Cultura

CULTURA

Crônica inédita de Machado de Assis é encontrada por pesquisador

segunda-feira 27 de junho de 2016| Edição do dia

O menino Machado de Assis corria atrás de borboletas azuis, saltava serelepe pelos riachos, colhia flores para dá-las de presente a Maria Leopoldina, sua mãe –e dormia sossegado, sendo beijado por ela.

O sossego, porém, acabou em 1849, com a morte da mãe, quando o escritor tinha nove anos. Foi quando Machado diz ter descoberto "os enganos do mundo, os pesares da vida".

Agora um documento importante sobre o assunto é acrescentado à bibliografia machadiana: um pesquisador acaba de descobrir uma crônica inédita em que o escritor comenta seu sofrimento com a perda de Maria Leopoldina.

A descoberta, feita por Felipe Rissato, pesquisador independente, será divulgada na próxima edição da "Revista Brasileira", editada pela ABL (Academia Brasileira de Letras). Trata-se um texto anônimo, publicado na segunda edição da "Revista Luso-Brasileira" em 1860, intitulado "Lembranças de Minha Mãe".

Então como dá para ter certeza de que o texto é mesmo do Bruxo do Cosme Velho? "Cruzei as referências", afirma Felipe Rissato.

Embora não haja nenhum texto assinado por ele, Machado aparece no expediente da "Revista Luso-Brasileira". E, além de já ter escrito poemas sobre a perda da mãe, quatro meses antes o autor publicou uma peça no jornal "A Marmota" –em que falava ter perdido a mãe aos nove anos, o que bate com a informação da crônica.

Além disso, Machado de Assis emprega expressões semelhantes nos dois textos.

"Muitos [na revista] podem ter ficado órfãos, mas com a data exata, com nove anos, é uma coincidência muito grande", afirma Felipe Rissato.

É uma crônica grandiloquente, sofrida. Machado escreve "Oh! eu sou infeliz, muito infeliz..." Em outro trecho, compara a si mesmo com um pássaro sem o ninho.

Depois, ele continua: "A sociedade egoísta e corrupta fez-me descrer de todas as felicidades, de todo o amor sincero e verdadeiro, de toda a virtude; porque já tinha perdido o único ente que me amava com amor sincero".

O Bruxo do Cosme Velho, vale dizer, já havia perdido a irmã, que morreu em 1845, com quatro anos.

Em outro trecho, diz Felipe Rissato, Machado faz o que parece uma alusão a Maria Inês da Silva, sua madrasta: "Eu sem ti, sem o perfume da flor que me fazia feliz e crente, chorarei sempre sem consolação; porque uma mãe perde-se uma vez e nunca mais se encontra".

A crônica não foi a única descoberta feita recentemente pelo pesquisador. A próxima edição da "Livro" (Ateliê Editorial), revista do Nele (Núcleo de Estudos do Livro e da Edição), da USP, também traz quatro poemas perdidos e uma crítica literária do autor.

O primeiro poema é "Beijos" –do qual até hoje só se conhecia uma estrofe, divulgada nas conferências do crítico literário Alfredo Pujol, realizadas entre 1915 e 1917 e depois reunidas em livro. Uma das biografias mais famosas de Machado de Assis, a de Lúcia Miguel Pereira, também só cita parcialmente a poesia.

O texto completo está na "Marmota Fluminense", em 1857: "O que eu quisera ser,/Para que eu fosse ditoso,/ Fartasse o meu coração;/ Quisera passar no gozo/ A vida "" como o sultão,/ E me faltasse o repouso/ No prazer de Salomão", escreve Machado.

Outro dos poemas, perdido durante 158 anos, foi publicado pelo escritor no jornal "A Pátria" quando tinha 19 anos. Sem título, o texto fala da arte: "Vem! penetra no templo das artes!/ Vem! que as portas te vamos abrir!/ Vem! que a glória te hasteia estandartes,/ E te enlaça os lauréis do porvir!".

Poema inédito de Machado de Assis encontrado pelo pesquisador Felipe Rissato

Poema inédito de Machado de Assis encontrado pelo pesquisador Felipe Rissato

Já as outras duas descobertas, de 1875 e 1876, são poesias com tom bíblico, ambos publicados no "Almanach Brazileiro Illustrado". O primeiro chama-se "Cáritas": "Cristão,/ Tu és como Moisés no monte da oração./ Quando, os olhos no céu, alevantando os braços,/ Sobes a alma fervente através dos espaços."

Já o outro é uma paráfrase dos capítulos 38 e 39 do "Livro de Jó". "E falando o Senhor a Jó, no meio/ De um redomoinho, disse: – Quem é este?/ Que mistura sentenças com palavras/ Vazias de sentido?/ Cinge os teus lombos, homem; cinge e fala."

O último texto, em prosa, é uma resenha elogiosa do livro "Jerusalém", do monsenhor Pinto de Campos (1819-1887) –sobre quem os biógrafos costumam lembrar um embate com Machado, sobre a liberdade de pensamento e a separação entre igreja e Estado.

A resenha, de 1874, parece indicar uma relação mais amistosa entre os dois. "Excelente no método, não menos o é este livro na gravidade e vigor do estilo, na pureza e boa feição da linguagem."

Para Felipe Rissato, as revelações –e outras dos últimos anos– mostram como Machado de Assis ainda é um território a ser explorado. O autor, afinal, escreveu durante 54 anos, de 1854 a 1908, sobretudo na imprensa. Embora textos tenham sido compilados, outros perderam-se no caminho.

*

Leia trechos da crônica

"Eu era pequeno, era feliz; porque não conhecia os enganos do mundo (...); inocente corria por entre campinas, colhia flores e ia derramá-las sobre minha mãe (...)"

"Oh! Eu sou infeliz, muito infeliz...Aos 9 anos perdi minha mãe, fiquei só no mundo; só como a rola sem ninho! Entrei no mundo das desilusões e dos enganos (...)"

"(...) E haverá quem não chore uma mãe? Quem não sinta um vácuo no coração quando uma lágrima se desliza sobre o túmulo de uma mãe?"

"Como eu sofro!... Minha mãe, lá da mansão dos justos, lança a benção sobre teu filho, pede a Deus pela felicidade do padecente. Eu sem ti (...) chorarei sem consolação."




Tópicos relacionados

Cultura

Comentários

Comentar