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PABLO IGLESIAS

Da "anti-austeridade" à casa de 660 mil euros: o fracasso estratégico do Podemos

terça-feira 22 de maio| Edição do dia

(FOTO: SANTI BURGOS EUROPA PRESS-QUALITY)

A revelação de que Pablo Iglesias, líder do partido neorreformista espanhol Podemos, juntamente com sua mulher Irene Montero, porta-voz do partido na Câmara dos Deputados, estão comprando uma casa no valor de 600 mil euros, gerou uma crise no partido e expõem as fragilidades de seu discurso neorreformista e o processo de adaptação da organização ao regime espanhol.

Desde que se tornou um "fenômeno" eleitoral na Espanha, reivindicado por amplos setores da esquerda socialista brasileira, o Podemos deu largos passos no sentido de sua assimilação ao atual regime espanhol, como o seu pilar esquerdo de sustentação. Assumindo a administração de algumas prefeituras, como em Madri e Barcelona onde estão presentes na coligação vencedora com velhos partidos da ordem (como o PSOE), o Podemos deu provas cabais de sua adaptação, ao aplicar programas de ajustes na cidade.

Boa parte do discurso eleitoralista do Podemos centrou-se na denúncia da "casta", a elite política e econômica, frente o "povo". Quando seus deputados chegaram pela primeira vez ao Congresso, disseram que as "pessoas comuns e plebeias" entravam nas instituições. Um discurso marcadamente populista, em que se apagam as classes sociais. Nesse sentido, Iglesias se vangloriava de sua austeridade na vida pessoal, inclusive chegou a dizer que, se ganhasse as eleições, continuaria vivendo em seu apartamento de Vallecas, um bairro operário de Madri, e que abriria mão do Palácio de la Moncloa, residência oficial do presidente do Governo da Espanha. Agora com a exposição dos detalhes da propriedade -com mais de 250 metros quadrados construídos num lote de 2.000 metros quadrados, com piscina e aposento para convidados- golpeou profundamente esse discurso restrito e populista, e gerou ampla desmoralização nas próprias bases do Podemos.

Ainda que Pablo Iglesias - reverenciado por amplos setores do PSOL no Brasil, e uma das referências políticas de Guilherme Boulos - sempre tivesse defendido um programa de gestão do capitalismo com "rosto humano e solidário" (reflexo de seu ceticismo em qualquer possibilidade de mudança radical das relações sociais imperantes) em pouco mais de 4 anos passou de ser um "crítico da casta" para ser um político com "responsabilidade de Estado", que negou a possibilidade da Grécia cancelar o pagamento de sua dívida usurária com o Rei espanhol, e posteriormente rechaçou o direito dos catalães definirem sobre sua autodeterminação (e separação num Estado independente). Com o correr dos anos, esse programa não apenas o tornou parte de uma nova "casta de esquerda", mas também defensor de privilégios e do modo de vida das classes abastadas, como um casarão em uma região das mais ricas do Estado espanhol.

Veja aqui: Podemos: com a graça do Rei da Espanha e de Rajoy, contra a república catalã

A crise aberta no partido com a revelação, fez com que como resposta o casal proponha a realização de um referendo entre os militantes para decidir se seguem em seus cargos. Mais do que tudo, esse caso é simbólico do processo de adaptação do partido, e de seu fracasso estratégico, a luta contra a austeridade no plano social, se transmutou para o fim da austeridade no plano pessoal.




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