Mundo Operário

VOZ PARA A JUVENTUDE TRABALHADORA

Duas experiências com a terceirização

Relato de jovem operário sobre as condições de trabalho precárias na indústria. Mande também o seu relato.

terça-feira 16 de junho de 2015| Edição do dia

Fui terceirizado por três meses numa fábrica metalúrgica multinacional dona de grandes marcas da linha branca. Agente usava o mesmo uniforme, EPI, o mesmo horário, trabalhava na linha de produção. Tinha muita gente terceirizada igual nós, de várias empresas, eu trabalhava na maior. A maioria dos que trabalhavam comigo era moleque de 18 a 20 anos. Agente era do segundo turno, no primeiro era mais mulher no nosso lugar. Teve um que não passou nos três meses, mas depois voltou por outra empresa, em outro setor.

Agente tinha que passar por “duas experiências”, porque ficava terceirizado três meses, aí se passasse a empresa contratava e aí começava os três meses da empresa. Na verdade você ficava seis meses na experiência, nesse tempo todo podia ser mandado embora sem direito. Naquele tempo ainda podia pegar seguro desemprego com seis meses, agora nem isso mais. Outra coisa é que você também ficava mais tempo ganhando menos, porque sempre quando tá na experiência eles pagam menos. Era zuado que só agente tinha que mostrar o crachá o tempo inteiro, principalmente pra entrar e na hora do lanche agente só podia pegar um salgado e os outros podiam pegar mais. Na real cada um dava um jeito e pegava mais salgado. Umas coisas sem sentido, você trabalha três meses na empresa, aí quando vai ser efetivado eles dão uma semana de curso, mas você não vai mudar de posto, vai continuar fazendo a mesma coisa, agente pensava, porque só agora tem que saber essas coisas?! Coisa de segurança do trabalho, NR, 5S etc.

Depois eu sai dessa empresa e entrei em outra, multinacional do ramo da alimentação. Entrei como efetivo já, até fiz a entrevista para ser terceirizado, mas como tinha sido efetivo na empresa anterior, acabaram me passando direto. Tinha bem menos terceirizado, mas estava aumentando. Terceirizaram a limpeza, depois a lavanderia, depois começaram a ter vários terceirizados na manutenção. Ultimamente começaram com um negócio de jovem aprendiz, que não é terceirizado, mas por ser menor de idade ainda, ganha bem menos e não tem vários direitos. No RH, na produção, na manutenção, encheram de jovem aprendiz. Quando a empresa começou a cobrar a nossa refeição, todo mundo ficou revoltado debatendo e nisso que eu fui saber que os terceirizados da cozinha, que fazem as refeições, já pagavam por elas. Assim como os da lavanderia e da limpeza, que ganham menos e não tem convênio médico.

Quando agente para pra conversar sobre terceirização, ninguém acha certo ganhar menos e ter um monte de desvantagem, mas no dia a dia a galera não para pra pensar como resolver isso, parece que não é problema de ninguém, só tem que dar um jeito de não ser você. Essa ideia de concorrer com o outro pra não ser você com o pior posto, de terceirizado, é muito complicada. Tem uma coisa que é certo, ninguém tem que querer ter o pior posto, querer ganhar menos, todo mundo deve buscar o melhor para sua saúde, sua família etc. O problema é que enquanto os trabalhadores concorrerem uns contra os outros, as empresas sempre vão ter essa vantagem para pagar salários mais baixos. O único jeito de resolver isso é os efetivos de cada lugar se unirem com os terceirizados e defender o direito deles. Todo mundo tem amigo no bairro que está de terceirizado, ou na família também tem e agora com essa lei vai aumentar ainda. Quanto mais terceirização mais dificuldades para os trabalhadores como um todo, cada vez piora a concorrência com os outros. Por isso o fim da terceirização seria uma coisa boa pra todos os trabalhadores, terceirizados e efetivos.




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