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QUESTÃO NEGRA

Dia 18 de novembro nasce um Quilombo Vermelho contra o racismo e o capitalismo

Lançamento do Quilombo Vermelho no dia 18 de Novembro a partir das 13h no Rio Pequeno, em São Paulo.

sexta-feira 3 de novembro| Edição do dia

O racismo é uma forma de opressão de um grupo social sobre outro baseado em características físicas ou culturais. Se hoje já é amplamente reconhecido que o conceito de raça não tem qualquer base científica, este conceito foi largamente utilizado para justificar a suposta inferioridade dos negros e indígenas em relação aos brancos e, assim justificar a existência daquilo que foi ao mesmo tempo uma das maiores atrocidades da humanidade e um dos negócios capitalistas mais lucrativos que foi a escravização de mais de 11 milhões e homens, mulheres e crianças negras. O racismo trata se portanto, não de uma “ideia solta no ar” mas uma ideologia quese desenvolveu ao longo de séculos para dar bases a escravidão negra como um dos pilares da acumulação primitiva de capital e do próprio desenvolvimento capitalista. O racismo e a escravidão vão ser portanto, um componente fundamental para que fosse possível o acumulo de capital necessário para que, em outro momento ocorresse o desenvolvimento do capitalismo na sua fase industrial. Já no século XIX o racismo terá um papel decisivo para que as potencias capitalistas partilhem entre si o continente africano inteiro espoliando suas riquezas e submergindo este continente na mais profunda miséria e barbárie social. Depois da abolição da escravidão o racismo continuou exercendo um papel fundamental como um componente que permite aos patrões aprofundar a exploração dos negros e, por esta via dividir a classe trabalhadora e rebaixar as condições de vida e de salários do conjunto da classe trabalhadora.

Isso significa dizer que o racismo foi historicamente um componente decisivo para o desenvolvimento do capitalismo tal qual conhecemos hoje. Significa também que se no capitalismo, um sistema baseado na divisão da sociedade em classes sociais, e na relação de exploração de uma classe sobre a outra, onde a burguesia se apropria da riqueza produzida pela classe trabalhadora, o racismo permite aos patrões enriquecer ainda mais ao aumentar a exploração sobre os negros e, assim ampliar os lucros da classe dominante.

Se entendemos dessa forma significa dizer que não é possível conquistar a igualdade entre negros e brancos dentro de uma sociedade baseada na desigualdade e na exploração de um homem pelo outro. Significa dizer que a burguesia como classe dominante ergueu suas fortunas sobre os ombros do trabalho e das riquezas produzida pelas mãos e braços negros e indígenas e que o combate ao racismo precisa se dirigir ao coração do que sustenta e reproduz o racismo como ideologia: o capitalismo.

Por outro lado, significa dizer também que ao criar a classe trabalhadora a burguesia também cria aquele sujeito social que justamente por produzir tudo o que existe na sociedade é o único que pode paralisar a produção e os centros nervosos de circulação de mercadorias, riquezas e mão de obra, ou seja, ao mesmo tempo que produz uma classe explorada a burguesia cria também aqueles que são o seu próprio coveiro. O povo negro tem uma longa e heroica trajetória de rebeliões, revoltas e insurreições contra a opressão racista e a sua condição de escravizados. Em todos os cantos do planeta onde a burguesia levou a escravidão se constituíram quilombos, incêndios das lavouras, envenenamentos dos senhores de engenho e de suas famílias e as formas mais heroicas e desesperadas de luta pela liberdade. Nos momentos decisivos da luta de classes internacional os negros sempre tiveram lugar de destaque na primeira fileira. Foi assim na revolução haitiana de 1791, na Guerra Civil norte americana em 1865, na primeira e segunda guerras mundiais e nos processos de libertação dos países africanos do jugo da dominação imperialista.

A classe trabalhadora internacionalmente produziu façanhas heroicas como a Comuna de Paris, a revolução de 1905 e 1917 na Rússia que neste ano completa seu centenário e foi seguida de dezenas de revoluções que só não puderam dar outro curso a história mundial pelo papel desastroso cumprido pelas suas direções.

Em plena crise capitalista

Por tudo isso queremos armar em pleno centenário da Revolução Russa de 1917, a mais importante façanha da classe trabalhadora mundial, um Quilombo Vermelho que possa fundir as experiências e enorme energia revolucionária dos negros com a força da classe trabalhadora e da juventude em uma perspectiva de combate ao racismo e ao capitalismo.

Por isso inscrevemos em nossa bandeira o combate contra as mais variadas formas com que o racismo se expressa em nosso país e internacionalmente. Fazemos isso a partir de uma perspectiva anticapitalista e revolucionária pois os patrões e as instituições reacionárias que os sustentam como o Judiciário e a polícia racista mostraram em todos os momentos que não tem mais a oferecer aos trabalhadores e aos setores mais oprimidos da sociedade que não seja um futuro de privações, miséria e opressão.

Reivindicamos com orgulho nossa identidade negra, a cultura e a brilhante trajetória do povo negro em toda história mundial mas não nos enganamos com as armadilhas da classe dominante que tentam sequestrar essa enorme energia revolucionária para aprisiona la na esfera do “empoderamento individual”, do consumo dos cosméticos afro, da representatividade dos negros na indústria cultural incorporando poucos de nós nas engrenagens do sistema enquanto mantém a esmagadora maioria do nosso povo na miséria, morrendo aos milhares na tentativa desesperada de atravessar o Mediterrâneo para fugir da fome e das guerras no continente africano, morrendo nas guerras interetnicas provocadas por séculos de dominação imperialista na Africa ou nos surtos de doenças medievais como a cólera, malária e ebola. Nas veias da nossa identidade negra corre o sangue dos guerreiros do Haiti, de Palmares e da fibra revolucionária de milhares de negros que se levantaram contra o racismo nos Estados Unidos e em todo o continente africano.

No Brasil, o maior pais negro fora da África, com 86 milhões de negros espalhados por todo o território nacional de um país que carrega na sua história a marca de ser o último país do mundo a abolir a escravidão e que até os dias de hoje é o país que mais mata negros fora de zonas de guerra, que possui o maior exército de empregadas domésticas do mundo (cerca de 7,2 milhões, sendo que 83% são mulheres negras). Essas mulheres sofrem com a pior média salarial do país recebendo 60% a menos do que os homens brancos e trabalham sem direitos elementares de descanso, sem qualquer proteção em caso de gravidez e submetidas aos piores tipos de assédio moral e sexual. Em cada humilhação que as crianças negras sofrem desde pequenas perseguidas nos supermercados pelos seguranças, paradas nos enquadros da policia nas quebradas, aprendendo tragicamente a alisarem seus cabelos, e aprendendo na sociedade com campanhas racistas como a da multinacional DOVE a arrancar a força os traços de sua negritude (dos quais são exemplos os inúmeros casos de crianças negras que já chegaram a tomar banho de cândida para tornarem se brancas) o racismo se perpetua e dá a classe dominante uma melhor localização a burguesia como classe dominante. O racismo é decisivo para que os negros se mantenham nos piores postos de trabalho e recebam os piores salários, assim os exploradores podem pressionar para baixo o salário de todos os trabalhadores, incluindo o dos trabalhadores brancos.

Com a aprovação da reforma trabalhista pelo Governo Temer, que só se tornou possível graças a vergonhosa traição da burocracia das centrais sindicais, a burguesia pretende descarregar sobre as costas dos negros a crise capitalista aprofundando ainda mais o nível de exploração e desemprego (onde os negros historicamente são maioria). Queremos erguer um Quilombo Vermelho para lutar pela igualdade salarial entre negros e brancos, homens e mulheres, imigrantes e nativos e efetivos e terceirizados unificando a nossa classe para retomar o caminho da greve geral e anular a reforma trabalhista e a lei da terceirização.

Ao destruir a educação e a saúde pública a burguesia ataca diretamente os negros que são aqueles que mais dependem da saúde publica para não morrer. Cada hospital e escola públicas são lugares onde a população negra se amontoa nas condições mais subhumanas para tentar sobreviver. Nas escolas as crianças negras continuam sendo aquelas que mais dificuldades tem de manter os estudos pois são obrigadas a trabalhar mais cedo e muitas vezes são obrigadas a largar a escola pois não tem as mais mínimas condições de se manter. Para estas crianças os governantes capitalistas como Dória oferecem a marcação dessas crianças como gado e o racionamento da merenda escolar daquelas que muitas vezes não tem nada para comer nas suas casas. É esta juventude que fica para fora das universidades pelo filtro social do vestibular, pagando altíssimas mensalidades para financiar os lucros dos mega empresários do ensino superior e que ocupam os postos de trabalho mais precários como o telemarketing. Para esta juventude o que a burguesia branca e herdeira da casa grande oferecem a repressão aos rolezinhos, aos bailes funks, aos slans reprimindo as manifestações artísticas da juventude negra como o graffite e apontando para a redução da maioridade penal e o encarceramento como fizeram com Rafael Braga.

O golpe institucional que levou Temer ao poder veio para aprofundar ainda mais a terceirização e a precarização do trabalho de forma ainda mais dura do que fez o governo de Lula e do PT (em que o numero de terceirizados passou de 4 para 12 milhões), aprofundando também o desemprego e o trabalho informal. A luta dos negros tem que se desenvolver contra a direita racista e de forma completamente independente do PT. Da mesma maneira o governo Temer revela o seu racismo profundo quando viola o direito a demarcação dos territórios quilombolas e indígenas para assegurar o lucro do agronegócio, o latifúndio e as empreiteiras e assegura vários privilégios á Igreja católica e a bancada evangélica enquanto legaliza a perseguição aos terreiros de candomblé e de umbanda.

Por tudo isso a luta contra o racismo precisa ser uma luta contra o capitalismo e a fundação de um Quilombo Vermelho está a serviço desse combate. Chamamos negras e negros a comparecerem ao Lançamento do coletivo Quilombo Vermelho, que será impulsionado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores – MRT conjuntamente com independentes para que possamos fazer surgir no Brasil uma força negra anticapitalista.

Venha debater conosco o manifesto programático, conhecer nossas ideias e erguer um Quilombo Vermelho que inscreva com fogo a palavra revolução no horizonte de todos os que se indignam com esse sistema capitalista miserável e faça a burguesia racista tremer. Vamos montar um quilombo de luta contra o capitalismo em cada local de trabalho e estudo e escrever um novo futuro livre de toda exploração e opressão que só poderá existir se for construído pelas mãos do povo negro, da classe trabalhadora, da juventude e de todos os oprimidos.

Lançamento do Quilombo Vermelho no dia 18 de Novembro a partir das 13h no Rio Pequeno, em São Paulo. (Avenida Otacilio Tomanik, 1581, atrás da padaria Cinco Quinas). Confirme sua presença no evento do Facebook.




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