Política

ENTRE OS AJUSTES E OS DISCURSOS

Congresso do PT: muito barulho pra nada

Iuri Tonelo

São Paulo

sexta-feira 12 de junho de 2015| Edição do dia

O dia começou agitado frente ao congresso do PT. A mídia se perguntava e especulava por todos os lados se o congresso significaria alguma mudança tática importante na política do partido. No entanto, desde o início a grande proposta alternativa do PT era...fazer um novo encontro em novembro para discutir. Ou seja, já indicavam os limites de grandes mudanças nesse congresso.
Isso ficou bem indicado nos discursos de Lula e Dilma na noite de quinta-feira. Lula fez uma fala, como disse, “sem o fígado”, que na realidade era uma fala preparada e inteira lida (diferente em muitos momentos) que servia exclusivamente para fazer uma propaganda do PT e afirmar que o PT continua vivo, ao contrário do que o próprio Lula disse no mês passado, de que o partido “estaria esfarelando”. Dilma seguiu a mesma toada, mas tendo o fardo de defender o ajuste fiscal e dizer que “nos momento difíceis sabemos com quem podemos contar”, alertando o objetivo central do congresso que é de neutralizar qualquer critica e continuar mantendo o partido de conjunto no consenso de “ajustar o mais rápido possível”.

Alguns debates se colocaram em pauta no debate e na carta, como a situação econômica, a discussão da reforma política, as alianças etc., mas existiu alguma mudança política significativa?

Em meio à corrupção e ao enfraquecimento, há mudança?

O congresso do PT tem causado um fenômeno contraditório: uma espécie de expectativa, mas com uma forte dose de descrença em todos os lados. O congresso se iniciou nessa quinta-feira, com discursos e pompa, mas com uma extrema debilidade de criar algum fato político que expresse o sentido de “mudança”, a palavra chave que tem sido a receita de toda a política no pós-junho.

No caso do PT, buscar um sentido de mudança era mais que vital para a tentativa de desenvolvimento do partido; antes disso, é uma necessidade de existência já do PT, já que sua completa integração ao regime tem criado uma ampla ruptura ideológico-política uma ampla camada da juventude e da classe trabalhadora com o PT, que possivelmente pode se tornar uma ruptura organizativa.

Na carta da maioria, intitulada Carta de Salvador, se diz no ponto 56. que “o principal destes equívocos foi não ter estabelecido como tarefas prioritárias, desde o princípio, a reforma do sistema político e a democratização dos meios de comunicação”. Ou seja, o grande equívoco que o PT anuncia agora é dizer que não modificaram um aspecto importante da estrutura do regime brasileiro, num momento em que se encontra completamente imerso na simbiose com os partidos dominantes. Só agora que Joaquim Levy comanda a economia, Michel Temer (PMDB) comanda as relações políticas e o conjunto do partido tem que fazer vistas grossas ao reacionário Eduardo Cunha na câmera é que o PT percebeu que eram necessárias mudanças estruturais. Mas “Inês é morta”, e o PT está totalmente integrado a esse regime, sem um caminho aparente ou desejável para voltar e sem nenhuma perspectiva distinta no congresso que indique qualquer coisa contrária a isso.

A mudança da economia e os impactos no PT

No primeiro discurso de Lula se reafirmaram alguns chavões de propaganda do PT, incluindo a ideia de que o Brasil caminha para se tornar uma “pátria educadora”, mesmo depois dos distintos cortes orçamentários da educação, derrotas das greves de professores, crise nas universidades federais, cortes no PRONATEC e no FIES e todo o descaso da educação pública no país.

Mas a propaganda era sem vida. Muito discurso contra a imprensa para dizer que o PT se mantém vivo, mas sem tocar no ponto fundamental que é debatido nos bastidores: buscar o consenso necessário para que o PT continue levando a cabo uma necessidade de todos os partidos dominantes do país: realizar o ajuste na economia, cortar os direitos dos trabalhadores, com a diferença que esse anseio é geral às classes dominantes e em particular ao PT também visa preparar as condições para o mais importante de tudo...uma nova eleição em 2018.

A política de alianças: grandes mudanças?

Alguns meios falam em uma mudança na política de aliança. Supostamente o PT partiria de que frente à mudança nas condições da economia, os partidos “centristas” (como parecem se referir ao PMDB) teriam dado um giro à direita, de modo que o PT teria que realinhar suas alianças. Assim dizem no ponto 65. da Carta de Salvador “A realidade que atualmente vivemos é a da radicalização da disputa de projetos. O próprio deslocamento à direita de grupos centristas, representando a reunificação de setores das classes dominantes ao redor de um pacto conservador, apenas confirma que processos de mudança em favor do povo, sem mobilização, são cada vez mais remotos
.
Ou seja, supostamente o PT avaliaria que as alianças enfraquecidas com PMDB e outros partidos seriam produtos de uma abertura maior “em favor do povo”, para abrir espaço a uma grande frente, conforme escrevem no ponto 66 da carta “O programa de reformas estruturais pressupõe a construção de uma frente democrática e popular, de partidos e movimentos sociais, do mundo da cultura e do trabalho, baseada na identidade com as mudanças propostas para o período histórico em curso”.

No entanto, a luta por uma “frente democrática e popular” em realidade não empolga amplos setores. É na realidade trata-se de uma medida defensiva do PT para não deixar se separar completamente de movimentos sociais importantes ou de setores do sindicalismo, já prevendo uma imensa dificuldade do partido nas eleições de 2016 e mesmo acenando a alas de outros partidos como alas do PSOL e PSB, possivelmente.

A linha política, no entanto, não desperta grande confiança, tanto no direcionamento aos movimentos sociais quanto na sua suposta separação dos setores “centristas” que estariam indo a direita. O PT já é completamente refém de suas alianças burguesas e não houve nada nos discursos do primeiro dia de Lula e Dilma, nem no próprio documento, que indique qualquer linha significativa na mudança dessa orientação. Menos ainda há qualquer sinal na realidade que dê substância aos discursos.

Mais do mesmo?

A carta da maioria do PT já foi aprovada. Nesta sexta-feira e no final de semana serão propostas emendas, mas o consenso é manter criticas brandíssimas ao governo Dilma, apenas para não explicitar que a verdadeira linha do partido para os próximos anos do governo é “ajustar para continuar”.

A falta de qualquer perspectiva de esquerda marca um partido cada vez mais notavelmente da ordem e dos ajustes, que levou ao jornal conservador Estado de São Paulo a dizer que “Lula jamais foi um político de esquerda. Sua “metamorfose ambulante”, como ele próprio definiu sua trajetória de sindicalista “autêntico” a cacique de partido, revela um político sagaz, pragmático, sempre pronto a mudar de atitude e de opinião ao sabor das conveniências.” (Estadão – 11-06). Ou seja, a crise do PT é tão grande que o discurso da direita não é mais da “ameaça vermelha”; agora depreciam o próprio PT como partido pragmático em crise.

O evento causou alguma expectativa, mas o discurso de Lula era inteiro para dizer que “o partido continua vivo, machucado sim, mas vivo”, mas sem qualquer perspectiva de mudança. Ou seja, no seu primeiro dia lembra o grande mestre da literatura universal: “Much ado about nothing”....muito barulho pra nada.




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