Internacional

Crise no Partido Socialista francês a um mês das eleições presidenciais

O ex-primeiro-ministro Manuel Valls apoiou a candidatura de Emmanuel Macron contra a do próprio partido, Benoît Hamon. Crise no Partido Socialista.

quarta-feira 29 de março| Edição do dia

O apoio do ex-primeiro-ministro francês à candidatura de Emmanuel Macron sacudiu o interior do Partido Socialista francês, que se aproxima de eleições onde a própria sobrevivência está em risco.

Emmanuel Macron foi ministro da economia de Hollande (do PS), mas preferiu romper com a linha do partido para lançar uma candidatura "nem de esquerda, nem de direita", roubando votos não só da centro-esquerda do PS, mas também do candidato de centro-direita François Fillon, que está rodeado de acusações e escândalos de corrupção.

Apesar do apoio de Valls, Macron preferiu manter distância do decadente PS e do impopular Hollande, agradecendo apenas friamente. Para os aliados de Macron, a proximidade com Valls é algo contraditório: ajuda a ganhar espaço entre a base descontente do PS, mas também alimenta o discurso da oposição de direita de que sua candidatura representa a continuidade das políticas de Hollande.

Mas a maior derrota é de Hamon, que vê as rachaduras dentro de suas fileiras, e fica numa posição desconfortável, sendo puxado à direita por Macron e à esquerda por Jean-Luc Mélenchon, do movimento de oposição França Insubmissa.

Valls se apoiou no argumento de voto útil contra a candidata de extrema-direita Marine Le Pen para declarar o apoio a um candidato de fora de seu partido: "Diante da ameaça que representa o populismo e a extrema-direita, (...) não se podem correr quaisquer riscos", foi o que disse em entrevista ao canal BFMTV para justificar o porquê de não votar em Benoît Hamon, que o derrotou nas primárias internas do PS em janeiro.

Dentro do partido, a reação contra Valls foi furiosa, não faltando adjetivos como "traidor", "desleal" ou "miserável". Mas há de se notar que o nível de desgaste interno ao final da presidência de Hollande faz com que palavras como essas sejam usadas com certa frequência entre membros de distintos setores internos do PS.
A última pesquisa, divulgada na última quarta-feira pelo instituto Elabe, coloca Mélenchon (FI) em quarto lugar com 15%, e Hamon (PS) em quinto com 10%. Com esses resultados, uma proposta de unificação das campanhas se torna improvável, pois apesar de haver havido discussões durante a pré-campanha nesse sentido, elas sempre se basearam em manter o candidato do PS como cabeça da chapa, o que dificilmente seria hoje aceito por Mélenchon. Pensar uma chapa unitária que não tivesse Hamon pelo PS à frente seria decretar a falência desse partido na política nacional.

Nova crise para Fillon

As más notícias também chegaram para o candidato de centro-direita François Fillon, que está junto com sua esposa Penelope sendo alvo de investigações por juízes franceses, sob acusações de desvio de verba pública, pois ele teria pago salários a ela como se fosse funcionária no parlamento, sem que ela de fato trabalhasse.

Os escândalos de corrupção abalam a candidatura de Fillon, o empurrando para terceiro lugar nas pesquisas, dando espaço justamente a Macron, que agora figuraria num segundo turno contra Le Pen.

A esquerda anticapitalista apresentou seu candidato

Para superar os entraves antidemocráticos impostos pelo sistema eleitoral francês, a esquerda anticapitalista se organiza no Nouveau Parti Anticapitaliste (Novo Partido Anticapitalista, ou NPA), que lançará candidato próprio nestas eleições.

Philippe Poutou, militante do NPA e operário na fábrica da Ford apresentou sua candidatura na semana passada em um ato na periferia de Paris.

Com grande cobertura da imprensa francesa, Poutou apresentou os principais eixos de sua campanha diante de um grande público no bairro de Saint Ouen. Em seu discurso criticou os planos de austeridade do governo, e também as plataformas dos demais candidatos. Também apresentou seu programa contra as demissões, defendendo a divisão das horas de trabalho entre todos os trabalhadores, além de defender o direito à saúde, educação, moradia e serviços públicos. Também se colocou em defesa do meio-ambiente, e contra a desigualdade e o racismo.




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