SEMANÁRIO

Coronavírus: o internacionalismo de classe como antídoto frente à crise

Josefina L. Martínez

Giacomo Turci

Coronavírus: o internacionalismo de classe como antídoto frente à crise

Josefina L. Martínez

Giacomo Turci

A crise do coronavírus e a recessão global estão exacerbando o nacionalismo reacionário dos Estados imperialistas. O espíritu de “América first” de Donald Trump parece ter se expandido como um vírus. Como oposição, a classe operária mundial é a única força social que pode dar uma saída progressiva a esta crise, reorganizando a produção sob controle operária e aprofundando o internacionalismo.

Como parte das medidas inéditas que vem tomando alguns Estados imperialistas para administrar a crise do coronavírus, quarentenas impostas a milhões de pessoas e militarização das cidades, no dia 17 de março outro projeto foi anunciado: a União Europeia fechava completamente suas fronteiras por 30 dias. Era uma resposta, a contragolpe, ao que já havia começado a se produzir sem coordenação alguma; o fechamento de fronteiras anunciado de forma unilateral pelo Estado Espanhol, Portugal, Áustria, República Tcheca, Dinamarca, Estônia, Alemanha, Hungria, Lituânia, Polônia, Noruega e Suíça.

O espaço Schengen de livre circulação entre os países comunitários, que entrou em vigor em 1995 e até agora tinha se mantido ativo como um dos pilares do projeto da União Europeia, entrava em coma. Ainda que, lembremos já havia tido rachaduras importantes durante a crise de refugiados de 2015, quando países como Áustria e Hungria fecharam suas fronteiras, com a xenofobia como política de Estado.

A crise do coronavírus exacerbou as respostas nacionalistas reacionárias. Quando o vírus foi identificado em janeiro no estado chinês de Wuham, a imprensa ocidental o estigmatizou como um “vírus chinês” e inclusive se especulou como outros Estados poderiam aproveitar a crise para seu benefício. “Este é o esforço mais agressivo para enfrentar um vírus estrangeiro na história moderna (dos EUA)”, assegurava Donald Trump em um dos seus primeiros discursos sobre o Covid-19, recuperando a retórica de um Estados Unidos “puro” ameaçado pela invasão estrangeira, chinesa, muçulmana, mexicana, frente à qual é necessário levantar muros.

Quando a epidemia começou na Itália, a primeira resposta da Alemanha e da França foi proibir as empresas destes países de exportar material médico, especulando acumular para o futuro. Em plena crise italiana, não houve nenhum tipo de apoio, nenhuma cúpula europeia se reuniu para declarar uma emergência e enviar insumos médicos massivamente, nem pessoal da saúde. A resposta foi reforçar fronteiras e garantir a produção nacional nos países dos mais ricos do planeta, que neste momento quase não tinham contágios. Ou seja, que enquanto continuavam abertas as fronteiras para a livre exportações de carros alemães e franceses, se fechavam para exportar material médico. O governo espanhol, nas mãos da coalizão PSOE e Podemos, atuou de forma diferente.

Em troca, não faltou rápida resolução para anunciar planos de resgate massivo às empresas por parte dos governos imperialistas, com centenas de bilhões de euros à disposição para novos créditos e isenções fiscais. Não é necessária outra demonstração do caráter profundamente recionário da União Europeia e do sistema capitalista de conjunto. Ao mesmo tempo, os Estados imperialistas mantém as sanções para países como o Irã, Cuba ou Venezuela em meio à esta catástrofe social, condenando povos inteiros à morte.

Em diferentes ações, os chefes de Estado da Itália, França, Estado Espanhol, Alemanha, se dirigiram nos últimos dias por cadeia nacional fazendo uso da metáfora da guerra contra um “inimigo invisível” da “cidade murada” para prevenir o contágio. Cada mandatário apelou para a “unidade nacional” e o “esforço de guerra”, buscando inflar o sentimento nacional, como se frente à epidemia se suspendesse o conflito de classes.

A estratégia de confinamento massivo das populações sob controle policial, junto ao fechamento de fronteiras, busca reforçar o sentido comum do salvamento individual ou do salvamento das nações mais fortes contra as mais débeis.

Ao mesmo tempo, os países imperialistas se aproveitaram desta crise sanitária para blindar as fronteiras contra as migrações. O que Donald Trump ou Salvini vinham agitando de forma grotesca e que a direção da União Europeia até agora não podia dizer em voz alta (ainda que a realidade vem sendo a de milhares de imigrantes amontoados em campos de internação nas fronteiras exteriores, em países como a Turquia, Líbia ou Marrocos, deportações expressa e o endurecimento das leis de estrangeiros), agora encontra uma contundente justificativa com a pandemia.

Em última instância, a metáfora da cidade murada contra a peste apresenta o vírus como um inimigo estrangeiro que vem para nos “invadir”. A lógica da peste leva a desconfiar do vizinho (e incentivar a delação do que não ‘cumpre’ sua responsabilidade social), desconfiar inclusive do outro que vive em nossos lares e que pode ser portador deste inimigo “externo” e invisível que se enfia nos nossos corpos.

Os estados nacionais e as grandes corporações: uma trava insuperável para uma resposta global à pandemia e à crise capitalista

O epidemiólogo Peter Piot, um dos primeiros a investigar o vírus do Ebola, sinalizou há alguns dias que esta pandemia do Covid-19 estava sendo abortada com métodos medievais: confinamento, isolamento e distanciamento social (lhe faltou dizer, e militarização do espaço público). Um método elementar com o qual se respondia a estas grandes pestes em séculos passados, quando a falta de antibióticos, tecnologia e investigação científica não deixava outras opções. Poderiamos adicionar que esta crise também está começando a ser combativa com métodos “clássicos” do capitalismo do século XX: junto às medidas que descarregam a crise sobre a classe trabalhadora como demissões e suspensões massivas, se está produzindo um maior recrudescimento do nacionalismo imperialista, guerras comerciais, e, em perspectivas, não podemos descartar, possíveis novas guerras.

Em um artigo publicado há alguns dias (1) Slavoj Zizek defendia que “A epidemia não é só um sinal dos limites da globalização mercantil, também sinaliza o limite, ainda mais fatal, do populismo nacionalista que insiste na soberania absoluta do Estado”. Enquanto a pandemia se mostra como um fenômeno global, as soluções nacionalistas do “salve-se quem puder” só boicotam a contenção do contágio a nível internacional.

Como é possível que no século XXI possam escassear, em países como a França, Itália ou Espanha, bens tão elementares como máscaras de tecido, álcool em gel ou respiradores artificiais, enquanto existem empresas em todo o mundo que por elas próprias poderiam produzir milhões destes produtos, e existem redes de logística desenvolvidas internacionalmente que poderiam prover nações inteiras em poucos dias? A resposta é que a propriedade privada e a competição entre grandes corporações, por um lado, e por outro, a livre competição entre os Estados, se transformam em obstáculos absolutos para resolver estas questões elementares.

“Uma das causas fundamentais da crise da sociedade burguesa consiste em que as forças produtivas criadas por ela já não podem se conciliar com os limites do Estado nacional”, assegurava Trotsky na Revolução Permanente.

Entre as 20 maiores empresas multinacionais do mundo se encontram farmacêuticas como Johnson & Johnson, Pzifer, Procter & Gamble, Roche e gigantes da logística como Amazon, Alibaba e Walmart, que tem uma estrutura logística internacional sem precedentes, capazes de abastecer o mundo inteiro com produtos de forma imediata. A Amazon está inclusive desenvolvendo sistemas de entrega por meio de drones em zonas de difícil acesso, mas esta capacidade não está colocada à disposição das necessidades sociais.

Quando se faz o exercício de comparar o volume de negócio das grandes empresas e os orçamentos dos Estados se percebe que 69 das 100 entidades econômicas mais importantes do planeta são empresas, e as 25 corporações que mais faturam superam o PIB de vários países. Atualmente, algumas dessas corporações estão competindo pela descoberta de uma vacina para o Covid-19, o que pode ser uma fonte de grandes negócios em meio a esta crise, mas tem como obstáculo o compartilhamento dos descobrimentos e investigações que, se fossem públicos e corporativos, avançariam muito mais rápido.

Um programa da classe operária para dar uma saída à crise

A crise sanitária e seus efeitos econômicos imediatos, com suas ondas de demissões, colapsos de sistemas sanitários inteiros, milhares e milhares de mortos, é a enésima confirmação prática do caráter fraudulento e ideológico dos discursos de todos os intelectuais neoliberais, que falam do capitalismo como o melhor sistema econômico possível, e das democracias liberais, completamente submetidas à vontade dos banqueiros e dos industriais, com o mais alto grau de democracia possível.

A realidade é que os capitalistas e seus governos em todos os países são incapazes de responder a esta pandemia e à crise econômica global no terreno no qual deveria ser respondida, ou seja, na escala mundial. Os impulsos nacionalistas e competitivos entre os Estados e as corporações são o oposto ao único critério que pode permitir a cooperação e uso de meios e energia de forma eficiente: a planificação social dos recursos, sob controle democrático da classe trabalhadora e dos setores populares.
Algumas medidas já adotadas pelos governos, como contragolpe e de forma parcial, devem conceder algo a este critério, como por exemplo o anúncio da centralização do sistema de saúde do Estado Espanhol em mãos públicas públicas, a medicalização de hospitais ou o requerimento às empresas automotrizes que comecem a produzir respiradores em outros países. São, em um sentido, uma homenagem que faz burguesia em plena crise à necessidade da planificação socialista da economia.

No entanto, é evidente que seu compromisso com a grande propriedade e os benefícios da pequena minoria de pessoas milionárias impede a casta política governante de seguir este caminho de forma consequente, como seria necessário. Os que administram os Estados atuais administram os interesses materiais, econômicos e dos capitalistas, o que deriva na impossibilidade de afrontar a crise e de superar rapidamente o vírus, para evitar o maior número possível de mortes, assim como a queda na miséria de milhões de pessoas nos próximos meses.

Estas são, em vez disso, prioridades para a classe operária, que em quase todas as partes segue indo trabalhar, mostrando ao mesmo tempo a importância das posições estratégias que ocupa na sociedade. Não somente os trabalhadores da saúde, mas os estivadores portuários, os trabalhadores das empresas farmacêuticas, os caminhoneiros, os trabalhadores de armazéns da logística, as caixas dos supermercados, os trabalhadores da limpeza, e trabalhadores que recolhem frutas e verduras no campo, e em geral, os batalhões operários em todo o setor da agroindústria incluindo as grandes fábricas alimentícias, os trabalhadores bancários, os que estão ocupados em companhias telefônicas e provedores de internet, assim como os trabalhadores da indústria que poderia ser colocada à serviço de produzir todo o material necessário, são todos setores fundamentais para o funcionamento da economia capitalista, inclusive em tempos de “quarentena” generalizada impostas pelo Estados.

Por isso, a única saída progressiva à crise do coronavírus pode vir da ação da classe operária não somente na escala nacional, mas internacional. E para apostar nisso, é que precisamos desde já levantar um programa de emergência que permita com que os explorados e oprimidos não saiam derrotados, dispersor e empobrecidos dessa crise, mas como uma força ativa mais organizada e consciente da sua própria força. A classe operária, por sua vez, a que se expõe muito mais ao contágio, em condições de precariedade trabalhista, com péssimos sistemas de transporte, sem condições de segurança e higiene nas empresas.

Frente ao desastre ao qual nos estão levando os capitalistas, faz falta mostrar que são os próprios trabalhadores e trabalhadoras os que podem assumir todas as medidas necessárias: não somente do ponto de vista da garantia do trabalho, contra as demissões massivas e a manutenção dos salários, mas também de fornecer os alimentos e os recursos médicos para toda a população pobre, e não apenas para uma minoria rica. Algo que só é possível se se consegue impor o controle democrático nos locais de trabalho, desde baixo, dos trabalhadores, no esforço de garantir e reconverter a produção para responder às prioridades sociais.

Alguns pequenos exemplos já começam a ser vislumbrados, como a iniciativa das trabalhadoras do calçado do Estado Espanhol que colocaram suas mãos à serviço de produzir máscaras para os hospitais, ou fábricas sob controle de seus trabalhadores na Argentina que se oferecem para produzir batas, álcool em gel e outros produtos necessários. São pequenos exemplos de uma política de classe que brilham como diamantes no meio desta crise, e que devem ser generalizados e visibilizados tanto quanto se possa.

A alternativa ao programa do “business as usual” dos capitalistas passa pela nacionalização dos setores econômicos estratégicos na produção dos bens essenciais, assim como a nacionalização da banca ou o controle do comércio exterior, para evitar a especulação com o comércio de respiradores ou remédios, como já acontece no mercado mundial. Mas estes recursos não podem ficar sob gestão dos mesmos governos e parlamentos que permitiram que este vírus se transforme em uma catástrofe mundial: para impor critérios sociais, de segurança e de planificação favoráveis aos trabalhadores, a única possibilidade é fazer com que a classe trabalhadora e comitês de usuários controlem todos estes recursos.

Particularmente, o controle operário na indústria farmacêutica é a única forma que temos de frear o desejo destas empresas multinacionais e as potências rivais, começando pela China, Estados Unidos e Alemanha, de obter benefícios com a futura vacina, ou de manter o privilégio de acesso à vacina restrito a seus próprios países, antes que para ninguém.

Este processo, diferentemente da forma com a qual os governos e os capitalistas aplicam suas políticas, requererá um grau de cooperação internacional que possa aproveitar o desenvolvimento internacional das forças produtivas e a capacidade de mover bens e pessoas que se desenvolveu nas últimas décadas com o surgimento do mercado mundial mais conectado da história. A resposta da classe operária à crise, e o controle do que se produz e em quais condições, que poderá ser discutida e implementada a primeiro no nível de um hospital, uma fábrica ou empresa, precisará ser estendido no território nacional, e em última instância, no cenário internacional, para qual será necessário lutar por governos de trabalhadores.

O internacionalismo do qual precisamos e que pode salvar a humanidade não é internacionalismo das empresas transnacionais, que estão pressionando para obter mais benefícios inclusive nesta conjuntura, mas tampouco é qualquer solução de volta ao nacionalismo reacionário dos Estados imperialistas, que no século XX levaram a duas guerras mundiais.

O exemplo que temos em mente, nestes tempos de crise e pandemia, é o da fraternidade e da cooperação dos trabalhadores e trabalhadoras de todos os países, o contágio dos processos revolucionários e a luta de classes, assim como a construção de uma organização revolucionária internacional da classe operária, o partido mundial da revolução socialista, a IV Internacional.

Estamos frente a um novo período histórico, que reatualiza a época de crises, guerras e, também, revoluções, que são parte da história da classe trabalhadora em todo o mundo. Ninguém nos poderia fazer pensar até muito pouco que tudo iria começar com um vírus microscópico se estendendo por todo o mundo; mas, na realidade, o doente, há muito tempo, é o capitalismo.

Artigo publicado originalmente em espanhol no Semanário Teórico Ideas de Izquierda do Izquierda Diario Argentina, pertencente à Rede Internacional de Diários La Izquierda Diario

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Josefina L. Martínez

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