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Douglas Rodrigues Barros: o que é ser negro no Brasil, uma resposta à Djamila Ribeiro

Douglas Rodrigues Barros: o que é ser negro no Brasil, uma resposta à Djamila Ribeiro

Douglas é escritor e filósofo e no marco do novembro negro, enviou essa contribuição ao nosso semanário Ideias de Esquerda, onde frequentemente realizamos tribunas abertas com opiniões e reflexões de intelectuais amigos.

Esse texto foi transcrito de um debate realizado no Brasil 247 entre Carlos Hortmann, Douglas Rodrigues Barros e Letícia Parks. Transcrição: Cian Barbosa.

I

Agradeço muito pelo espaço aberto, agradeço a Letícia que aceitou falar sobre essa questão urgente e agradeço a quem está nos assistindo. Eu vou pedir licença, antes de tudo, pra deixar três pontos evidentes: primeiro como estudante de filosofia que ainda sou, e sabendo que melhores do que as respostas são os problemas que filosofia evoca, eu peço licença para mudar a pergunta: ao invés de quem é negro no Brasil, a questão é: o que é ser negro no Brasil. Em segundo lugar, não devemos ver dragões em moinhos de vento. A questão que tratamos aqui não é uma questão de identidade subjetiva, é uma questão de tornar-se sujeito. E claro, só posso me tornar sujeito com a construção da identificação que me dá uma identidade provisória. A gente sabe, né? O negro não nasce, o negro torna-se negro. Não há uma posição naturalmente negra, não há um negro essencial, a despeito do tom de melanina. Acreditar nisso não é só remontar a temas perigosíssimos do passado recente como fazer coro com o que há de pior, de pior, do eugenismo. Afirmar isso é reativo, é voltar a frenologia e daqui a pouco estamos medindo as capacidades das pessoas pelo tamanho do crânio. Isso é um horror!
Kabenguele Munanga vai dizer numa entrevista muito interessante: ser negro é sobretudo ser um sujeito político. Ser um sujeito político é ser alguém capaz de saber a si mesmo como parte daqueles que não tem parte em nada. Quer dizer, daqueles que foram excluídos dos processos de organização e visibilidade das relações de poder. E aqui expulso Foucault da minha fala, relações de poder também não são essências etéreas são forjadas pela história e por relações de disputa entre os que não tem parte e aqueles que fazem parte do jogo. Sabe o nome disso? Esqueceram, a maioria esqueceu, mas o nome disso é luta de classes, porra!
Terceiro, falar sobre isso é um sinal de novo, é um sinal fundamental que permanecemos muito tempo quietos e consentimos que aos poucos uma luta de cem anos fosse completamente achincalhada. Então, é preciso dizer, não sou, nem quero ser porta voz, eu acredito na autonomia, na sujeita, não sou inventor, não sou nem original, o que vou tentar expor aqui de maneira sumaria é algo que já vem sendo dito há cem anos e é um desrespeito com essa luta, com essa luta coletiva, o que está acontecendo agora. E é por isso que estou aqui!
Então antes de ir para as alturas da abstração, eu quero começar do meio, do processo de modernização do capitalismo nesse país, e como ele se deu. Processo de modernização. Lembro algo simples: o Brasil foi o último país a abolir a escravidão por ingerência da Inglaterra: “santos ingleses”, dizem os liberais que com seu capitalismo livrou-nos da escravidão! Não preciso evocar muita gente mas se a gente pensar em Galeano, num livro que não é lido por esse ativismo delirante de hoje, chamado as veias abertas da América Latina, a gente logo se dá conta da santidade desses santos. Esse processo violento no Brasil, que lendo o Galeano, a gente sabe; fez parte da acumulação primitiva, simplesmente fez com que os negros desaparecessem das fazendas. A mão de obra importada da Europa para limpar o país dos ex-escravos vai estruturar nosso processo de modernização que será central para construir a desigualdade sócio-racial.
Mas não só, um outro esquecido, mas gigantesco do ponto de vista da erudição, do ponto de vista do pensamento radical, Milton Santos, vai demonstrar como a própria cidade estará assentada sobre critério racistas quando demonstra o porquê e como as favelas nascem! Isso vai estabelecer critérios raciais que irão adequar os espaços de visibilidade e invisibilidade no interior da nossa ordem e das relações de produção e reprodução capitalista. Os impactos disso se darão de maneira radicalmente abrangente tanto no nível de construção subjetiva e individual, quanto no nível da construção objetiva e social. O negro só vai retornar à bibliografia – e aqui tô falando da historiografia de Taunay, pra vocês verem! – só vai voltar nos anos 20 e 30! Passam-se 30 anos. A formação do mercado de trabalho é eivada da organização racial de ocupação dos espaços que configuram o mercado de trabalho. O ex-escravo foi convidado a se retirar, e se virar. Não teve nada, indenização, nada! Olho da rua! E como se viraram? Biscates, trampo de construção, escola de samba, jogo do bicho e por aí vai!
Claro estou falando aqui do Sudeste, e da formação primeiro da cafeicultura e depois do nascimento industrial, no norte e nordeste a coisa se deu de maneira um pouco diferente. E vejam: quando falo isso não quero silenciar o que aconteceu noutras regiões mas demonstrar como aquilo que ia se generalizar graças a indústria
Pois bem: dois fatos foram determinantes: a construção do imaginário miscigenado por meio de adoção de políticas eugenistas a partir de um congresso em 1912 que proclamava que 2012 o Brasil seria branco se adotasse a política de miscigenação; Então evidentemente a miscigenação é uma política violenta de branqueamento, isso não quer dizer que se reduza ao estupro! Nossa modernização foi mais sútil do que isso. Foi a construção de um ideário nacional que nasce 18 anos depois da República e que será organizada pela obra de Gilberto Freire, mas também de Sérgio Buarque de Hollanda e quem tinha dado o ponta pé foi o maravilhoso Sertões de Euclides: a construção de uma ideia de Brasil
É aqui que começo o debate do nosso tema. Olha, Freyre fazia parte desse desejo modernista, e quando eu falo desejo modernista de construção nacional devemos levar em consideração que esse desejo vai de Freyre até Oswald de Andrade passando por uma camarada como a Pagu. Estava em jogo a ideia de formação nacional. Quem não escutou Villa Lobos e o trem do caipira? Eu sei um monte de gente, porque ninguém liga pra esse país! (Só uma nota: um negro, músico dos bons... lá no Rio de Janeiro, me fez uma descrição tão bonita dessa música que nos dois choramos na mesa do bar na Lapa junto com o Cian). Então a gente estava num momento forte desse país, uma ideia de construção nacional que terá forte apelo cultural e que nos marca até hoje tá!
Pois foi aí! Nesse contexto, em 1933 que Freyre patenteia o termo de morenidade, por favor, atenção: morenidade metarracial. Eu sempre tento aqui tirar os óculos do Abdias do Nascimento. Porque Freyre sempre me pareceu um conservador honesto que acreditava no projeto ideológico em sua pura forma da nacionalidade! O que era essa morenidade metarracial? A metarraça seria aquilo que estaria para além da raça e a morenidade o fruto legitimo do entroncamento das raças formadoras do país. O moreno, o mulato, seria, portanto, aquele que supera a noção de raça e consegue unificar em si o horizonte de progresso do pais. A ideia colonialista básica é a seguinte: unindo em si a emoção negra, a frieza racional branca e a denguice e simplicidade indígena: o moreno é o produto original da raça brasileira.
O que isso ocultava? Trata evidentemente de uma mistificação que acaba resultando na invisibilização do descendente de escravos. Um apagamento de sua história espiritual, de sua construção subjetiva quanto de sua história objetiva. A construção da noção de morenidade, a despeito das belas intenções do nosso conservador, era isso! E quando você vira para uma mulher negra e a chama de morena, você está inconscientemente ou conscientemente de acordo com esse ideário. É claro que não há crime chamar ninguém de moreno ou morena! Não é isso que estou dizendo, o que estou dizendo é que quando você se julga porta voz do movimento negro e chama uma mulher negra de morena, tentando silenciar a crítica que ela faz, aí sim, você está sendo conivente com os defensores de escravocratas! E não me espanta que essa voz ainda tenha tanto eco.
Mas, só para encerrar essa parte: Pois bem, atenção para os nomes que vou dar moçada: Guerreiro Ramos, que já debatia tais questões no Teatro experimental do Negro, Abdias do Nascimento, os cadernos negros, memoráveis! E Lélia Gonzalez que tem o livro Lugar de negro e narra toda essa experiência, vieram com uma dinamite para implodir essa ideia. Então só de combate contra a noção de morenidade são quarenta anos! Vai de 1933 até 78 quando explode a organização do Movimento Negro Unificado. Aliás a gente não pode ocultar o trabalho fundamental das mulheres na organização do lançamento do MNU, que foi lançado sob o nome de movimento unificado contra a discriminação racial. e só depois foi acrescentado o significante negro. Aqui o maior documento dessa experiencia é o livro da Lélia!
Lá fica evidente como o afrodescendente é esse negro, como o mulato é esse negro, e aquelas pessoas que eram forçosamente lidas como brancas e tentavam ocultar suas ascendências negras eram chamadas por Abdias jocosamente de brancóides. Lélia ao contrário do que foi dito não abriu o significante negro ou fez concessões a mulata e moreno, é falso essa afirmação! Então veja a experiência de miscigenação eugenista legou um país majoritariamente negro e era essa a perspectiva dos críticos e militantes no final dos anos 70, porque eles tinham profundo acúmulo e leitura sobre as especificidades de nossa realidade. O negro era visto como o pobre, porque a miscigenação tinha ocorrido na base da pirâmide social, o branco era o burguês, o patrão. E é essa luta que não podemos deixar de lado! Não podemos esconder ou ocultar. É disso que se trata, da perspectiva de transformar a realidade desse pais
Desculpa se me alonguei, não respondi o que é tornar-se negro, mas deixo a palavra e falo noutro bloco.

II

Sobre a questão do tornar-se negro. Neusa Santos escreveu uma obra fundamental. Que tem esse título! Eu vou contar uma história antes pra aqueles que são distantes do debate na psicanálise possam entender de maneira mais simples: Eu tenho um amigo de Guiné Bissau que veio estudar letras na Unesp Marilia, e evidentemente para nós, ele é um negro. Num debate que realizamos numa escola pública aqui de Itaquá, que teve um processo de racismo bem pesado com uma das alunas, nós fomos discutir sobre o que é ser negro no Brasil. Meu amigo nos disse então, que em Guiné, ele não sabia que era negro, ele só se descobriu negro aqui no Brasil, e como? Pelos olhares e formas de tratamento.
Essa história ilustra muita coisa: uma delas é que o significante negro é um processo de construção histórico-social, não tem nada de biológico, de natural. É por isso que Mbembe diz: o negro não existe enquanto tal, ele é constantemente produzido. E essa produção é responsável por um corpo para exploração faz parte de um manejo colonialista! Agora se estou aprisionado e reduzido a esse corpo o que fazer? Vejam, em primeiro lugar, há uma transnacionalização histórica da condição negra e o atlântico é o lugar onde isso ocorre, aquilo que chamamos de diáspora.
O negro ocorre em duas vias, o que dizem a seu respeito e o que ele pode dizer de si mesmo. É disso que emerge uma razão negra: da tentativa de, diante dessa condenação à raça e a redução ao corpo, forjar discursos e práticas com o objetivo de fazer acontecer o negro como um sujeito! Se me dizem negro, negro sou, como na poesia de Victoria Santa cruz: essa distância, entre o que dizem que sou, e o que digo que sou, foi resolvida na fórmula de Baldwin: não sou seu negro! Quando digo que sou negro, me afirmo negro eu faço um ato, um gesto de organização que me põe enquanto sujeito. É exatamente por isso que lutava o movimento negro de outrora porque eles sabiam que o conteúdo dessa afirmação subjetiva é marcado pelo combate de todos os que foram submetidos à colonização e a segregação e que tentam se libertar das hierarquias raciais.
Esse esforço é um esforço coletivo que adota a epistemologia daqueles que não tem parte na visibilidade da álgebra do poder, o negro quando se afirma, ele se afirma como alguém não apreendido na lógica geral, dá, portanto fala, fala política a esse que foi silenciado, fala que é uma arma para que se combata as dimensões resultantes da racialização da vida social. A questão racial impõe um descentramento, e impõe para o indivíduo de cor um duplo sistema de referências. O que são as máscaras brancas?, “e aqui estou falando de Fanon”. A construção de um imaginário coletivo em que pelo fato do indivíduo racializado ser construído de maneira extremamente negativa. Ele opta inconscientemente por ser branco. O inconsciente geral em que a branquidade opera como hegemônica está carregado de uma construção simbólica que recria o imaginário em que o branco aparece como o ideal.
É Fanon que vai demonstrar de maneira brilhante como a catharsis coletiva – é uma necessária sublimação que opera a descarga de energias acumuladas sob a forma de agressividade na sociedade contemporânea. Daí a grande questão é que a liberação da violência permitida pela produção cultural massificada fornece os mitos compensatórios
Para Fanon são mitos que libertam do peso da culpa aqueles que compactuam do crime perpetrado para organização e manutenção do status quo. Isso explica muito o Datena, porque a fixação na violência transmitida pela TV, violência que recai sobre os não-brancos, desvia a responsabilidade do crime da sociedade ao mesmo tempo que encontra um bode expiatório para ser sacrificado.
Daí que nessa estrutura de um imaginário colonial branco; o indivíduo de cor subjetivamente e intelectualmente se comporta como um branco. Diante do aparato da indústria cultural está acontecendo uma identificação do menino racializado com algo que não tem nada a ver com ele, ele se identifica com aquele que geralmente está matando sua gente! E a violência prevista ali traduz não só o rito catártico que purga a sociedade de sua violência, como reafirma a visão de mundo hegemônica. A fonte de neuroses do indivíduo racializado, por exemplo, está na situação cultural que vai promovendo um imaginário duplo, uma dupla referência e da projeção, no seio da cultura massificada, do branco como ideal.
De onde sai essa dupla referência: na família você é tratado como um indivíduo, na sociedade você é tratado como um indivíduo racializado. Nesse ir para fora reside o trauma. Veja como a ideia de uma autodeclaração negra é fundamental aqui! E é fundamental porque, tirando indivíduos que nascem imediatamente sujeitos – o que é uma mentira – você só descobre o tornar-se negro diante do olhar traumático daquele que te nadifica porque é apegado as estruturas hierárquicas raciais. Porque fora dos lares privilegiados, lares em que há militantes que são antirracistas, fora deles, você não se sabe racializado desde que nasceu, seus pais não te criam dizendo que o mundo vai querer passar por cima de você por causa da sua pele ou de seus traços ou de seus ancestrais. E mesmo que isso ocorre é muito diferente saber e sofrer
Aliás na maioria dos lares brasileiros, fora do feudo acadêmico, o branqueamento é uma regra. As pessoas na vida cotidiana, não aquelas que moram na Vila Madalena ou desfilam no Projac, elas ainda têm medo de te chamar de negro. Há uma esquerda sequelada que acha que ser negro tornou-se um paraíso, só porque tem filme e propaganda agora, e, no entanto, ano passado a polícia militar em São Paulo e no Rio atingiram recordes de assassinatos de quem? Dos negros! Que são a maioria dos desempregados hoje ou empregados em empresas de ultraexploração como são as de aplicativos. Claro, essa galera não vive na quebrada, perdeu totalmente o sentido do real, você não precisa necessariamente viver na quebrada, mas precisa pelo menos olhar atentamente e tirar a cara do Twitter!
Eu quero dizer também pra encerrar que tudo isso é muito caro pra mim, me é pessoalmente caro! Porque eu cresci e me vi como sujeito no movimento negro, o movimento dos cursinhos populares salvou a minha vida: Educafro! Uneafro! Foram os lugares da minha formação. Eu fico muito triste quando olho para as redes e elas estão inundadas de jovens de 19 e 20 anos, doidos para encontrar um sentido, se tornarem sujeitos de sua vida e acabam sendo arregimentados para várias confusões ideológicas. Claro que faz parte do processo. Eu sei que é a própria angústia que constitui a condição de nossa ação, temos sempre que encarar vários possíveis e ao escolher um caminho, a gente se dá conta de que ele não tem nenhum valor a não ser o de ter sido escolhido. Às vezes eu me pergunto porque eu vivo falando dessa questão se seria mais confortável escrever sobre os romances que leio e escrevo!
De fato, eu quero silenciar, ainda ontem conversava com uma amiga do Rio (a Vaneza) e ambos estamos de saco cheio: eu não vou mais falar da questão racial, silenciarei por um bom período. Vou escrever outras coisas. Mas já estou devaneando: vou contar só uma história para acabar e demonstrar porque essa questão é cara:
“Minha mãe, em sua juventude se apaixonou por um homem branco, branco de olhos azuis, como dizem por ai: deu uma bela palmitada. Acontece, porém, que a família desse homem nunca chamou minha mãe pelo nome, sempre se dirigiam à ela como a negra do Seu Teteu, que era meu avô. Quer dizer, nunca se dignaram a chamar minha mãe pelo nome! Pois bem, ambos, naquela paixão, e o amor é justamente esse atravessamento do Eu no Outro, ambos resolveram fugir do Ceará – minha mãe é cearense assim como eu – e vieram de Pau de Arara e fizeram planos: juntar dinheiro e poder voltar para comprar uma bodega e viverem felizes. Se empregaram numa fábrica e depois de alguns anos de trabalho e juntando dinheiro resolveram voltar: “quem sabe aquela besteirada fosse esquecida?”, voltaram e quando faziam o enxoval de casamento, a família voltou com seu racismo pesado: “Essa negra do Teteu, não é para você!” era sempre a frase. Um dia, o cara titubeou! Numa discussão ficou meio assim... minha mãe explodiu e disse: “Qual é?”, o cara titubeou de novo, ela jogou a aliança no seu rosto e fugiu do Ceará, subiu no pau de arara e veio embora! No caminho, entretanto, ela descobriu que estava gravida. Ao chegar na Luz que era o lugar onde ocorria a parada do pau de arara, uma roda de caminhão explodiu, ela tomou um grande susto, olhou para as pernas e ali perdia aquele que seria meu irmão!”, minha mãe nunca aceitou bem essa história, dado o trauma sofrido apenas reproduziu o racismo que aconteceu com ela, pra ela conseguir se declarar negra foi um processo muito grande, mas na autodeclaração dela eu vi minha mãe sorrir, se ver como mulher e como sujeita de seu destino. Isso não é uma coisa menor!

Considerações finais:

Não pensem que vir aqui falar sobre isso foi algo fácil! Algo que não passou por um longo processo de maturação, de silêncio contido esperando talvez uma possibilidade de união, de pensar transversalmente nossas lutas. Eu fiz esse silêncio, eu compactuei com ele. O ano passado, eu tive o imenso prazer de partilhar com Deivison Nkosi uma mesa na minha querida escola de filosofia lá no Pimentas (EFLCH – Unifesp). Antes de começar sua fala, Deivison deixou o Capoeira falar e ele disse: “o nome dessa mesa tá errado! Tá errado! A gente já resolveu a questão da identidade, do que vocês estão falando?” Deivison falou isso com a autoridade de um Capoeira! Eu pequeno, olhei, não compreendi totalmente, havia algo de um enigma na sua fala. Eu entendi depois, o que era aquilo. E aquilo clamava pela não invisibilidade que a noção de morenidade traz, tá ligado!
Aquilo clamava pelo não abafamento de nossa voz na cultura, na religião, aquilo dizia respeito a aparição de nosso corpo como um corpo político e não individual. Nós somos um substantivo, quando falamos a partir desse substantivo trazemos para o presente todo sangue do atlântico. Nossa fala se torna política. Um amigo, um grande irmão na verdade me disse: isso não é conceitual nego, isso é no terreiro. Vocês imaginam o que é isso? Eu tive que responder: “temos que saber se esse terreiro ainda é nosso, ainda é de aquilombamento, ou agora é de divisão que fortalece sempre os de sempre”.
Então é uma tristeza imensa! Uma tristeza imensa ter que retomar esse debate com 13% de desemprego; com uma Pandemia que está matando a quebrada! Com uma crise econômica que está fazendo o pão faltar na nossa mesa. É uma tristeza imensa que a gente já não consiga se olhar, se comunicar entre nós, sem reafirmar coisas que já foram reafirmadas. Isso faz parte do respeito aos ancestrais! A todos os inomináveis e inumeráveis que são mortos pelo estado. O negro pode ser tudo! Sua luta é universal! Convém ao mundo todo!

Partir.

Assim como há homens-hiena e homens-
pantera, eu seria um homem-judeu
um homem-cafre
um homem-hindu-de-Calcutá
um homem-do-Harlem-que-não-vota
 
o homem-fome, o homem-insulto,
o

homem-tortura podia-se a qualquer
momento agarrá-lo,

moê-lo de panca
das,
matá-lo — isso mesmo, matá-lo!
— sem ter que prestar contas a nin
guém sem ter que pedir desculpas a
 ninguém
um homem-judeu

um homem-pogrom

um cãozito

um mendigo

Essa poesia de Cesaire sintetiza a luta que é nossa. Muito Obrigado!

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