Cultura

CRÔNICA DA GREVE GERAL

Crônica: Ancorado na repressão, marcado na história da Greve Geral

Façamos sempre como os estivadores do Rio de Janeiro, que na Greve Geral de 28 de Abril, peitaram a repressão e deram uma lição de como lutar contra o capitalismo em defesa dos direitos da classe trabalhadora.

Demar Oliveira

Serviço Social - UERJ

segunda-feira 1º de maio de 2017| Edição do dia

Escrever sobre a luta dos trabalhadores é eternizar suas experiências, é registrar nas páginas da história a força da classe trabalhadora no enfrentamento ao capitalismo.

A maior Greve Geral em décadas. Essa era a expectativa da juventude, que levantou ainda na madrugada, para lutar ombro a ombro com os trabalhadores que cruzaram os braços em todo o país contra as reformas de Temer.

Naquele dia pouco dormido de 28 de abril, a ansiedade e a expectativa inundavam o corpo com adrenalina e calafrios antes mesmo de sair de casa sob a chuva rala.

As notícias que chegavam de todo o país aumentavam a euforia. Aeroportos parados. Vôos cancelados. Garagens de ônibus com piquetes de estudantes em apoio aos rodoviários. Metrô e trens metropolitanos sem circulação, e cortes de rua nas estradas das principais cidades brasileiras.

No Rio de Janeiro haviam diversos pontos de protestos espalhados em locais estratégicos. Às 03h da manhã, o Esquerda Diário, o MRT e a juventude Faísca iniciaram o dia com um piquete numa das maiores garagens de ônibus da cidade e, em seguida partiram para a frente da Rodoviária Novo Rio.

Ali é o ponto mais estratégico para travar o trânsito de toda a cidade, pois é o início da estrada mais importante do Rio de Janeiro, a Avenida Brasil.

Os estivadores do porto do Rio de Janeiro estavam ali, em frente ao seu local de trabalho com vista para a Guanabara, com um carro de som falando com a população sobre as reformas.

Nos juntamos a eles sem nada temer e fechamos a Avenida Brasil em todos os sentidos. A chuva rala ainda caía e acentuava o frio de outono sobre as peles arrepiadas.

Aos poucos a concentração aumentava e mais jovens se juntavam aos estivadores. O apoio da população que desciam dos ônibus também aumentava.

De repente, quatro policiais militares chegaram de carro e começaram a atirar bombas de efeito moral para acabar com a manifestação. Mas a reação dos estivadores foi imediata. Foram todos em cima daqueles policiais inconsequentes pedindo respeito à luta dos trabalhadores, mas o que ouviram foram ofensas.

Os estivadores e a juventude retomaram a manifestação e voltaram a fechar a Avenida Brasil, mas desta vez abrindo uma das faixas a cada 10 minutos. Entretanto, não demorou muito até que o Batalhão de Choque da Polícia Militar chegasse para dar ainda mais repressão.

Se armaram e começaram a lançar suas bombas que custam quase um salário mínimo cada uma. Morreu ali a falácia daqueles que acham que a PM só atira quando é provocada pelos manifestantes.

Assim como na luta em defesa da CEDAE no início do ano, os estivadores enfrentaram a repressão e voltaram a fechar as pistas. Enquanto isso, o Choque foi recarregar suas armas quase letais e encher os bolsos com bombas. Começamos então a transmitir ao vivo àquela resistência emocionante dos trabalhadores do porto do Rio de Janeiro.

Advogados ativistas tentavam negociar o fim da repressão, mas foram quase atropelados pela tropa que não enxergavam nada mais além de um inimigo à ser atingido.

Empunhando seus escudos negros, olhavam fixamente para um trabalhador que não arredou o pé diante dos gases lacrimejantes. Os olhares da tropa estavam límpidos, pois não sentem o próprio veneno.

Inconformados com aquele trabalhador que sozinho recompunha a massa, voltaram a lançar suas bombas e novamente os manifestantes dispersaram. Mas aquele estivador permaneceu no meio dos gases, sem máscara e sem óculos. Em suas mãos apenas um cigarro cuja fumaça se misturava com o acinzentar das bombas.

Nas suas costas havia um grafite no muro. Um desenho de um homem com a mão pro alto parecendo dialogar com a cena e pedindo o fim da repressão.

Aquilo foi inacreditável. Era uma tropa inteira contra um único estivador ancorado na repressão. Ele atravessou a fumaça lentamente enquanto fumava seu cigarro sob o som dos helicópteros.

Parou bem na frente da muralha de escudos, apontou seu dedo e começou a dar aula não apenas aos policiais, mas à juventude e demais trabalhadores que ali se encontravam e assistiam ao vivo.

"Estou aqui pela minha família. Tenho 70 anos e não estou de brincadeira. Respeitem a luta dos trabalhadores. Sou o estivador mais antigo desse porto. Estou aqui defendendo os meus direitos. Vocês tem idade pra serem meus filhos, meus netos, mas perderam qualquer tipo de respeito. Se quiserem me tirar daqui terão que me matar".

Enquanto via tudo aquilo, me perguntava se os policiais não sentiam mais nada. Me perguntava se haviam perdido os seus sentidos humanos. Me perguntava se eles são apenas meros tecidos orgânicos que se transformaram em ferramentas de repressão do Estado sob o disfarce do assalariamento.

Aquela aula do estivador estimulou seus companheiros e a juventude a voltarem pra tentar retomar a manifestação que iniciou pacificamente, mas foi interrompida pela violência da ignorância.

Mas novamente aquelas perguntas invadiram meus pensamentos, agora com menos dúvidas. Sem que houvesse qualquer tipo de reação agressiva dos manifestantes, a repressão voltou a acontecer. Dessa vez ainda pior.

O Choque atirou balas de borracha dentro da rodoviária e em seguida invadiu o sindicato dos estivadores, abrindo caminho com mais bombas.

Quando consegui entrar no sindicato, aquele estivador destemido havia desmaiado. Estava caído na entrada do porto com os braços ensanguentados. Seus companheiros o ajudaram e expulsaram os policiais.

Ao final do ato, máximo respeito aquele trabalhador que peitou a repressão enfrentando a violência do capitalismo destemidamente. Sem sombra de dúvidas um dos heróis da Greve Geral de 28 de abril, marcado e registrado na história da luta dos trabalhadores brasileiros.




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