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Donald Trump e o racismo anti-imigratório dos Estados Unidos

O primeiro debate dos candidatos republicanos à Casa Branca em 2016 foi um termômetro da longa disputa eleitoral: consolidou os candidatos com maiores condições de conseguir a nomeação e constatou a virada conservadora propiciada pela subida de Donald Trump nas pesquisas.

André Acier

Natal | @AcierAndy

sábado 8 de agosto de 2015| Edição do dia

Nos discursos feitos durante o evento, os principais aspirantes republicanos à Casa Branca mostraram que pretendem reforçar o controle da fronteira e, segundo os ativistas, não apresentaram propostas que avaliam a contribuição dos imigrantes nos EUA.

Grande parte da atenção estava direcionada ao que poderia ser dito pelo bilionário Donald Trump, um magnata da construção civil e dono de uma fortuna de 9 bilhões de dólares, que afirmou ser responsável por trazer o tema da imigração para o primeiro plano da campanha

Trump insistiu na mensagem catastrofista que o fez subir nas pesquisas a seis meses do início do processo das primárias. “O país tem um problema sério”, disse o empresário, que se apresentou como o único candidato autêntico – “Acredito que o principal problema desse país é ser politicamente correto”, disse – e capaz de enfrentar as ameaças externas: a suposta responsabilidade do México na chegada dos imigrantes aos EUA e da China no desembarque de produtos comerciais baratos.

O ex-governador da Flórida afirmou que "é preciso controlar a fronteira" e defendeu a eliminação das chamadas "cidades santuários", nas quais as autoridades locais protegem os imigrantes ilegais da deportação.

Representante típico da ignorância e do racismo da direita republicana, Trump reafirmou que “Quando o México manda sua gente para cá, não manda os melhores. Manda traficantes, estupradores e criminosos. O México, além disso, drena economicamente os EUA”.

Dados simples mostram a “ciência” do republicano: desde que Peña Nieto assumiu o governo do México, comprou 3,5 bilhões de dólares em armamentos dos EUA (2 bilhões indo para as corporações privadas do complexo industrial militar norteamericano). A dívida do México com os Estados Unidos aumentou para 145 bilhões de dólares, tornando o México a oitava nação no mundo com maior dívida externa.

"Temos que construir um muro e tem que ser rápido", destacou Trump, apesar de ressaltar que acrescentaria "uma porta grande e bela" para a entrada dos imigrantes legais. “Construirei uma grande muralha no sul, e farei o México pagar por ela”.

Em primeiro lugar, já existe um muro. A militarização da zona norte da fronteira mexicana, separada por um muro de arame farpado dos Estados Unidos, tirou a vida de centenas de milhares de pessoas que tentaram cruzar o deserto do Arizona e para o Texas, além do estupro e tortura de milhares de mulheres promovidos pela polícia norteamericana e mexicana, como em Ciudad Juárez.

Ademais, este muro foi construído em parte por uma empresa controlada por Trump – e que emprega centenas de trabalhadores latinos.

"Não vimos nenhum plano ou proposta de Donald Trump para a imigração. Só mais fanfarronices, insultos e divisionismo", criticou no Twitter Janet Murguía, diretora-executiva do Conselho Nacional da Raça (NCLR, na sigla em inglês).

O codiretor da Coalizão Dream Action, César Vargas, que recentemente se transformou no primeiro imigrante ilegal a possuir licença profissional de advogado em Nova York, lamentou no Twitter que Trump reiterou "suas posições sem sentido sobre imigração" e destacou que nenhum dos outros candidatos apresentou "soluções concretas" para o problema.

"Queríamos conhecer quais eram os planos para os 8 milhões de imigrantes que ainda não têm uma solução. O que vimos é que nenhum dos candidatos nos quer ajudar", disse Omar Gallardo, da Coalizão Comunitária Unida de Arkansas.

Para Diana Colín, diretora de Programas Cívicos da Coalizão pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles (Chirla, na sigla em inglês), os discursos dos candidatos foram extremistas.

Nem mesmo o senador Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, também foi alvo das críticas.

"Apesar de sua família ser de imigrantes, Rubio não está nos apoiando", criticou Gallardo.

Obama continua a política republicana de martirizar os imigrantes

Desde a eleição de Obama em 2008, é notória a frustração não só da comunidade negra norteamericana, que vê seus Freddie Gray e Michael Brown assassinados todos os dias pela polícia, mas também pelos imigrantes latinos, que são perseguidos pela condição ilegal em que permanecem depois de dois mandatos de Obama.

Nesta semana, o governo dos Estados Unidos apresentou um recurso contra a ordem de uma juíza federal da Califórnia de liberar as famílias de imigrantes ilegais que permanecem nos centros de detenção, argumentando que isso geraria "um aumento do número de pais que cruzam a fronteira com seus filhos".

O governo de Barack Obama argumentou que, se a decisão for executada, "elimina a capacidade do governo de deportar ou readmitir as famílias sob nenhuma circunstância, o que poderia provocar outro aumento notável do número de pais que cruzam a fronteira com seus filhos".

Durante o ano fiscal 2014 (de 1º de outubro de 2013 a 30 de setembro de 2014), o número de crianças e pais detidos na fronteira pelo governo Obama foi de 68.441, um aumentou de 361% comparado com 2013.

Há meses os centros de detenção de imigrantes são tema de indignação na comunidade latina, com mães em greve de fome e centenas de congressistas pedindo o fechamento dessas instalações, que compararam com "prisões", pelo "grave" dano que causam as mães e crianças internadas.

Explorados por Trump e por toda a burguesia norteamericana são mais de 41 milhões de imigrantes morando nos EUA (segundo dados de 2012, e somente o que teve acesso o registro legal). Certamente, contabilizados os imigrantes ilegais que não podem fazer parte do registro oficial por medo de deportação, quase 20% da população americana provém do México, China, Índia, Filipinas, Vietnã, El Salvador e Coréia. Mais da metade dos imigrantes são mulheres, donas dos trabalhos mais precários, vivendo majoritariamente nos estados do sul.

Os trabalhadores latinos, assim como os negros, não podem esperar nada de Donald Trump – como fica claro pelo espetáculo de estupidez concentrado num terno vazio – mas também de um partido Democrata que divide trabalhos com os Republicanos na gestão do imperialismo racista dos Estados Unidos.




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