Economia

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL

Davos: começou a entrega de Macri ao capital imperialista

Macri esteve reunido com diretores da Gems Education e da Pampa Energia. Hoje vai continuar a agenda, dissertando com empresas estrangeiras, o primeiro ministro britânico e o vice-presidente dos Estados Unidos.

sexta-feira 22 de janeiro de 2016| Edição do dia

O presidente Maurício Macri chegou ontem à cidade suíça de Davos para participar do Fórum Econômico Mundial, onde começou uma agenda cheia de reuniões com chefes de Estado e empresários à procura de investimentos. O governo quer mostrar uma "nova" Argentina com maior disposição ao capital estrangeiro.

O mandatário decolou em um voo da Air France, junto com o ex-candidato presidencial da “Frente Renovadora”, Sergio Massa e a chanceler Susana Malcorra. Também participa do fórum econômico o ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay.

Há alguns dias já se sabia que Macri teria uma agenda carregada de reuniões com CEO de grandes multinacionais e fundos de investimentos. Assim, em sua primeira jornada se reuniu com Sunny Varkey, fundador da Gems Education, que oferece serviços de sistemas e redes para a educação. Foi informado pelo governo que a empresa está interessada em "uma proposta para realizar um treinamento para professores e mestres que está sendo aplicada em outras partes do mundo. Também enfatizaram um projeto de escolas privadas com novas tecnologias".

Esta série de propostas vão no mesmo sentido do que Macri demonstrou - ao longo da sua administração na Cidade Autônoma de Buenos Aires - sobre qual é o seu interesse em "melhorar" a educação: um modelo de subsídios às escolas particulares e de criação de Institutos de Avaliação Educativa que pretendem disciplinar aos docentes e responsabiliza-los pelos problemas que sofre o sistema educativo.

Os amigos abutres de Macri

O líder de “Cambiemos” também esteve com Marcos Midlin, do diretório de Pampa Energia, que é a maior empresa integrada de eletricidade da Argentina e que participa na geração, transmissão e distribuição de eletricidade através de suas subsidiárias. Este empresário foi acusado em 2013 por um caso de lavagem de dinheiro, iniciado pela Procuradoria Anti Lavagem (PROCELAC), por supostas operações ilícitas para a compra do Banco de Serviços e Transações (BST). No ano seguinte foi demitido.

De acordo com o que foi publicado sobre o encontro, Mindlin mostrou a Macri o grupo de investidores que estariam interessados em fazer negócios no país. Pampa Energia sabe das "vantagens" de investir no país. A dona de Edenor durante dezembro de 2015 deixou mais de 18 mil usuários sem serviço. Assim demonstra aos futuros interessados no negócio a mamata de investir na Argentina: rentabilidade assegurada com escasso investimento.

Entre o grupo de investidores interessados estavam Rick Rieder, CEO do fundo de investimentos estadunidense Blackrock; Daniel Loeb, CEO do fundo de investimentos de coberturas Third Point. Também estiveram Ben Belkman, executivo de Brevan Howard Argentina; Daniel Pinto, do JP Morgan, Steven Cohen, do fundo de investimentos Point7 2 Asset Management e Davide Serra, diretor da empresa de gestão de ativos Algebris Inversiones.

BlackRock não é novo no país, em um fundo abutre controlado por Elliott de Paul Singer, que não somente faz negócios com a dívida externa como também com empresas que já estão no país. Este fundo foi acionista de Donnelley, a empresa que foi esvaziada, deixando seus trabalhadores na rua, os que hoje administram a fábrica e lutam pela sua expropriação.

Cristina Kirchner denunciou este fundo pelo esvaziamento da gráfica, mas não disse que também foi acionista de YPF e de Lear Corporation, empresa reconhecida pelos seus intensos ritmos de trabalho. Na Argentina, esta empresa junto com a condução burocrática do SMATA (Sindicato de Mecânicos e Afins doTransporte), desatou centenas de demissões em sua unidade de Pacheco para desorganizar aos trabalhadores combativos e destruir a Comissão Interna independente. Este conflito, que teve a Rodovia Panamericana como centro de luta, sofreu repressões ferozes por parte da polícia (Gendarmeria e Bonaerense) sob o kirchnerismo. Um dado que não é menor para agregar é que a mesma empresa, em Honduras obrigava a seus trabalhadores a usar fraldas para aumentar a produtividade.

Third point é outro fundo que já fez negócios na Argentina. Foi acionista da YPF, em Julho de 2014 acumulou 2,65 milhões de ações da petroleira. É um fundo de investimentos ao qual lhe agrada os investimentos "arriscados" e se aproveitam dos países em crise para isso. Em função disso, por exemplo, comprou dívida da Grécia em seu pior momento e depois a revendeu pelo dobro do preço.

Além disso, Hamad Al Dhaheri, diretor executivo da Abu Dhabi Investment Authority (ADIA), que representa o segundo fundo soberano de investimentos do mundo, manteve conversas com o presidente. No fundo administra o excesso de reservas de petróleo dos Emirados Árabes Unidos. O diretor da ADIA mostrou "entusiasmo" pela nova gestão do país. Apesar dos grandes benefícios que o governo anterior permitiu ao setor petroleiro, Macri vai em busca de outorgar maiores vantagens.

Malvinas: Déficit ou soberania?

Uma reunião esperada é a que terá hoje com o primeiro ministro britânico, David Cameron. Susana Malcorra, ministra de Relações Exteriores afirmou que "temos uma grande expectativa de abrir um diálogo com o Reino Unido, não sabemos se a dinâmica interna contribuiu para isso. Mas definitivamente da nossa parte estamos com uma grande expectativa de abrir o diálogo por causa das Malvinas que é uma prioridade para nós".

Macri, antes de ir para Davos, declarou que queria manter "um novo tipo de relação" com o Reino Unido, mesmo afirmando que seguirá reclamando pela soberania das Malvinas. O atual presidente mudou sua posição sobre a demanda das ilhas arrebatadas pelo imperialismo britânico. Não custa lembrar que quando Macri era presidente do Boca opinava que recuperar as ilhas "seria um forte déficit adicional para a Argentina".

"Come back" do FMI

O ministro da fazenda Prat Gay, além dos encontros do dia, anunciou o retorno dos controles do FMI sobre o país afirmando que "aceitaremos as auditorias porque não temos nada que esconder". Um grande gesto de cara ao capital mostrando que a Argentina está disposta a aprofundar as receitas do ajuste.

A agenda se completou com as reuniões com Ozan M. Ozkural, Managing Partner de Tanto Capital Partners e a Tadashi Maeda, diretor executivo do Japan Bank.
Também Prat-Gay se reuniu com o ministro da economia do Brasil, com quem conversou sobre como revitalizar a relação bilateral dentro do Mercosul e sobre o acordo automotriz.

Hoje Macri vai receber Andrew Liveris, CEO da The Dow Chemical Company; Ben Van Beurden, CEO do Grupo Shell; Sheryl Sandberg, CEO do Facebook; Muhtar Kent, presidente e CEO da Coca-Cola; Patrick Pouyanné, CEO da Total; Yorihiko Kojima, presidente da Mitsubishi Corporation, Richard Branson, presidente da Virgin Atlantic e Klaus Schwab, Fundador e CEO da World Economic Forum. Logo será a vez de Eric Schmidt, presidente executivo do Google e de Margarita Louis Dreyfus, presidente da Louis Dreyfus.

Segundo o jornalista Alejandro Bercovich - presente em Davos - havia um otimismo marcado entre os empresários argentinos presentes. " A 19° Pesquisa Anual Global de CEO, feira pela PwC, mostra otimismo por parte dos entrevistados e 65% estima que há mais oportunidades de crescimento". Mas agrega: "as perspectivas locais não correspondem com o clima internacional. A nível global, os CEOs "muito confiantes" no crescimento de suas organizações em curto prazo não superam o 35 %, quando no ano passado representavam 39%". Esta queda nas expectativas se da entre os representantes de países como China, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha.

Macri e seu gabinete, apesar das dificuldades mundiais, continuarão rendendo palanque ao grande capital imperialista, oferecendo e mostrando as vantagens que podem lhes oferecer para investir garantindo as multinacionais e a seus mandatários que na Argentina serão aplicadas as medidas que sejam necessárias para assegurar seus grandes lucros.




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