FÓRUM ALTERNATIVO MUNDIAL DA ÁGUA / BRASÍLIA 17 A 22 DE MARÇO / UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA /

Crise hídrica, movimentos populares e “bandidos agrários”

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 19 de março| Edição do dia

[Eugênio Lyra, assassinado pelo latifúndio em 1977]

Várias capitais do Brasil [a exemplo de SP na crise hídricade 2014-2015] e agora Brasília, passaram a viver períodos de racionamento de água, com impacto mais flagrante sobre os bairros pobres e também zonas rurais, onde o avanço do agronegócio nos lega um profundo estado de envenenamento ambiental e problemas sociais agravados.

O exemplo de Correntina, na Bahia, meses atrás, foi exemplar.

Uma multinacional japonesa - dentre outras - desenvolveu fazendas modernas de agricultura intensiva, com 5 mil hectares de monocultura irrigada, invadiu e passou a bombear água de pequenos rios que abasteciam o camponês pobre e as cidades da região. Uma região onde grandes comunidades ribeirinhas pobres dependem daquela água, assim como também o próprio fornecimento de eletricidade para a região.

O objetivo do agronegócio já instalado ali - seu antigo objeto de cobiça - vem a ser justamente “o bem mais preciso dos ribeirinhos: a água” . O Estado – através dos prefeitos e seus vereadores - jamais levantou qualquer movimento contra. Diante da passividade da casta política local e nacional, as massas entraram em movimento 2 de novembro passado em protesto contra a fazenda.

A reação não se fez esperar, já que - na perspectiva da ordem dominante, burguesa - sofrer sob o jugo do grande capital pode, mas protestar não pode.

O secretário particular de FHC saiu atirando contra os “bandidos agrários” e acusando os lutadores sociais de “terroristas”.

Ou seja, o agrohidronegócio pode secar o rio Arrojado, o mais penalizado pelo latifúndio por ali [como os riachos Carinhanha, Correntino e rio Grande], pode fazer terra arrasada contra uma população que já vive privações sem fim pela falta de uma reforma agrária, pelos ataques desde longa data dos barões das terras, mas qualquer reação é coisa de “bandidos agrários”.

Na verdade, como relata documento do MST, a guerra pela água travada por ali “já derramou muito sangue. Um dos maiores mártires desta terra foi o advogado Eugênio Lyra, grande defensor dos direitos dos camponeses desta região. Em setembro de 1977, um dia antes de seu depoimento na CPI da grilagem, em Salvador, levou um tiro na testa quando estava à porta de uma barbearia da cidade baiana de Santa Maria da Vitória e ao lado de sua esposa grávida”.

O MST denuncia que os “dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra) apontam que pelo menos 17 riachos do Rio Arrojado já estão totalmente secos. Empresas como a Sudotex, Celeiro, BrasilAgro e Igarashi, por exemplo, com investimentos oriundos de outros países como Nova Zelândia, Estados Unidos, Japão, vem avançando cada vez mais sobre os rios.

Somente a Igarashi, multinacional de origem japonesa, consome hoje uma quantia equivalente a cem vezes do que toda a sede do município de Correntina. E somente na região de Jaborandi, temos instalados mais de 117 pivôs centrais (forma de irrigação utilizada pelo agronegócio, que consume um volume altíssimo de água). Em todo o Oeste da Bahia são mais de 160 mil hectares irrigados, tem empreendimentos com 12 bombas de captação de água ligadas 24h. A maioria é monocultura, grãos para exportação, nada fica pra região”.

O fato é que se a população não tivesse se mobilizado, massivamente, não tivesse reagido à sanha da empresa imperialista japonesa, jamais estaríamos sabendo de mais uma “pequena Mariana” que o Estado brasileiro lança contra os pobres rurais e urbanos, agora no interior da Bahia.

A importância de cercar de apoio ativo e solidariedade tais mobilizações, de parte dos sindicatos, dos movimentos populares em geral, do movimento estudantil é absolutamente estratégica. É preciso mostrar que aqueles companheiros não estão sozinhos. E envolvê-los com a força de nossos movimentos Brasil afora.

A guerra contra a nossa água já começou [o aquífero Guaranié apenas um exemplo].

A resposta da nossa classe deve se aprofundar, se coordenar e levantar suas bandeiras programáticas. Essa é a única resposta realista, e não apenas para resistir aos avanços antissociais desse governo mas também contra a “direita agrária” e urbana [Marielle vive!].

[As citações integram o documento do MST que pode ser lido aqui].
Você pode assistir ao vídeo abaixo, que contém a intervenção do pesquisador pela UnB e integrante do Esquerda Diário no FAMA, dia 17/3/18 [para um auditório com integrantes de movimentos sociais pela água no DF] sobre a crise hídrica e suas raízes globais e capitalistas.




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