Sociedade

CRISE NOS CORREIOS

Demissões em massa e privatização na ordem do dia nos Correios

Documentos da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos apontam intenção de buscar brechas legais para realizar demissão motivada apesar da estabilidade ser direito dos trabalhadores concursados; enquanto isso Gilberto Kassab fala abertamente em privatização.

quarta-feira 29 de março de 2017| Edição do dia

Os rumores de que a ECT estaria estudando a possibilidade de burlar a estabilidade dos funcionários para demitir foram confirmados por Guilherme Campos, de acordo com o Jornal Valor Econômico. No entanto, ainda se trata de uma hipótese em análise, e, portanto, não há informações concretas sobre quantos trabalhadores seriam afetados e em qual prazo. Ainda assim, o jornal menciona estimativa de 20 a 25 mil pessoas.

Na manhã de ontem, 28, o jornal Bom Dia Brasil (Rede Globo) veiculou uma reportagem de 8 minutos, onde se expos a situação de superexploração a qual muitos carteiros estão sendo submetidos, assim como os impactos para a população frente ao fechamento de agencias, um processo em curso em todo o país. Com exemplos de diversos estados diferentes, ficou bastante evidente a dramaticidade da situação dos Correios. Na mesma matéria, Guilherme Campos, PSD, presidente da ECT, comenta a queda da atividade postal, segundo ele uma das razões para a crise econômica. O questionamento imediato é: se o volume de postagens caiu tanto, por que os carteiros estão sobrecarregados e a população passando por tantas dificuldades para receber suas correspondências? E o segundo questionamento, por que ele não menciona o seguimento de encomendas, e em especial o e-commerce, que ao contrario das cartas, é um seguimento comercial em ascensão? A contradição entre a suposta necessidade de diminuir o número de funcionários e o excesso de trabalho é explicita.

Não é a toa que a discussão sobre as demissões apareça simultaneamente à aprovação pela Câmara dos Deputados do projeto de lei que legaliza a terceirização irrestrita. A ECT é uma das maiores empregadoras em regime CLT do país, e também uma das empresas mais emblemáticas no que diz respeito à terceirização do trabalho, já que pratica há anos a terceirização de atividades fim, tanto com a contratação de mão de obra temporária quanto pela sua grande rede de agências franqueadas. A nova legislação apenas legaliza, e abre oportunidade para generalizar uma prática rotineira.

Também a Reforma da Previdência busca atingir um setor enorme de trabalhadores concursados já em idade de se aposentar e que seguem trabalhando para garantir uma melhor qualidade de vida a suas famílias com um salário maior do que somente a aposentadoria. Um setor que é expressivo nos Correios, por isso mesmo os últimos planos de incentivos a demissões voluntarias vieram justamente para esses aposentados.

Os cerca de 5 mil postos de trabalho perdidos com o plano de demissões de aposentados já fazem enorme falta nos locais de trabalho. As entregas são o serviço ao qual a ECT existe para cumprir. Os atrasos nas entregas inclusive são geradores de prejuízos, pois acarretam indenização. Como a empresa pretenderia funcionar com ainda menos funcionários?

Por outro lado, quando chora suas pitangas frente a grande mídia e frente aos funcionários sobre quanto se gasta com pessoal e o quanto isso gera prejuízos, Guilherme Campos não menciona o seu próprio salário bem como de todo o alto escalão da empresa, os gastos e benefícios com suas viagens e bonificações, e nem sequer discute para onde vai o restante do dinheiro. Por exemplo, quanto se gasta com empresas de publicidade e gráficas para emitir diversos panfletos que vão direto para o lixo e tantas outras formas de publicidade esdrúxulas? Quanto se esvai da receita pagando para empresas terceirizadas contratarem mão de obra que economiza nos salários e condições dos próprios funcionários contratados, mas gera bastante lucro para os donos dessas empresas? Ou mesmo enchendo os bolsos dos donos das agencias franqueadas? Se as agencias próprias não dão lucro e se pretende fechar 250, como os donos das agências terceirizadas tem lucro a ponto de terem interesse em abrir agências?

No mesmo dia da veiculação desta reportagem, e apenas uma semana após os anúncios de suspensão das férias e cobrança de mensalidade no Convênio, Gilberto Kassab, do PSD, que é ministro das Comunicações, o Ministério a que está submetida a ECT, afirmou em entrevista coletiva que se a empresa não sair do vermelho, ele irá, sim, privatizar.

Os objetivos do governo Temer com os Correios são: agradar os empresários que disputam as fatias mais rentáveis da logística e do transporte de mercadorias, abrindo cada vez mais espaço para diversas formas de privatizações parciais ou eventualmente total a depender da situação; impor de uma vez por todas a esta enorme categoria, cuja tradição de luta já faz parte do senso comum, o fim de tudo que foi conquistado nos últimos anos, colocando até mesmo a estabilidade como um “grande privilégio”a ser combatido e tirar isso do horizonte dos trabalhadores. O trabalho nos Correios já é precário e pesado em diversos sentidos, e os salários muito baixos frente a outras estatais e ao funcionalismo público. Mas o simples acesso a uma saúde razoável por causa de um bom convênio, e simples possibilidade de fazer planos a longo prazo, como os financiamentos que permitiram acesso a casa própria ou carro a muitos funcionários por terem estabilidade, isso tem que ser mostrado como privilégio não merecido, como a razão da crise.

Por outro lado, apontam a “má gestão dos indicados políticos”, algo que a grande mídia faz coro, como algo em primeiro lugar inerente a tudo que é gerido enquanto bem publico, algo que seria sanado com a privatização, e em segundo lugar como algo que foi levado ao limite com a “corrupção do PT”. Com isso escondem por um lado que o PT já abria espaço para a privatização e precarização do trabalho e também escondem que a corrupção existia e segue existindo para além do PT. A realidade é que com isso tentam seguir o discurso que legitimou o impeachment e que iludiu setores de trabalhadores dos Correios, de que o único mal era o PT e que qualquer coisa depois disso seria melhor, e assim abriram espaço pra acelerar os ataques. Na realidade os motivos pelos quais nós trabalhadores rechaçamos os governos do PT são os inversos, porque seguiram nos atacando, terceirizando e abrindo espaço para a direita. E o antídoto para a “má gestão” dos políticos passa longe da privatização. Se a empresa vai gerar lucro para o empresário que comprar porque daria prejuízo enquanto pública? Para acabar com as “indicações políticas” e a “má gestão”o que precisamos é tomar em nossas mãos os rumos da empresa, junto com a população. Abrindo as contas para uma investigação independente, encontrando cada “desvio” e cobrando a conta dos culpados, acabando com os privilégios do alto escalão e instituindo o controle democrático da empresa pelos trabalhadores e pela população.

Temer, Kassab e Guilherme Campos estão juntos e querem que trabalhemos até morrer sem aposentadoria, sem condições de trabalho, de saúde e educação, e convivendo de perto com a rotatividade do trabalho, sem estabilidade, e com o medo do desemprego sempre presente. Pra isso foi feito o impeachment, pra isso Temer está aí, pra isso Guilherme Campos foi colocado nos Correios. E é contra tudo isso que temos que lutar.

A FENTECT está chamando uma greve na categoria para 25/04 e as centrais sindicais uma paralisação para 28/04. Tudo muito devagar e passivo frente ao tamanho das ameaças. Precisamos nos organizar na base, em cada local de trabalho, e junto aos trabalhadores da educação que já estão em greve e de todas as outras categorias, que começaram a dar sinal de força no 15M contra a reforma da previdência, e parar o país, mostrando qual o papel dos trabalhadores e dizendo que não vamos aceitar nada disso, que nós trabalhadores não vamos pagar pela crise.




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