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1 DE MAIO NA ARGENTINA CONTRA O GOLPE NO BRASIL

Direto de Rosário (ARG): onde já esteve Virginia Bolten, se organiza o 1M contra o golpe no Brasil

"A história de toda a humanidade até aqui é a história da luta de classes". Onde estou hoje, Virgina Bolten esteve aos 20 anos de idade inflamando o primeiro ato de 1o. de maio de Rosário: a história da luta de classes é também de mãos e vozes de mulheres.

Leticia Parks

Brasília - DF

sábado 30 de abril de 2016| Edição do dia

A história de luta pela emancipação das mulheres marca o 1o. de maio em Rosário

"A história de toda a humanidade até aqui é a história da luta de classes", já diziam Marx e Engels em 1848 logo após os eventos revolucionários que eclodiram na europa com o nome de Primavera dos Povos. Ver a história da luta de classes em Rosário confirma, como afirmou o grande revolucionário russo Trotsky, que para ser revolucionário é preciso olhar o mundo com os olhos das mulheres.

Esta importante cidade industrial da Argentina teve seu primeiro ato de 1o. de maio no ano de 1890, período da aprovação de leis anti-imigratórias, de demissões e de dura repressão contra os trabalhadores e suas organizações. As principais organizações naquele momento eram anarquistas, uma herança da imigração espanhola e italiana para o país. Virginia Bolten, militante feminista e anarquista, era parte do movimento que visava, pela via do combate ao machismo, denunciar a situação de profunda exploração à qual eram submetidas mulheres operárias na cidade de Rosário.

Junto a outras militantes, Virginia tocava o jornal "La Voz de La Mujer" (A voz da mulher, em português), que tinha como lema Ni Deus, ni patrón, ni marido (Nem Deus, nem patrão, nem marido) e neste primeiro ato do dia internacional dos trabalhadores, Virginia se via como uma trabalhadora precarizada e emancipada pelo combate ao machismo e fez uma fala tão forte e revolucionária que os trabalhadores passaram a chamá-la de Louise Michel, heroína da Comuna de Paris, como disse a historiadora Usenky em nota ao Telam.

Os 12 anos entre os eventos e o oceano Atlântico separaram essas mulheres revolucionárias, mas a referência política e a força de seus papéis fez com que os trabalhadores as aproximassem. 126 anos depois da primeira celebração do 1o. de maio em Rosário, venho participar do ato internacionalista convocado pelo Partido de los Trabajadores Socialistas. Sei que, apesar das enormes diferenças que marcam nossas trajetórias pessoais e nossa importância histórica, como revolucionária, mulher e negra, saber que aqui já falou Virginia Bolten me enche de coragem e de certeza da necessidade de que esteja aqui para discutir com os jovens estudantes e trabalhadores dessa cidade a importância do que fazem aqui hoje contra o golpe que se edifica no Brasil.

126 anos depois de Virginia e a situação dos trabalhadores é a mesma

Apesar de saber que estou longe de ser Virginia e que o período histórico que ela viveu estava marcado por enormes lutas revolucionárias em todo o mundo, além de mulheres e revolucionárias, há um outro fator que nos aproxima e me inspira nela. Lutava contra um sistema econômico que, ainda hoje, assola o conjunto da classe operária em todo o mundo.

O capitalismo que em sua época terminava de se consolidar como sistema econômico e político hegemônico, hoje atingiu a magnitude do imperialismo e, desde então, vive crises orgânicas que instalam barbárie sobre o mundo. Em 1915, outra importante revolucionária teorizava sobre o período que vivemos: "Lancemos um olhar ao nosso redor neste momento e nós compreenderemos o que significa a recaída da sociedade burguesa na barbárie. A vitória do imperialismo leva ao aniquilamento da civilização". Neste texto intitulado "Socialismo ou Barbárie", Rosa Luxemburgo lança um desafio sobre a classe trabalhadora, que está mais do que vivo nos dias de hoje.

Rosário segue sendo uma cidade de trabalho precário, de xenofobia da patronal, de demissões em massa. Lucas Castillo, que vai participar do ato internacionalista comigo, é um desses demitidos. Foi dispensado por fazer política em 2014 de Liliana, fábrica metalúrgica da região. Desde então tocamos uma campanha nacional pela sua reincorporação, que a empresa não obedece mesmo tendo sido obrigada a fazê-lo por duas resoluções jurídicas. Desde que cheguei vejo os companheiros recebendo telegramas de demissão, em sua maioria por empresas que querem manter os lucros apesar da crise que, importa dizer, os próprios capitalistas criaram. Essa é a barbárie capitalista, que para evitar a organização dos trabalhadores e para manter os lucros, lança centenas de famílias na rua.

O que diria Virginia do tema do ato na Argentina ser a luta contra o golpe no Brasil?

Arrisco dizer que se Virginia estivesse viva e visse que no Brasil existe uma direita fervorosa contra as mulheres, os negros, os LGBTs e os trabalhadores, talvez fosse pessoalmente aos atos de primeiro de maio denunciar essa burguesia que quer jogar sobre as costas dos trabalhadores os custos da crise que criou.

Virginia tinha um compromisso com a luta internacional, tendo vivido sua vida entre a participação em lutas na Argentina, no Uuruguai e no Chile. Assim como ela, revolucionárias como Rosa Luxemburgo, que citei acima, ou Louise Michel, usaram muita tinta e muita garganta para apoiar a luta dos trabalhadores em cada parte do mundo e para denunciar os avanços reacionários da burguesia a nível internacional.

É com muito orgulho que venho para Rosário fazer parte de uma atitude de solidariedade com a classe trabalhadora brasileira, que se vê ameaçada pelos discursos pró ditadura, pró policia, pró família e pró religião que vociferam os Bolsonaros e Dacciolos do Congresso brasileiro. Essas figuras querem passar por cima do direito democrático ao voto para instalar um governo ainda mais ajustador que o próprio PT e foram conscientemente colocadas no governo pelo próprio governo de Lula e depois de Dilma. O PT negociou os direitos dos trabalhadores, das mulheres e dos negros durante 14 anos, e agora tenta impedir o golpe que alimentaram com negociações "nas alturas".

Mas não é disso que precisamos. A luta contra o golpe reacionário em curso no Brasil se faz com os métodos da classe trabalhadora: greves, piquetes, ocupações, atos de rua. Se faz também com internacionalismo, pois um ataque contra os trabalhadores de qualquer parte do mundo é um ataque contra toda a nossa classe.
Estaremos aqui amanhã debatendo com os trabalhadores e os jovens de Rosário a importância de se organizar e de lutar contra o golpe internacionalmente, apesar da paralisia do PT e PCdoB ou da conivência golpista de grupos como o PSTU, a Izquierda Socialista, o Movimento Negação da Negação e o MES de Luciana Genro. No Brasil participaremos com a CUT do ato no Vale do Anhangabaú, exigindo que essa que é a principal central sindical do país e, infelizmente, a única disposta a lutar contra o golpe, levante conosco as bandeiras de denúncia ao PT, aos ataques de todos os governos e a construção de um plano nacional de lutas que barre o golpe e os ajustes em cada local de trabalho e estudo.




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