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Crônica de uma crise anunciada: o macrismo lançou a renegociação da dívida

Em outra jornada de caos nos “mercados”, Lacunza anunciou os feitos de um default seletivo a partir da reestruturação dos prazos da dívida a curto prazo - Letes e Lecaps - nas mãos de investidores institucionais. Enviarão ao Congresso um projeto de lei para estender os vencimentos da dívida local de longo prazo e a renegociação com o FMI.

sexta-feira 30 de agosto| Edição do dia

No decorrer da lenta e agonizante transição, aberta após o afundamento eleitoral do governo nas eleições primárias, nesta quarta foi vivida outra jornada de pânico e loucura nos “mercados”, com a subida do dólar, do risco do país e a diminuição das reservas. A consequência veio da oficialização do retumbante fracasso do modelo econômico do macrismo, com alto endividamento e liberalização financeira, entre outros.

O turbulento colapso do plano econômico de Cambiemos já se anunciava desde o começo da sua gestão. Seu primeiro triunfo político foi fechar o litígio com os fundos abutres, garantindo desta forma “a volta dos mercados” de créditos ao exterior. Para consegui-lo contou com os votos do peronismo que hoje são parte da Frente de Todos de Alberto Fernández, Todos de Alberto Fernández, validando o pagamento das abusivas taxas de juro abutres.

Com Toto Caputo à frente das negociações, o macrismo começou um caminho de alto endividamento, chegando a emitir um vínculo de 100 anos. Macri pagou U$S 258 bilhões em quatro anos e a dívida cresceu em U$S 111 bilhões.

A história continuou com a subida das taxas de juros altíssimas para tentar conter a inflação e a emissão de uma bomba de títulos do Estado em pesos a curto prazo - primeiro Lebacs, logo Leliqs e Letes- que atraíram capitais especuladores que se beneficiaram da “bicicleta financeira”. Isso durou pouco. Em 2018 as corridas cambiarias dos especuladores consolidaram uma desvalorização superior a 100%, colocando em evidências as cruas contradições do modelo Macri. A saída foi voltar ao FMI e o restante é história recente. Nesta quarta-feira Lacunza anunciou em conferência de imprensa uma série de medidas com o objetivo de tentar um pouco de estabilidade política e financeira.

Dias de fúria nos “mercados” que empurraram a reestruturação

A sangria de reservas do BCRA não para. Nesta quarta-feira foram vendidos U$D 353 milhões em sete intervenções, e ainda assim o dólar subiu 2,6% para ser vendido por 60,17 pesos, de acordo com a média divulgada pelo Banco Central para o segmento varejista.

O preço de atacado do dólar encerrou em 58,10 pesos, com um aumento superior a 3%, assim como o informal “contado com liqui” que foi vendido a 58,57 pesos. A taxa de Leliq se manteve sem mudanças em 74,98%.

*Risco País: A inescrutabilidade dos enviados do FMI que se foram do país sem confirmar o desembolso de 5.4 trilhões de dólares previstos para setembro, aumentou a desconfiança dos investidores quanto a capacidade de pagamento da dívida do país. Consequentemente, em um clima de extrema incerteza, o índice Risco País elaborado pelo banco JP Morgan chegou a 2.112 pontos, o maior nível de 14 anos.

*Ações e títulos da dívida: o principal indicador da bolsa portenha, eoS&P Merval de Bolsas y Mercados Argentinos (BYMA) ganhou 3,4%, em 25.458 unidades, mas acumula uma perda de 42,6% desde as primárias. Enquanto os títulos da dívida caíam por volta de 14%. Dos títulos em dólar, o Bonar 2024 retrocedeu 7,4%; o Bonar 2020, 13,95%; e o Discount, 6,3%.

*Renovacão da Letes: A licitação de Letes em dólares que foi concluída nesta quarta-feira foi declarada deserta após ter uma intenção de inscrição de apenas 5%. Sobre a base deste roll over quase nulo, em comparação ao anterior que foi de 80%. Lacunza anunciou uma medida concreta para conter ao menos 10% dos próximos vencimentos.

As medidas anunciadas por Lacunza

Anterior a conferência de imprensa que realizaria o Ministro da Fazenda, corriam com força transcendendo o que apontavam para o anúncio de medidas relacionadas ao controle de câmbio, já que uma das maiores preocupações entre os analistas é a aceleração do ritmo de perda das reservas, combinada com uma maior demanda sob o dólar que aumenta por diferentes caminhos: o desarme da carteira de investimentos em pesos (apesar da taixa de 75%) por ativos seguros, aumento de retiradas de depósitos e prazos fixos, pagamento da REPO, entre outros.

No entanto, o dado objetivo do giro adotado pelo governo após os dias seguintes ao colapso financeiro é oficializar o pedido para o pedido de reperfilar a dívida com o FMI. Assim o refletiram os diferentes representantes da imprensa mundial, “Macri pede ao FMI a renegociação dos prazos da dívida argentina”, dizia o El País.

Nas palavras de Lacunza: “Propusemos ao FMI reperfilar os vencimentos da dívida”. Os três pontos restantes dos anúncios estão relacionados com a reestruturação dos prazos da dívida a curto e médio prazo:

*Estender os vencimentos da dívida de curto prazo de 3 para 6 meses - -Letes e Lecaps- somente para os investidores institucionais, não às pessoas humanas que representam 90% dos detentores destes títulos.

*Promover um projeto de lei de extensão dos prazos da dívida local sem remoção de capital.

*Iniciar um processo de extensão voluntária de prazos de legislação extrangeira también sem remoção de capital nem de juros.

O governo leva a crise da dívida ao Congresso

Hernán Lacunza leu sem interrupções um discurso que combinou a confirmação de medidas econômicas, e um claro chamado a todo o arco político (leia-se a Frente de Todos) para elaborar no Congresso Nacional um projeto de lei para estender os vencimentos da dívida local em pesos.

Por primeira vez reconhecer a partir do governo a crise da dívida que geraram, que já supera os 100% na relação dívida/PIB. A respeito disso Lacunza admitia que a Argentina não tem um problema de solvência para pagar a dívida, mas sim um programa de liquidez a médio prazo. Frente à derrota de suas políticas econômicas, Lacunza anunciou a reestruturação compulsória para a dívida de curto prazo nas mãos dos investidores institucionais (que abarcam cerca de 10% dos detentores destes títulos); nos feitos é um default seletivos, porque não teriam dólares suficientes para encarar os ditos vencimentos, então os adiam. E o começo de um processo de extensão voluntária dos prazos da dívida sob jurisdição internacional sem remoção de capital nem de juros.

A respeito de reestruturação dos prazos da dívida local, o governo busca comprometer a Frente de Todos no Congresso, tentando conseguir um “abraço de urso” já que não conta com maiora própria. Assim enquanto a crise da dívida entra em um novo capítulo, o da renegociação com o FMI, o duplo comendo de governo nesta transição é colocado à prova.

Assim como sinalizava Pablo Anino neste diário “O precário pacto de transição entre Mauricio Macri e Alberto Fernández se apoia em dois pilares, também muito frágeis: o dólar a 60 pesos e a tentativa de preservar as reservas do Banco Central”. Manter o dólar a 60 pesos parece uma tarefa impossível e vai contra não desperdiçar as reservas. Somente desde as PASO foi registrada uma queda próxima a 9.348 bilhões de dólares nas mesmas.

É claro que o presidente procura arrastar Alberto Fernández para sua crise. Até o momento o candidato da Frente de Todos fez declarações, mas já havia adiantado que o oficialismo deveria se responsabilizar unto ao FMI pela crise que geraram. No entanto, precisam uns dos outros: a meta de Macri é chegar a dezembro sem um estouro econômico social e com a maior quantidade de deputados, a de Fernández é assumir a presidência de um país que não esteja em chamas, mas que tenha avançado o trabalho sujo (ataques) na maior medida possível. Esta linha tênue onde confluem ambos objetivos adiciona maior incerteza ao panorama atual que está atormentado por fantasmas de 2001.

Mas são as grandes maiorias as que seguem sofrendo as consequências da desvalorização pela queda do poder de compra, da inflação e do ajuste ditado pelo FMI. Uma saída para que a crise seja paga pelos capitalistas deve propor como medidas imediatas um banco estatal único, o monopólio do comércio exterior e começar rompendo relações com o FMI e não pagar a dívida aos especuladores.




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