Opinião

LULA E O PT

De "peito estufado", uma rendição pacífica ao judiciário golpista

André Augusto

Natal | @AcierAndy

terça-feira 10 de abril| Edição do dia

(Foto: Leonardo Benassatto/Reuters)

Frente à prisão totalmente arbitrária decretada por Sérgio Moro e o Judiciário golpista, que querem decidir em quem milhões de trabalhadores poderão ou não votar, era necessária a mais profunda resistência em base à luta de classes. Mas como continuidade da estratégia eleitoralista e impotente de Lula e do PT, escolheram transformar a concentração no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em “épica eleitoral” e como de derrotas produto de sua estratégia de conciliação se construiria vitórias, nada mais distante da realidade.

Seu discurso, foi repleto de idéias que queremos debater para tirar lições e superar o PT pela esquerda, ao contrário de seguir a orientação de “sermos muitos Lulas”, que ele propôs.

Antes de Lula tomar o microfone para arrematar o público afirmando que “vai cumprir o mandado de Sérgio Moro”, a missa realizada em homenagem a Marisa Letícia também deu suas mensagens políticas. O bispo Angélico Sândalo Bernardino transmitiu a mensagem da “reconciliação pacífica” dos conflitos sociais, da abdicação do confronto como base de qualquer resistência. Tanto assim que disse defender uma “reforma da previdência, mas diferente da de Temer”.

Lula assumiu o lugar do púlpito para fazer a fala que se esperava. Aqui, a estratégia de conciliação de classes do PT se viu em todo o seu “esplendor”: um verdadeiro show eleitoral sem o recurso das manifestações massivas nas ruas.

Cumprimentando todas as personalidades políticas e sindicais presentes, não apenas do PT mas também Manuela D’Ávila do PCdoB e Guilherme Boulos (candidato a presidente pelo PSOL), enfatizou a importância das candidaturas no palco e dos diretores sindicais que “nunca haviam se furtado a fazer uma greve contra as reformas”. Uma ironia de origem, já que os diretores sindicais da CUT e da CTB, que encheram a sede do SindMetal, por orientação do PT e do PCdoB paralisaram os trabalhadores, e impediram que tivessem um papel protagonista no combate ao golpe institucional, ao julgamento do STF e ao mandado de prisão de Moro.

Lula fez um relato detalhado sobre sua atividade sindical durante as greves de 1980, que naquele então arrepiaram os temores da burguesia e dos generais de que a ditadura militar fosse derrubada de maneira revolucionária pelos trabalhadores. Mostrou como atuou com o objetivo de quebrar a vontade de combate dos trabalhadores na Vila Euclides, que chegaram a fazer um ato com 50 mil em 1980, chamando "assembleias pela manhã porque à tarde havia perigo de que se radicalizassem". Naquele então, em meio ao ascenso que colocava os trabalhadores como protagonistas da luta por derrubar a ditadura militar, Lula e os "autênticos" bloquearam a dinâmica de um processo revolucionário no Brasil.

Fruto disso, reconheceu que era conhecido como pelego pelos trabalhadores que queriam enfrentar a ditadura, para justificar que agora sabia que ia ser considerado pelego por não chamar nenhuma mobilização minimamente séria de resistência contra sua própria condenação.

Sobre a Lava Jato, apesar de ser a mais nova vítima do método de grampos, vazamento de escutas e delações premiadas – num processo sem qualquer fundamento jurídico sério – Lula disse “não pensem que eu sou contra a Lava Jato. Se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo que roubou e prender”. Está mais do que evidente que a Lava Jato não tem qualquer papel em combater a corrupção, mas em instituir um novo esquema de impunidade, entregando os recursos econômicos brasileiros a empresas estrangeiras, e beneficiando uns corruptos e empresas em detrimento de outros, de acordo com a conveniência política.

As críticas ao Ministério Público e à imprensa foram seguidas da confissão de que ia cumprir o mandado de Moro e se entregar pacificamente. “Vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade”. Referindo-se a si mesmo com aura sublime, já não se considerava um ser humano, “mas uma ideia”. Uma ideia de conciliação de classes num pacto pacífico com seus algozes, podemos acrescentar, que de sublime não tem nada.

Depois de declarar que se entregaria sem resistência alguma a Sérgio Moro, voltou a tentar pintar sua rendição como algo muito combativo. "eu não estou escondido, eu vou lá na barba deles, para eles saberem que eu não tenho medo, que não vou correr e para saberem que eu vou provar a minha inocência". Do Judiciário golpista realmente Lula e o PT não tem medo, e sim da radicalização da luta de classes contra os ataques de Temer e dos capitalistas.

Por isso, seu discurso tinha o objetivo de que todos fizessem campanha eleitoral para um "lulismo 2.0", quer para o próprio Lula ou um seu apoiado, em função de um país onde tenha “espaço para os pobres”. Um enorme demagogia que esconde que, mesmo auxiliado pelo crescimento econômico internacional, em seu governo os que mais ganharam foram os banqueiros e empresários, e não os pobres.

De “peito estufado e cabeça erguida”, com a “coragem” de se render de forma vergonhosa, o líder do PT terminou seu discurso dizendo que “mais Lulas surgirão nesse país”.

Ao contrário de seu elogio da capitulação e da conciliação a estratégia reformista de administrar o capitalismo sempre leva a assimilar os métodos políticos dos capitalistas, sua corrupção, e atuar como obstáculo para que os trabalhadores transformem seu enorme peso social em hegemonia política, como sujeito independente para preparar a destruição do capitalismo. Os anos governando ajudando os capitalistas a terem lucros recordes, os ataques à classe trabalhadora que o próprio Lula e depois Dilma fizeram, e depois a não resistência aos ataques de Temer ajudam a explicar porque Lula fez esse discurso para poucos milhares e não para um estádio da Vila Euclides. A conciliação gera desmoralização.

Não há meio termo: ou se luta por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo baseado nas organizações de democracia direta das massas e para isso se constrói alternativa política dos trabalhadores, com independência de classe, que tenha como programa e estratégia acabar com esta sociedade de exploração e opressão, ou terminaremos sempre reféns de reformismos que terminam gerando impotência frente às ofensivas autoritárias do capitalismo.

É preciso tirar as lições da conciliação de classes petista para erguer uma alternativa política dos trabalhadores, com independência de classe, que tenha como programa e estratégia acabar com esta sociedade de exploração e opressão.




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