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Consulta na Unicamp: Quem são os reitoráveis?

Nos próximos dias 15 e 16 de março ocorrerá a Consulta para determinar a nova reitoria da Unicamp, 5 candidatos disputam o cargo de reitor. Confira quem são e o que defendem.

sexta-feira 3 de março| Edição do dia

O processo da Consulta
É um processo antidemocrático, a começar pelo fato de ser uma “consulta”, na qual dos 5 candidatos, apenas 3 irão para uma lista em ordem de votação, mas é Geraldo Alckmin, o governador tucano, quem decide qual será a reitoria da Unicamp pelos próximos 4 anos. Um exemplo de como essa decisão é autoritária foi a escolha do nome de Marco Antônio Zago por Alckmin, para ser reitor da USP a despeito dele ter perdido na votação. Além disso, o peso do “voto” não é igual, o voto dos professores na consulta vale 60%, e dos estudantes e funcionários somados valem apenas 40%. Somente professores titulares podem se candidatar ao cargo de reitor, e o processo todo ocorre no máximo até o primeiro mês de aula, deixando de fora das discussões e decisões a maioria dos estudantes, principalmente os ingressantes deste ano.

A Consulta é um mero reflexo da situação que predomina nas instâncias de governo e decisão da universidade: Não temos o direito de decidir os rumos da universidade, também no Conselho Universitário (CONSU) o peso é desproporcional à realidade, com professores ocupando 70% das cadeiras, sobrando aos funcionários e estudantes apenas 15% para cada. Existe lugar garantido para membros da FIESP e da prefeitura de Campinas (que no caso é golpista), mas aos estudantes e funcionários o direito de expressar o que defendemos para a universidade, e como acreditamos que ela tem que ser é negado, por isso também entramos em greve no ano passado e ocupamos o prédio da reitoria, o símbolo de uma burocracia autoritária, desligada das necessidades de quem constrói a universidade todos os dias e da população que paga por ela.

Quem são os candidatos?
Abaixo apresentamos quem são os 5 reitoráveis e o que defendem pra Unicamp.

Antônio Celso Fonseca de Arruda

É decano da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, e diz que não tem nenhuma pretensão e chance de ganhar as eleições, esquiva-se de algumas perguntas com o argumento de que não será reitor, e chama pelo voto nulo. Arruda disse ao G1 que o ICMS, imposto que financia a Unicamp, é injusto e perverso, mas não apontou nenhuma outra forma de financiamento como alternativa. Assim como vários dos que são contrários à implementação das cotas étnico-raciais, diz que defende um “fortalecimento do ensino infantil, fundamental, médio e profissionalizante públicos, para que os ingressantes da rede pública de ensino voltem a ter condições de competir com os oriundos da escola privada”, o que mostra que além de não questionar o fato da Unicamp ter poucos estudantes negros, ainda reafirma o vestibular, que é uma prova meritocrática, que apenas filtra aqueles que tiveram tempo e dinheiro para se preparar. Coloca-se contrário ao supersalários e a dupla matrícula. Sobre a ocupação da reitoria sua posição é bastante autoritária, diz que o reitor deveria ter impedido o fluxo de pessoas, alimentos e colchões, que não se deveria punir os que tivessem “danificado o patrimônio público”, mas segundo ele a autoridade do reitor deveria ser sempre respeitada. Não defende a implementação das cotas étnico-raciais, usando como argumento o PAAIS (Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social, que acrescenta pontos no vestibular).

Léo Pini Magalhães

É professor titular da Faculdade de Engenharia Elétrica, em seu programa de gestão intitulado “Pensando a Unicamp”, defende como solução da crise orçamentária a “descentralização administrativa” da universidade, e a diminuição das pró-reitorias, mas em relação aos supersalários Pini defende que o teto deveria ser maior para que a Unicamp não se torne “menos atrativa”. Os estudantes pobres não fazem parte do que pensa sobre a Unicamp, já que não encontramos a palavra moradia ou permanência no seu plano de gestão. Coloca-se contrário a implementação das cotas étnico-raciais, chegando ao absurdo de dizer ao G1 que a “demanda por cotas raciais está atendida por nosso sistema de pontuação especial dedicado às populações de origem negra e indígena”, o que mostra a sua total falta de senso de realidade e que o avanço do acesso da juventude negra ao ensino superior não está em seu plano para a universidade, defende o PAAIS, que já mostrou diversas falhas no que diz respeito à política de inclusão, e apresenta um conteúdo bastante meritocrático, ressaltando a importância do “mérito acadêmico individual e institucional”. Em relação a greve e ocupação do ano passado, o candidato acredita que faltou mostrar mais comando da reitoria que deveria confrontar os estudantes e trabalhadores, que tiveram motivações político-partidárias, causando “pouca repercussão interna, mas grande alarido externo”.

Luis Alberto Magna

Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas, Magna defende em seu programa de gestão “Juntos até 2021” o “fortalecimento da Marca Unicamp, valorizar a Família Unicamp, e Acessibilidade: Inclusão plena da pessoa com deficiência”, dizendo que é preciso aproveitar os benefícios da Unicamp estar nos rankings para a “Marca Unicamp”. O que chama de “Família Unicamp” não inclui as centenas de trabalhadoras negras terceirizadas que fazem o trabalho da limpeza e dos restaurantes, e que no ano de 2015 cerca de 200 foram demitidas na gestão Tadeu, de que Magna fazia parte. Diz que está em busca da inclusão plena, mas defende apenas uma reformulação no PAAIS, e não fala em nenhuma política de inclusão dos negros na universidade, o que só evidencia a mentira da sua “inclusão plena”. Além disso foi um dos que se abstiveram quando o CONSU votou a reincorporação do estudante Paulo Ruffino, mostrando que a Universidade que ele quer não é para os pobres e negros. Sua solução para a permanência estudantil é que os municípios de origem dos estudantes arquem com os custos, tirando a sua responsabilidade na política de permanência dos estudantes pobres. Já para as empresas as portas estarão escancaradas, assim como é hoje, não irá “descuidar das parcerias com o setor privado”. Defende também um teto mais alto para os salários e não vê nenhuma ilegalidade na dupla matrícula.

Marcelo Knobel

É professor titular do Instituto de Física (IFGW). Em seu programa de gestão “Universidade pública, compromisso com a sociedade”, que parece destoar um pouco dos outros candidatos, logo vemos que tem muita demagogia e ambiguidade, afinal essa mesma grande mídia, incluindo Estadão e Folha, sempre fazem campanha dizendo que as estaduais paulistas não tem “compromisso com a sociedade” que as financiam pela via dos impostos, sugerindo sempre que a solução é que devem cobrar mensalidade dos estudantes, demitir trabalhadores e aumentar as iniciativas privadas. Assim também é demagógico quando diz ao G1 que se compromete a debater cotas, já que em seu plano defende o ProFIS como alternativa de inclusão em contraposição às cotas. Também defende o aumento do teto dos salários docentes, com o mesmo argumento de competitividade. Em relação aos funcionários, fala sobre reestruturação das carreiras, mas já apresenta um plano de contingenciamento nas contratações no primeiro ano, aí vemos mais uma vez qual será o seu “compromisso”. Sobre a greve e ocupação do ano passado Knobel fala de “antagonismos desnecessários” que mancham a imagem da universidade e ressalta a importância do diálogo, mas esquece que sua vice Teresa Atvars, foi uma das responsáveis pela autorização e divulgação da entrada da polícia no campus em 2013, mostrando que seu projeto na verdade não tem nada a ver com “diálogo” e com a defesa de uma universidade pública.

Rachel Meneguello

É professora titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e é uma sucessora da linha política do atual reitor José Tadeu Jorge. O seu plano de gestão “Unicamp de tod@s” se destaca dos outros candidatos pela defesa da implementação das cotas étnico-raciais e por citar e discutir os problemas da terceirização. Tadeu e sua equipe gestora, da qual Raquel fazia parte, durante o longo processo de greve e exigência estudantil pela implementação das cotas étnico-raciais na Unicamp não se posicionou favorável à adoção dessa política. Raquel promete completar o processo de isonomia dos trabalhadores, o que também foi promessa de campanha de Tadeu e nunca se concretizou, mas, ao mesmo tempo, coloca que o processo de isonomia deve ser adiado até que as contas da universidade sejam reguladas. Em seu plano de gestão também fala sobre ampliação da moradia e das bolsas, pautas da nossa greve no ano passado, porém no processo de negociação da greve quando questionamos o fato dos estudantes pobres que entram na universidade e que conseguem a bolsa permanência serem obrigados a trabalhar para se manter ela disse que “bolsa sem contrapartida é mesada”. Rachel também é uma das defensoras do aumento do teto salarial e é uma das 9 pessoas na Unicamp que têm a chamada dupla-matrícula, o que garante a ela um mega-salário.

Qual universidade defendemos?

O país mudou no último ano devido à crise econômica e política e as universidades públicas estão sofrendo ataques que se aprofundam. A UERJ corre risco de fechar suas portas por falta de investimento e a crise financeira do estado do Rio. Ao nosso lado a “PEC do fim da USP” que permite congelar gastos com servidores, incluindo salários, e demitir mais de 5 mil trabalhadores, será levado ao Conselho Universitário no dia 7 de março e está prestes a ser aprovada na principal universidade do país. Por isso precisamos dar uma saída contra essa crise que já chega à Unicamp, para que não afete a nossa produção de conhecimento e descarregue seus efeitos sobre as nossas vidas.

Nós estudantes, junto aos funcionários e professores devemos discutir qual será a saída que vamos construir em defesa da Unicamp, para que ela se coloque à serviço de resolver os problemas e necessidades da população, que ofereça plenas condições de trabalho e estudo, seja aberta à toda a juventude que sonha com o ensino superior de qualidade e não terceirize o trabalho de milhares de mulheres negras, mas as reconheça e incorpore como parte da universidade. Acreditamos que esse projeto de universidade pública, só pode ser posto em prática por nós que construímos a universidade cotidianamente e não pelos que se privilegiam dela, como as empresas e o alto escalão da burocracia acadêmica.




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