Educação

COTAS NA UNICAMP

Cotas na Unicamp: Quando fizemos o bastião do racismo tremer

Históricos. É a única forma que conseguimos expressar o que significaram os dias 29 e 30 de maio na Unicamp, uma das últimas universidades do Brasil a adotar cotas, situada na última cidade a abolir a escravidão.

sábado 3 de junho| Edição do dia

foto de Rafael Kennedy

Depois de 3 meses de uma greve que essa universidade nunca tinha visto, de dois meses de ocupação de reitoria e intensa mobilização do conjunto dos estudantes que conseguiu colocar o debate das cotas em todos os institutos, no dia 29 realizamos um Festival por Cotas que marcou os 51 anos de racismo e elitismo dessa universidade, fundada na ditadura militar. Impulsionado pelo Núcleo de Consciência Negra, pela Frente Pró-Cotas e por diversos estudantes que participaram das reuniões ampliadas, o Festival contou com artistas, intelectuais e militantes do movimento negro que preencheram os espaços da Unicamp com arte, cultura e debates importantes sobre a questão racial, mostrando aos que querem uma Unicamp branca e elitista, que vamos enfrentar seu projeto de exclusão e racismo.

No dia seguinte, desde cedo centenas de jovens, trabalhadores, integrantes de movimentos sociais e do movimento negro gritavam à burocracia branca e reacionária do conselho universitário que não havia outra opção a não ser “Cotas Já”. Estes, usavam dos argumentos mais absurdos e racistas para desqualificar a proposta e conseguir manter a universidade como ela é hoje, completamente fechada à população. Nós, de fora, porque aqueles que constroem a universidade não podem fazer parte de seus espaços de decisão, acompanhamos e respondemos a plenos pulmões a cada absurdo dos conselheiros, e também a cada fala de apoio. Com certeza os conselheiros, antes de decidir os seus votos, lembraram que tinham que sair por aquela porta e que lá estávamos nós, com ódio por ainda ter que ouvir que não existe racismo no Brasil e por ter que lutar bravamente pelo mínimo, contra o atraso da Unicamp a despeito de um debate e luta impulsionados pelo movimento negro há anos.

Por volta das 18h, cansados depois de 11h de ato, vimos a aprovação do princípio de cotas por unanimidade, com olhos espantosos e sem muita reação nos primeiros minutos, a ficha ainda não havia caído, parecia que todos estavam relembrando toda a luta travada para chegar até alí. De fora gritamos que “lutamos para vencer” e recebemos nossos companheiros, entre eles um dos que estavam sendo expulsos pela universidade, com os braços abertos e com lágrimas e sorrisos estampados nos rostos. Cada direito que nós negras e negros, junto com outros companheiros, arrancamos dos poderosos, é uma derrota para a burguesia, que se consolidou com séculos de exploração dos negros escravizados, e portanto um passo adiante na luta contra o racismo e esse sistema podre que nos oprime e nos retira o direito à vida.

Na Universidade, conquistar cotas é dizer às reitorias e aos governos que não aceitaremos uma educação restrita. O acesso a centenas de novos estudantes negros e indígenas será um choque com a universidade branca e elitizada que é hoje a Unicamp. Não à toa já vimos comentários racistas com "a excelência" da universidade questionada porque se aprovou a adoção de cotas. Podemos partir desse passo decidido, que aumentará significativamente a entrada da população negra nos cursos da graduação, para questionarmos ainda mais a fundo o projeto de universidade hoje estabelecido pela reitoria e a burocracia acadêmica privilegiada, que fecha aos olhos aos inúmeros casos de racismo que vivemos todos os dias, na qual estudantes são expulsos por lutar, ou por quererem pesquisar temas que contribuam para a luta anti-racista.

Queremos tomar os rumos da universidade nas nossas mãos, para transformar os espaços, currículos e pesquisas, e que tudo esteja em função de subverter o caráter de classe e o racismo estrutural da Unicamp, que coloca centenas de mulheres negras no trabalho terceirizado. Junto aos estudantes cotistas queremos transformar esse projeto de educação, que serve às empresas, que nos trata apenas como objetos de pesquisa, e filtra, com o vestibular, quem pode ou não acessar ao ensino superior público, nos endividando nas universidades privadas.

Num cenário político nacional de repressão e ataque, em que vemos os golpistas querendo fechar a UERJ, primeira universidade a adotar as cotas, a cada dia abocanhando nossos direitos com suas reformas, que atingem principalmente a população negra, e depois de uma semana que voltamos de Brasília onde estivemos junto a milhares de trabalhadores e jovens e com eles sofremos uma enorme repressão policial, conquistar o princípio de cotas significou uma vitória ainda maior, pois os defensores de uma Unicamp para a elite paulistana, como o MBL, Alckmin e todos os golpistas, tremeram ao ver a potência que nós temos quando nos organizamos. Tremeram só de imaginar uma universidade negra, assim como é a população brasileira.

Conquistamos o princípio das cotas raciais e sociais com a meta de se chegar a 50% de estudantes de escola pública e ao número de negros proporcional em São Paulo, que segundo dados do IBGE é de 37,5%, um princípio que vai além da proposta de cotas das universidades federais. Mas nossos passos daqui em diante, devem seguir ainda mais firmes e decididos a fim de garantir o processo de implementação. O projeto de cotas com todos os meandros de como se dará a sua implementação, será formulado por um grupo de trabalho escolhido pelo reitor, composto por dois integrantes do antigo GT, um do Núcleo de Consciência Negra, um da Frente Pró-Cotas, três representantes do conselho universitário, dois da comissão central de graduação, um servidor técnico-administrativo e um representante discente, e a votação do projeto será em novembro deste ano no conselho universitário, para que faça parte do processo seletivo de 2019.

Por todo o racismo e elitismo que ouvimos desse conselho antidemocrático, que não é nada representativo de quem constrói a universidade, e por todas as punições que os estudantes que lutaram na greve estudantil vem sofrendo da reitoria, sabemos que é preciso tirar das suas mãos e das mãos do reitor Knobel qualquer possibilidade de diminuir ou retirar a nossa conquista, arrancada com muita luta. Estes foram encurralados pela força da nossa mobilização, mas como já vimos desde a campanha de Knobel, seu projeto é fortalecer uma universidade voltada às empresas, que lucre com a produção de conhecimento, o trabalho terceirizado e uma Unicamp de costas à população.

Por isso, é fundamental que nosso movimento siga, com a força que vimos, com o Núcleo de Consciência Negra, a Frente Pró-Cotas e junto aos estudantes de diversos institutos da universidade, à juventude secundarista, cursinhos populares, trabalhadores de dentro e fora da universidade, movimentos sociais e movimento negro, e com as nossas entidades estudantis, construindo espaços amplos de discussão e se colocando a tarefa de garantir a implementação das cotas em todos os cursos de graduação da Unicamp, o nosso direito à permanência estudantil de qualidade, e a revogação das punições racistas da reitoria aos que lutam por um outro projeto de educação.

Não podemos esquecer um minuto sequer o que significa essa universidade e sua burocracia, que é através do trabalho de centenas de mulheres negras que ela se mantém, que quando atravessamos o filtro social e racial do vestibular, não temos direito à permanecer, que temos que ir às aulas com as paredes escritas “aki não é senzala, tirem os pretos da Unicamp já”, e quando enfrentamos essa violência aos nossos corpos e às nossas vidas, ainda querem nos expulsar da universidade, nos jogando na cara todos os dias que esse espaço não foi feito para nós. Mas não estamos aqui para respeitar os espaços, as regras, os caprichos e o poder dos que sempre mantiveram seus privilégios em cima da nossa opressão e exploração, como querem descarregar os golpistas com suas escandalosas reformas. Estamos aqui para questionar, subverter a lógica imposta por anos de exclusão, para defender igualdade de direitos entre negros e brancos no trabalho e na vida, colocando essa universidade e toda sua potencialidade à serviço daqueles que a constroem. Viemos para destruir cada centímetro do racismo e desse sistema de miséria que querem nos impor, e que eles tremam, porque cotas não é nada perto do que vamos arrancar.




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