Drummond, modernismo e a defesa a Aleijadinho contra a mineração

A lama da Vale, além de tirar vidas, ameaça destruir o enorme patrimônio histórico-cultural de Minas. A batalha contra isso não é de hoje, ela foi uma das pautas do movimento modernista. Por que estes artistas tinham como pauta a defesa desse patrimônio e, principalmente, da figura de Aleijadinho?

sábado 25 de janeiro| Edição do dia

Além de tirar centenas de vidas e causar imenso dano ambiental, a lama da Vale também afetou o patrimônio histórico-cultural de Minas Gerais. O desastre de Brumadinho chegou a sítios arqueológicos da região. O de Mariana destruiu Bento Rodrigues, lugarejo que surgiu no século XVIII como uma das primeiras unidades mineradoras em Minas Gerais. Os constantes alertas de rompimentos de outras barragens ameaçam outros patrimônios. Vinte e quatro barragens cercam a histórica Congonhas, 54% delas com alto dano potencial associado. Em caso de desastres, a “casa dos profetas” de Aleijadinhoseria devastada.

A batalha pela preservação deste patrimônio histórico de Minas contra a especulação imobiliária e a devastadora mineração da Vale não é de hoje. O poeta Carlos Drummond de Andrade já denunciava no século passado, em crônicas e versos, a destruição predatória da Vale. O mais famoso deles, que correu a internet quando da tragédia, foi o poema Lira Itabirana, publicado no jornal O Cometa Itabirano em 1984, no qual o poeta faz uma denúncia frontal à mineradora, às multinacionais e à dívida pública, que compromete grande parte do orçamento brasileiro desde a época do Império até os dias de hoje.

Em visita a Itabira, o escritor e músico José Miguel Wisnik afirma que o pico do Cauê (o morro majestoso sob cujas franjas a cidadezinha se espalhava) e os sinos da Igreja Matriz do Rosário - duas imagens fundamentais da memória poética de Drummond - "não haviam mais". "A Vale minerou o pico até ele virar uma cratera. A mineração fez a Igreja tombar. E a fazenda da família de Drummond virou um campo de rejeitos [de minério] da Vale", disse Wisnik.

Preservação de Minas como uma empreitada Modernista

Mário de Andrade, então Diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo no ano de 1936, torna-se grande entusiasta e articulador da criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O próprio Drummond, em 1945, vai trabalhar neste mesmo organismo, transformado em DPHAN, Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde trabalhará até sua aposentadoria, em 1961.

O interesse dos modernistas pela preservação patrimonial de Minas, e principalmente da arte de Aleijadinho, não é aleatório. Fazia parte da busca e preservação de uma “identidade nacional” para o Brasil, um país recém-saído do status de colônia portuguesa no fim sec. XIX e ingressante no rol das supostas “não-colônias” do Terceiro Mundo, com a promessa de ascender, de acordo com a retórica do desenvolvimentismo de Getúlio Vargas. Drummond não tinha, entretanto, identificação total com a empreitada do movimento modernista, do qual confessa ser, em carta (1931) a Alceu Amoroso Lima, um "legionário sem fé":
Convicções políticas, filosóficas, estéticas, não as tenho. Nunca senti entusiasmo algum pelo modernismo. Hoje sou um legionário porque, embora não tenha a mínima ilusão sobre a origem, natureza e finalidade desse movimento, eu o considero mais interessante e sobretudo mais honesto do que a organização perremista do Estado. Sou, portanto, um legionário sem fé. (MASSI, 2008)

Um ateu em defesa das Igrejas mineiras

“Pó sem esperança, pó sem lembrança”: as palavras de Drummond no poema “O Vôo sobre as igrejas” descrevem com exatidão o rumo que vinha tomando o patrimônio histórico-cultural do velho estado de Minas Gerais antes dos modernistas se debruçarem sobre essa pauta. O poema em questão parte da “Matriz de Antônio Dias”, que se refere à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, situada em Ouro Preto, onde estão enterrados Aleijadinho e seu pai.

Ele reproduz uma procissão que é pintada quase como um cortejo fúnebre, uma “romaria de assombração”. Mas deixa evidente que não há “fantasmas no dia claro”, “nem se percebem catingas e rouges, boduns e ouros do século 18”. Assim, não há deuses, fantasmas, glórias do passado ou desgraças. Nada de grotesco ou mesmo sublime, tudo é simples, banal. O mais elevado são os serafins e querubins de “róseas faces, “nádegas” e os “ornatos no azul autêntico” pintados na igreja.

Trata-se de encontrar na arte, e não na elevação ao céu cristão, tudo que se refere às glórias do tempo passado, tão bem representadas por Aleijadinho. “O Aleijadinho não teve o estrangeiro que... lhe desse o gênio. E por isso nós não acreditamos em nós” diz Mário de Andrade, em seu texto “O Aleijadinho” (1928), no qual sairá em defesa do artista que era tido por críticos estrangeiros como menor na comparação com os artistas do barroco europeu:
"É certo que elas não possuem majestade como bem denunciou Saint-Hilaire. Mas a majestade não faz parte do brasileiro, embora faça parte comum de nossa paisagem. Carece, no entanto, compreender que o sublime não implica exatamente majestade. Não é preciso ser ingente pra ser sublime. (...) São dum sublime pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada, que são feitas pra querer bem ou pra acarinhar, que nem na cantiga nordestina. São barrocas, não tem dúvida, mas a sua lógica equilíbrio de solução é tão perfeito, que o jesuitismo enfeitador desaparece, o enfeite se aplica com uma naturalidade tamanha, que si o estilo é barroco, o sentimento é renascente." (ANDRADE, M., 1984).

Lavou a “luxúria” em pedra-sabão

É interessante a imagem que este poema traz do arquiteto mineiro. “Este mulato de gênio / lavou na pedra-sabão / todos os nossos pecados, / as nossas luxúrias todas”. Lavar os pecados em pedra-sabão traz uma bela elucidação do fazer artístico de Antônio Francisco Lisboa e da arte mineira do séc. XVIII. Mário de Andrade situa esse período de Minas Gerais, apontando que o “fulgor legítimo fora o dos três primeiros quartos do século(...). Mas no momento em que Aleijadinho, ali pelos trinta anos de vida ou talvez mais, impôs o gênio dele, Minas decaía como quem despenca. O que perseverava era apenas o brilho exterior.” (ANDRADE, M., 1984)

Manuel Bandeira, que também escreve sobre o assunto em Crônicas da Província do Brasil, na crônica “De Vila Rica de Albuquerque a Ouro Preto dos estudantes” (1929), aponta que antes do período em que Aleijadinho desponta enquanto artista, as cidades mineiras não tinham grandes luxos, belezas arquitetônicas etc. No auge da extração de ouro, que aponta ser de 1725 a 1750, à exceção do luxuoso cortejo do Triunfo Eucarístico (que ainda assim desconfia ter sido descrito de forma desmesurada por Simão Ferreira), “o quadro era estro e pobre” na antiga Vila Rica. Ao descrever as impressões que os estrangeiros tinham do local, conta que davam a ideia de uma terra sem lei, sem governo, um “agrupamento tumultuário de aventureiros que desperdiçavam o ouro em jogo e superfluidades”, imagem que coincide com as “luxúrias todas” que o poema do qual tratamos indica serem lavadas pela obra de Aleijadinho.

O ouro de Minas não ficava no Brasil, escorria diretamente para a metrópole portuguesa, o que vai ser questionado no final do século (momento de mais auge de Aleijadinho, inclusive) com a inconfidência. Há assim uma tentativa não consumada de fazer do Brasil aquilo que a arte deste arquiteto prenunciava: uma Ouro Preto grandiosa, maior que mero quintal de exploração da metrópole portuguesa. Essa situação do país não se altera substancialmente no século seguinte, o que talvez explique o esquecimento de Aleijadinho até que os modernistas o retomam no séc. XX.

Novos avanços do capital, velho atraso das colônias

Schwartz (2016), analisando Machado de Assis em “Um mestre na periferia do capitalismo”, vai verificar como a emancipação política do Brasil no século XIX revela caráter conservador, já que as conquistas liberais da Independência não alteraram o complexo socioeconômico gerado pela exploração colonial. O tráfico de africanos, por exemplo, continua a ser um bom negócio até a abolição, em 1850, assim como o café, primeiro assentado na escravidão, depois (e até hoje) no trabalho semiforçado.
Ou seja, as transformações políticas pelas quais o país passou pouco alteraram os modos atrasados de produzir; pelo contrário, os promoveram. Esse desenvolvimento moderno do atraso não é uma exclusividade brasileira, já que, observando o rearranjo da divisão internacional do trabalho, verifica-se que coube às ex-colônias o papel de consumidores de manufaturados e fornecedores de produtos tropicais.

Isso aponta para o conceito marxista do “desenvolvimento desigual e combinado”, que sugere que a necessidade de lucro do capital é suprida através da reprodução e do agravamento de formas anteriores de opressão, ou seja, os avanços do capital e a ordem planetária criada por ele são a causa do atraso de nosso país. Inclusive até os dias de hoje. Em 2018, o minério de ferro representou quase 17% das exportações brasileiras. Apenas em 2019, o Brasil exportou 335,66 milhões de toneladas de minério de ferro, enorme montante que os analistas consideram ainda abaixo da média. Mas, a depender da política bolsonarista de transformar o país cada vez mais em “fazenda do mundo” (gerando devastação, queimadas, poluição), essa exploração predatória se agravará.

O “legionário sem fé” e um alerta sobre a ideia de “herói nacional”

Tendo em vista este contexto - de um Brasil não mais colonial em aparência mas sim em essência e da reposição do atraso através de um suposto “progresso da nação” nos marcos do capitalismo -, Drummond nos coloca um alerta sobre o viés de “herói nacional” que se dará à retomada de Aleijadinho no séc. XX. O tom “dessacralizador” do poema mostra isso. Deus está “coberto de chagas” e “a virgem cortada de espadas”. Interessante notar que não há “Nossa Senhora da Conceição” no nome da matriz no poema, há apenas “Antônio Dias”, nome do bandeirante que ergueu a capela que depois torna-se igreja. O que há, portanto, é uma completa desidealização de deus, dos santos e da própria igreja, e isto atingirá Aleijadinho também, que não é exatamente um herói no poema, afinal “teve dinheiro, mulher, / escravo, comida farta”.

O que resta destes vaivéns é um “era uma vez”, de um Aleijadinho que “não tinha dedo, não tinha mão”. Os dedos, a mão, o corpo se vão e muito da arquitetura mineira é reduzido a pó, corroída pela chuva (como relata em Morte das casas de Ouro Preto) ou, mais recentemente, afundada na lama de tragédias como a de Brumadinho.

O poema fica entre a necessidade de eternizar Aleijadinho e defender sua obra, mas ao mesmo tempo, não transformá-lo em um herói, um santo. Essa desmistificação da figura de Aleijadinho questiona o ideal de “identidade nacional” do modernismo, que muitos modernistas encontram neste arquiteto do barroco brasileiro. Mário de Andrade encontra nele a ideia do herói “mestiço”, que juntaria o “melhor dos dois mundos”, a relação da colônia e a metrópole. O limite dessa visão é desconsiderar a violência que permeia essa relação, que não é de progresso para a colônia, é antes de tudo a de dominação da metrópole sobre a colônia, do senhor sobre o escravo (ainda que Mário chega a reconhecer que os modernistas de 22 também foram vítimas do “engurgitamento” da consciência nacional).

Na crônica “Viagem a Sabará”, no livro Confissões de Minas (2010), Drummond aponta também outro problema desse Aleijadinho "herói": tem servido para transformar a sua arte em mercadoria, em lucro e turismo. Diz ele:
“Embora seja por muitos títulos um artista difícil, como se diz, o Aleijadinho tem uma clientela cada dia mais numerosa. Seus trabalhos são coisas que podemos mostrar sem susto, como a colcha de damasco, a toalha de renda, o castiçal de prata. Envaidecem. E depois dão lucro; necessidade de fomentar o turismo, indústria incipiente e de grandes possibilidades; o dinheiro que circula e tilinta nos bolsos; atividades que se intensificam; seria até o caso de posturas municipais.” (ANDRADE, C., 2011)

Drummond mostra-se, então, um “legionário sem fé” tanto do ideário modernista de constituição dos “heróis de nosso povo” como do seu trabalho no Estado em defesa do patrimônio histórico, pois sua essência crítica e reflexiva não pode deixar de notar as incongruências dessas empreitadas. É um modernista não muito convicto do Brasil-nação e seus heróis. E é um ateu defensor de igrejas, perante a um Estado, do qual também desconfia, pois as reduz a turismo para fins econômicos. Drummond, que era um iconoclasta por excelência, não pôde se iludir com isso, e sua obra abre nossos olhos para ver que a máquina do mundo não gira para frente por simples ação de heróis, mas sim por pessoas como nós, de carne e osso, que fizeram dos seus braços e pernas motores da história.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
ANDRADE, Mário de. Aspectos das Artes Plásticas no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Ed. ltatiaia, 1984.
BANDEIRA, Manuel. Crônicas da província do Brasil. 2 ed. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
MASSI, Augusto. Carta de Carlos Drummond de Andrade a Alceu Amoroso Lima. Teresa Revista de Literatura Brasileira 8; São Paulo, p. 76-80, 2008.
MERQUIOR, José Guilherme. “A estética do modernismo do ponto de vista da história da cultura”. In: Formalismo e tradição moderna. Rio de Janeiro: Forense - Universitária; São Paulo: Edusp, p. 77-102, 1974.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Editora 34, 2016.




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