Economia

BOLSA DE VALORES

Crack da Bolsa de Valores: 1987, 2007 ou 1937?

O economista marxista Michael Roberts analisa as perspectivas após a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque na última segunda, o funcionamento dos mercados de ações e sua relação com o capital produtivo.

quinta-feira 8 de fevereiro| Edição do dia

Na última segunda o mercado de ações norteamericano teve a maior queda em um dia desde meados de 2007, justamente antes da crise financeira, o crack bancária e o começo da Grande Recessão.

Está a história destinada a repetir-se? Bem, o velho ditado diz que a história nunca de repete, mas rima. Em outras palavras, há ecos do passado no presente. Mas, quais são os ecos desta vez? Há três possibilidades.

Este colapso será semelhante ao de 1987 e será seguido por uma recuperação rápida e decisiva, e o mercado de ações e a economia dos EUA retomarão sua recente marcha para cima. O crack será visto como um incidente breve na recuperação da Grande Depressão dos últimos dez anos.

Ou poderia ser como em 2007. Nessa ocasião a quebra da bolsa anunciou o começo do maior colapso na produção capitalista global desde a década de 1930 e o maior colapso no setor financeiro – e a continuação da recuperação econômica mais débil desde 1945.

Ou, por último, poderia ser como 1937, quando o mercado de ações retrocedeu como consequência de um aumento das taxas de juros por parte da Reserva Federal dos EUA e de que o governo do “New Deal” de Roosevelt deixou de gastar para impulsionar a economia. A Grande Depressão retomou e só terminou com a corrida armamentista e a entrada dos EUA na II Guerra Mundial em 1941.

Já discutimos a relação entre o mercado de ações (“capital fictício”, como era chamado por Marx) e a economia “real” do capital produtivo em matérias anteriores.

No dia do crack, o novo presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, prestou juramento como substituto de Janet Yellen. Powell agora enfrenta alguns novos dilemas.

Marx fez a observação chave de que o que impulsiona os preços do mercado de ações é a diferença entre as taxas de juros e a taxa geral de lucro. O que manteve os preços do mercado de ações em alta tem sido o nível muito baixo das taxas de juros de longo prazo, geradas deliberadamente pelos bancos centrais como a Reserva Federal em todo o mundo, com zero taxas de curto prazo e flexibilização quantitativa (compra de ativos financeiros com injeções de crédito). A diferença entre o retorno sobre o investimento no mercado de ações e o custo dos empréstimos para fazê-lo foi enorme.

Evidentemente, os investidores tomam decisões “irracionais” todos os dias, mas ao longo do tempo e com um nível agregado, as decisões dos investidores de comprar ou vender ações ou títulos se basearão no retorno recebido (em juros ou dividendos) e os preços das ações e títulos se moverão de acordo. E esses retornos finalmente dependem da diferença entre o retorno do capital investido na economia e os custos de financiamento. Se os preços das ações se tornam muito desatualizados frente ao retorno do capital em uma economia, eventualmente cairão novamente. Quanto mais fora de alcance, maior será a eventual queda.

Então, existem dois fatores que são chave para julgar se este colapso das ações é uma situação de 1987, 2007 ou 1937: a rentabilidade do capital produtivo (está subindo ou descendo?); e o nível da dívida da indústria (será custoso demais para enfrentar?).

Em 1987, o retorno do capital estava aumentando. Foi justamente no meio do período neoliberal caracterizado por uma crescente exploração do trabalho, a globalização e os novos desenvolvimentos tecnológicos, que foram fatores contrários que jogaram contra a tendência da queda da taxa de lucro. A rentabilidade continuou aumentando até 1997. E as taxas de juros, longe de serem aumentadas pelo Banco Central, estavam reduzindo a medida que a inflação caía.

Em 2007, a rentabilidade estava diminuindo (estava em declínio desde o final de 2005), o mercado imobiliário começava a afundar e se esperava que a inflação aumentaria e, junto a isso, o Banco Central planejava elevar sua taxa de política monetária, como o que está planejando agora em 2018. Mas há diferenças agora em relação a 2007. O sistema bancário não está tão esticado nem envolvido em derivados financeiros de risco. E ainda que a rentabilidade na maioria das principais economias ainda estão abaixo do máximo de 2007, os lucros totais estão aumentando atualmente. Pode ser que os salários comecem a se recuperar e isso poderia reduzir os lucros no futuro. Além disso, o Banco Central planeja elevar as taxas de juros e, portanto, também diminuir os lucros a medida que aumentam os custos de manutenção da dívida.

Talvez 1937 esteja mais próximo de onde o capitalismo estadunidense está agora. Eu escrevi sobre os paralelos com 1937 antes. A rentabilidade em 1937 havia se recuperado do poço de 1932, mas ainda estava bem abaixo do pico de 1926.

E o mais preocupante agora é que a dívida corporativa não tem reduzido desde o final da Grande Recessão em 2009. Pelo contrário, nunca foi mais alta. Baseada em uma amostra global de 13 mil entidade, a agência S&P estima que a proporção de empresas altamente alavancadas – aquelas em que a relação dívida x lucros supera 5 vezes – ficou em 37% em 2017, em comparação com 32% em 2007, antes da crise financeira mundial. Durante 2011 a 2017, a dívida corporativa global não financeira cresceu em 15 pontos percentuais para 96% do PIB.

O colapso do mercado de ações me diz duas coisas. Primeiro, que a economia dos EUA, que segue sendo a maior e mais importante economia capitalista, lidera. Não é a Europa, nem o Japão, nem a China que provocarão uma nova depressão mundial, mas os Estados Unidos. Em segundo lugar, que desta vez a queda não será desencadeada por uma quebra do mercado imobiliário ou um colapso bancário, mas por uma crise do setor corporativo não financeiro. As falências e as violações aparecerão a medida que as empresas capitalistas mais débeis encontrem dificuldade em cumprir com seus encargos da dívida e se gere uma reação em cadeia.

Mas a história não se repete, mas rima. A massa dos lucros nas principais economias segue aumentando e as taxas de juros, a inflação e os aumentos salariais seguem sendo baixos, em termos históricos. Isso deveria atuas favoravelmente contra o colapso nos preços do capital fictício (que no entanto são altos). Mas a direção dos lucros, as taxas de juros e a inflação podem mudar em breve.

Tradução: Iaci Maria




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