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Cyril Ramaphosa novo presidente da África do Sul: quem é e quais desafíos enfrentará?

Nem um dia passou da renúncia de Jacob Zuma a presidência sul africana, para que o Parlamento desse país designasse um novo mandato.

sexta-feira 16 de fevereiro| Edição do dia

Cyril Ramaphosa foi eleito nesta quinta como novo presidente da África do Sul, em substituição à Zuma, em uma sessão parlamentar na qual foi o único nominado para assumir o cargo.

A constituição sul africana estipula que o Parlamento elege o presidente e se dava por descontado que o atual líder do CNA (Congresso Nacional Africano), partido que tem a imensa maioria parlamentar, seria nomeado presidente do país assim que Zuma renunciasse.

Após uma quarta que começou com o ex presidente da África do Sul dizendo pela televisão que se negava a renunciar a seu cargo, como lhe exigia seu próprio partido, Jacob Zuma finalmente resignou, empurrado pelo golpe encabeçado pela cúpula de seu partido.

Ramaphosa, que chegou em dezembro à presidência do CNA com uma campanha anti corrupção e de crescimento econômico, buscou que a saída antecipada de Zuma desse oxigênio ao partido nas eleições de 2019, e evitasse que continue a sangria de votos que já se havia visto em eleições anteriores.

O novo líder começou seu mandato com um discurso ante o Parlamento com um tom no qual buscou mostrar-se disposto a trabalhar com os partidos da oposição, agradecendo seu partido pela ação destes últimos dias e assegurou estar disposto a servir ao povo da África do Sul.

O perfil do novo presidente

Cyril Ramaphosa tem uma longa tradição no partido governante e é reconhecido como um grande negociador, ainda que durante muitos anos foi questionado por uma ala do CNA já que não pertenceu ao setor que sofreu o exílio ou o aprisionamento durante o Apartheid.

A carreira de Ramaphosa é uma amostra da transformação que atravessou o CNA desde a queda do regime racista. De seu início como organizador do sindicato mineiro NUM (União Nacional de Mineiros, por sua sigla em inglês) na resistência contra o apartheid, passou a ser um dos principais negociadores da transição que levou a queda desse regime e da presidência de Nelson Mandela. Como parte da cúpula do CNA se beneficiou dos serviços prestados pelo partido, junto a central sindical do país e do Partido Comunista, às grande multinacionais que seguiram operando na África do Sul. De dirigente sindical mineiro passou a ser parte da nova elite negra como empresário ligado às companhias mineiras.

Em seu duplo papel dirigente sindical e empresário, Ramaphosa ficou envolvido no massacre de Marikana, quando a polícia matou 34 trabalhadores na greve em uma mina operada pela empresa Lonmin. No momento dos assassinatos, Ramaphosa estava na junta diretiva da empresa e havia pedido uma ofensiva contra os grevistas organizados em um novo sindicato opositor ao NUM

Os desafios que enfrentará Ramaphosa

Consumado o golpe palaciano no interior do CNA, conseguindo manter a unidade do partido, o fututo ainda oferece problemas para a organização que governa a África do Sul desde a queda do apartheid.

Um dos motivos que acelerou a saída de Jacob Zuma da presidência é que o CNA vem de anos de desgaste, e um setor de trabalhadores e estudantes veio fazendo uma experiência com uma direção política que está nas mãos de milionários com múltiplos laços com as empresas transnacionais, afastados dos padecimentos do povo sul africano.

O discurso de Ramaphosa centrado na luta contra a corrupção e a reativação econômica da conta da crescente percepção de um amplo setor da população que vê como uma casta política se enriquece, enquanto milhões de pessoas não podem ter acesso aos serviços básicos nem à saúde e educação digna.

O desemprego se mantém em um nível histórico de 27.7% da população, golpeando especialmente aos jovens, onde chega a 68%. O crescimento econômico tem sido limitado nos últimos anos, com um promedio de pouco mais de 1,2%. As classificadoras internacionais identificam a África do Sul como o “grande mercado emergente” de 2018, e alguns analistas prognosticam um crescimento de 2%, essa cifra está muito abaixo dos níveis necessários para gerar os milhões de empregos necessários.

Por outro lado o perfil anti corrupção do novo presidente, que busca recuperar o prestígio do CNA nos setores médios urbanos, encontrará um limite antes cedo do que tarde. Uma tentiva de avançar sobre as tramas de corrupçaõ dos últimos anos levaria diretamente à responsabilidade que teve a cúpula de seu partido, beneficiando-se ou permitindo os negócios as custas dos cofres públicos, abrindo um possível enfrentamento interno.

Ramaphosa, um homem ligado às grandes multinacionais mineiras e cujo principalapoio está na burocracia sindical, deverá enfrentar esta situação que segue sendo o motor do descontentamento que se viu nos últimos anos em importantes mobilizações de rua, enfrentamentos com a polícia e também o surgimento de uma oposição política tanto pela direita quanto pela esquerda.

O CNA já não conta com sua história como líderes da luta contra o apartheid para garantir seu poder político na atualidade. Uma geração de jovens viu como as promessas de uma democracia multirracial estiveram longe de melhorar a vida de milhões. Ramaphosa deve mover-se rápido para tentar reverter esta situação antes que descubram sua verdadeira cara, a que se mostrou em seu papel no massacre de Marikana.

Tradução: Mariana Duarte




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