Teoria

TEORIA E DEBATE

Começa hoje o Grupo de Estudos Marxistas da UERJ

Nessa segunda-feira, às 18h, ocorrerá o primeiro encontro do Grupo de Estudos Marxistas da UERJ. Serão debatidas as bases teóricas do marxismo, com base no texto de Lenin “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”. O grupo é aberto e todos são bem vindos.

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 10 de julho| Edição do dia

O marxismo foi, desde seu nascimento, expulso das universidades e rechaçado pela ciência oficial da sociedade capitalista, provocando “a maior hostilidade e o ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que veem no marxismo uma espécie de ‘seita perniciosa’”, como afirmava Lenin já em 1913.

Ainda que desde essa época permaneça essa postura de procurar afirmar que a teoria marxista não possui validade alguma, outras formas de tentar “esterilizar” o marxismo foram inventadas pela burguesia, sua academia, seus intelectuais. E uma das mais nocivas consiste em separar o marxismo daquilo que é seu objetivo primeiro e fundamental: a transformação revolucionária da sociedade, a derrubada do capitalismo e a luta firme e consciente por uma sociedade comunista, e, enfim, a busca pela emancipação de toda a humanidade dos grilhões da exploração e opressão.

O que a academia fez foi tentar construir sua própria versão do marxismo como um “método de análise”, seja econômico, estético, filosófico, mas invariavelmente desligado da luta de classes e da práxis revolucionária. Tirando o marxismo da classe trabalhadora, a quem ele verdadeiramente pertence, ele se transformou em mais uma teoria na prateleira epistemológica da intelectualidade resignada a viver numa sociedade de miséria e divida em classes.

Por outro lado, mais de trinta anos sem revoluções no período que compreendeu a restauração capitalista na China, Rússia, leste europeu e em dezenas de países onde a burguesia havia sido expropriada serviram como combustível para todas as formas de negação do marxismo: seja por sua rejeição integral, seja por sua assimilação para uma passividade conformada.

Isso ultrapassou em muito apenas os muros da academia e se tornou a regra mesmo entre as organizações políticas de esquerda, inclusive as que se reivindicam marxistas ou revolucionárias. De uma teoria, programa e estratégia para vencer o capitalismo, o marxismo se transformou nas mãos dessas correntes políticas, seguindo o trágico exemplo do Partido Social Democrata Alemão ou o Menchevismo no início do século XX, em um verniz de esquerda que mal consegue esconder o pacifismo, a adaptação ao Estado burguês, a estratégia da conciliação de classes e de busca por pequenos espaços por dentro do regime político que jamais são colocados a serviço de uma luta revolucionária conduzida pelos trabalhadores.

A esquerda se adaptou a uma atuação sindical economicista e rotineira, e dentro dos parlamentos à “miséria do possível” de tramitar leis, CPIs e outras ações parlamentares sem transformar dos seus mandatos espaços para construírem verdadeiras tribunas do povo, denunciando o que ali acontece, utilizando como ponto de apoio para a organização e atuação dos trabalhadores de forma independente e com uma perspectiva de derrubada desse regime político.

Quando nós do Esquerda Diário, do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) e da Faísca nos propusemos a colocar de pé um grupo de estudos marxistas dentro da UERJ, a nossa perspectiva é de um enfrentamento teórico e prático não apenas contra a academia e as ciências supostamente “isentas” criadas pela classe dominante, mas também contra esse pseudo-marxismo domesticado e a serviço da passividade e do pacifismo. Para nós o marxismo é uma arma imprescindível na luta revolucionária, e nosso grupo se propõe a ser um espaço para que tomemos essa arma em nossas mãos e a afiemos com o máximo rigor para os nossos combates.

A UERJ não é uma universidade qualquer: diferente de tantas universidades públicas do país, ela abriga entre seus estudantes milhares de trabalhadores e filhos de trabalhadores. É uma universidade negra, tendo sido a primeira a implementar cotas no país. Os ataques brutais que vem sofrendo por parte do governo de Pezão são emblemáticos de um momento de aguda crise econômica do estado e do país, uma consequência direta da crise capitalista mundial que tem início com o estouro da bolha imobiliária americana em 2008.

A disposição de luta e resistência dos trabalhadores (incluídos aqui os docentes, que são também trabalhadores apesar das divisões que persistem entre as categorias de docentes e técnicos-administrativos) e estudantes da UERJ tem se mostrado imensa ao longo dos últimos anos. Mas a crise da universidade não pode ser resolvida dentro dos limites de seus muros, nem sequer dentro dos limites do estado do Rio, justamente pelo seu caráter e sua ligação profunda com a crise econômica nacional e mundial.

O marxismo não é uma teoria para ficar guardada em livros e nem em currículos acadêmicos. Não serve para enfeitar os lattes dos que se acostumaram a viver nesse mundo. Ele deve estar a serviço da luta da UERJ, colocando a perspectiva de uma saída revolucionária para essa universidade e o conjunto dos trabalhadores. No ano em que se completa o centenário da revolução russa, queremos inaugurar uma nova tradição nessa universidade, que é a de trazer de volta para esse espaço o marxismo como uma ferramenta viva e pulsante a serviço das lutas. Do combate intelectual e teórico, da apropriação do materialismo dialético como forma de compreensão da realidade aos combates cotidianos da luta de classes.

Com essa perspectiva convidamos todos a somarem forças conosco e participarem da primeira reunião do Grupo de Estudos Marxistas da UERJ nessa segunda-feira, às 18h, na sala 9059, no nono andar do campus Maracanã da UERJ. Veja aqui o evento no facebook e a página do Grupo de Estudos. Iniciaremos nossos estudos com o debate do texto “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”, do dirigente revolucionário russo Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido como Lenin. O texto está disponível aqui.

A escolha de Lenin não é tampouco causal: um dos maiores revolucionários do século XX, foi uma das mentes mais brilhantes do século e um dos maiores responsáveis por ligar o marxismo a ação revolucionárias dos operários e camponeses russos, o que levou a que pela primeira vez na história os trabalhadores tomassem o poder em um país inteiro. Sua rejeição no meio acadêmico (e inclusive em muitas organizações da esquerda) é um complemento à busca por assimilar Marx como um "economista" ou "filósofo", extraindo-lhe o teor revolucionário que é a essência de sua teoria, seu programa e sua estratégia. Trazer Lenin de volta a nossos estudos faz parte da essencial tarefa de dar vida ao marxismo em nosso tempo.




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