anos. 13 de abril! Somente após um mês, depois de permitir a exposição de milhares de seus funcionários. Segundo as normas sanitárias estabelecidas, são do grupo de risco pessoas maiores de 60 anos, as que possuam doenças crônicas (como diabetes, hipertensão, lúpus, obesidade etc.), além de gestantes. Entre os mais de 75 mil trabalhadores contratados pela Atento no Brasil, 20 mil - segundo a empresa - foram liberados. Ou seja, menos de 30% de seu quadro de funcionários. Será que todos os que se enquadram no grupo de risco foram de fato liberados? E a remuneração desses trabalhadores... está assegurada? Foram cortados direitos? E será que esses supostos 20 mil ainda seguem em homeoffice ou já foram obrigados a retornar à empresa?

A Atento afirma que está respeitando o distanciamento de 1,5 metro entre os operadores em todos os espaços, não só nos Pontos de Atendimento, como também nas áreas destinadas ao descanso e alimentação. As denúncias que recebemos, entretanto, dizem o contrário, como essa a seguir:

“Na Atento Brasil, de São Bento, surgiram vários operadores de telemarketing com os sintomas e até confirmação de estarem com o vírus. Na empresa tem operações com muitas pessoas expostas à outras que podem estar sem sintomas e assim fazer com que a doença só se espalhe. A empresa se recusa a dispensar mesmo estando nessa situação precária, e tenta, ainda assim, manter a imagem de um local "seguro" perante a fiscalização que vai acompanhar a atual situação do ambiente de trabalho.”

A multinacional também diz que fornece álcool em gel e sabão a seus funcionários. Segundo registrado no e-mail que a empresa nos enviou: “As rotinas de limpeza e higienização também foram intensificadas principalmente nos pontos de maior contato. Adquirimos aproximadamente 25 mil litros de sabão líquido e cerca de 15 mil litros de álcool em gel e seguimos repondo o estoque constantemente.

Vamos lá. Se 20 dos 75 mil funcionários foram dispensados, isso significa que seguiram trabalhando 55 mil trabalhadores. Se essa quantidade de álcool em gel fosse distribuída igualmente entre todos os seus funcionários, significa que cada um teve direito a apenas 270 ml de álcool em gel. Em quanto tempo acaba essa ínfima quantidade? Essa quantidade é reposta de quanto em quanto tempo, sendo que pode ser suficiente para, no máximo, 1 semana?

De acordo com outra denúncia, a situação não é bem essa:

“Trabalho atualmente na Atento Nova São Paulo, localizada na Granja Julieta, em São Paulo. Álcool gel só tem disponível na cozinha (que é longe da operação). Na própria operação e no banheiro não tem disponibilidade. Fora a questão, também, que em nosso banheiro muitas vezes falta até sabão para lavar as mãos.”

Ao final de sua nota, a Atento aponta o seguinte: “Seguimos em nosso compromisso de garantir um lugar de trabalho seguro a nossos colaboradores, o melhor serviço a nossos clientes e atuar como uma organização socialmente responsável”. Responsável? Vamos lá, mais uma vez:

A Atento Brasil é parte de uma rede que está em diversos países da América Latina e com sua matriz na Espanha. Vendida pela espanhola Telefonica para a norte americana Bain Capital, em 2012, é uma gigante do setor e esbanja fraseologia de “inovação”. Mas, os seus “colaboradores” são na verdade um batalhão de trabalhadores que não sentem, em seu trabalho e condições de vida, nenhum benefício dessa inovação ou desenvolvimento tecnológico. Essa realidade ficou evidente na campanha que a empresa fez em 2017, a favor da aprovação da Reforma Trabalhista, um dos maiores ataques aprovados pelo Congresso, com Maia à cabeça. Quanto ganha um operador de telemarketing recém incorporado na empresa? E quanto, em reais, ele vende por mês? E agora, com a reforma trabalhista, os operadores de telemarketing estão tendo melhores condições de emprego?

Em tempos pré-pandemia, as condições já eram drásticas, mas se torna ainda mais cruel agora com a pandemia. Não por acaso, foram esses trabalhadores os primeiros a se levantar com a palavra de ficou conhecida, “Nós não vamos morrer na P.A.”.

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No Brasil e no mundo, além de estarem enfrentando os riscos da crise sanitária, os trabalhadores, cada vez mais em postos de locais ultra precários, são jogados à mercê dos grandes empresários e pelos governos. Aqui no Brasil, se depender do governo de Bolsonaro, fica claro que suas vidas serão secundarizadas e foram inseridas como “serviços essenciais” justamente para que grandes bancos e empresas não tenham suas vendas e seus lucros garantidos. Também é nesse sentido que governadores estão reativando diversos setores da economia, reabrindo locais de trabalho e expondo milhões de vidas, sem garantir EPIs, nem álcool em gel, sabão, condições suficientemente dignas, menos ainda testes.

O que as dezenas de milhares de operadores em todo o Brasil tem a dizer sobre a declaração da Atento? A saúde e a vida dos trabalhadores de telemarketing está sendo realmente colocado em primeiro plano, como coloca a empresa? Está sendo oferecidas as condições para que trabalhem evitando o risco de contaminação?

Qual é a verdade? Nós queremos saber!

Sigam enviando suas denúncias para [email protected]

Nós do Esquerda Diário seguiremos denunciando todos os governos, empresas e patronais que acham que nossas vidas valem menos que os lucros deles. Seguiremos na linha de frente ao lado de todos os trabalhadores, recebendo e expondo denúncias que mostram em cada detalhe as condições de vida em que os trabalhadores estão obrigados a exercer suas funções. Essas patronais estão lado a lado de Bolsonaro, militares e dos governadores que, também junto a STF e Congresso, querem fazer com que sejamos nós, trabalhadores, a pagar os custos dessa crise.




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