Teoria

COLÓQUIO MARX E ENGELS

Colóquio Marx e Engels: segue o debate sobre revisionismo historiográfico

No segundo dia de Colóquio, segue a discussão sobre o revisionismo historiográfico em mesa redonda, contando com a participação de Romulo Costa Mattos (PUC-RJ) e Tatiana Silva Poggi de Figueiredo (UFF). O debate intitulado "O revisionismo na historiografia brasileira e internacional", contou com elementos nacionais e internacionais, em diferentes tempos históricos.

quinta-feira 16 de julho de 2015| Edição do dia

No segundo dia de Colóquio, segue a discussão sobre o revisionismo historiográfico em mesa redonda, contando com a participação de Romulo Costa Mattos (PUC-RJ) e Tatiana Silva Poggi de Figueiredo (UFF). Confirmados para participarem da mesa, Felipe Abraches Demier (UERJ) e Igor Gomes Santos (UFF) não puderam comparecer. Ainda assim, o debate intitulado "O revisionismo na historiografia brasileira e internacional", contou com elementos nacionais e internacionais, em diferentes tempos históricos.

Romulo Mattos contribuiu com a temática das reformas urbanas do ex-prefeito carioca, Pereira Passos, na Primeira República brasileira. Sua exposição partiu da contraposição entre o entendimento do espaço como instrumento de controle da burguesia, pensado por Engels e expresso na historiografia dos anos 80, e os trabalhos revisionistas de André Azevedo, principalmente, e de Maria Isabel Lenzi.

Para o intelectual, de acordo com a historiografia dos anos 80, essas reformas no Rio de Janeiro, que se deram por meio da demolição de mais de 2 mil prédios, agravaram a vida da população pobre e geraram um custo social elevado. Tratou-se de uma política de segregação espacial e de retirada das camadas populares do centro histórico da cidade, ligada à especulação do solo urbano e a um processo "civilizatório", ou seja, de exclusão de práticas sociais tidas como ultrapassadas.

Não só a classe trabalhadora foi forçada a deslocar-se às regiões mais afastadas e precárias, como teve os serviços (água, esgoto) encarecidos e pouco acessíveis.

A historiografia revisionista, dos anos 2000, a qual Romulo problematiza, apresenta aspectos de descaracterização das classes sociais, a partir de uma omissão à classe trabalhadora, assim como argumentos de negação ao processo de exclusão dessas camadas sociais. Assim, Maria Isabel Lenzi refere-se aos trabalhadores, alvo das reformas, como "menos favorecidos". Por sua vez, André Azevedo propõe uma visão organicista da cidade e conclui que, no lugar de excluírem as camadas populares do centro da cidade, as reformas urbanas de Pereira Passos promoveram uma interligação conservadora do centro aos subúrbios, sendo, portanto, uma integração urbana. Isso porque Azevedo parte da premissa de que, habitando as regiões periféricas, os trabalhadores frequentariam o centro da cidade e levariam a espécie de "civilidade" da nova urbanização a suas áreas de origem.

Entretanto, Romulo desmonta essa tese pela simples constatação do atraso da urbanidade nos locais de habitação dessa população, onde faltavam esgoto, iluminação, calçamento, etc, e escancara a aliança do Estado, no período, à acumulação privada de capital. As reformas urbanas, enquanto, por um lado, representaram a miséria da vida dos trabalhadores, por outro, consolidaram o triunfo da burguesia ligada ao comércio, aos transportes e à construção civil. Por fim, para explicar o inócuo projeto de construção de habitações populares de Passos, o intelectual esboça um contexto histórico em que a principal crise era a moradia e, por isso, temia-se uma revolução do proletariado.

Por sua vez, a pesquisadora Tatiana concentra sua discussão no revisionismo, dos anos 90 e 2000, em relação ao fascismo. Esse processo, embora defendido como inédito por seus autores, ancora-se, para a professora, nos estudos da historiografia da Guerra Fria, nos anos 60 - período marcado por lutas e uma escola acadêmica crítica. Essa historiografia tem como principal expressão Hannah Arendt e suas reflexões acerca de totalitarismo e revolução. Para ela, esta última seria definida pela sobreposição do político ao social. Assim, revoluções seriam transformações políticas, culturais, mentais, mas não envolveriam o social, dado que a participação popular e a igualdade comprometeriam a liberdade e a pluralidade. Nesse sentido, o fascismo é entendido como revolucionário, promotor de um novo homem, inovador em estilo e retórica. A autora reflete a capacidade de, a partir de uma caracterização do isolamento do homem moderno, devido ao qual o indivíduo não se sente pertencente à comunidade política, o fascismo reconstruir os laços entre esse homem e a comunidade, gerando consentimento das massas.

Os autores contra os quais Tatiana argumenta, sociólogos estadunidenses e britânicos, ancoram-se nesse pensamento para localizar o fascismo como uma terceira força, alternativa ao capitalismo e ao comunismo e, por isso, inédita. Fazem também uso do termo revolução e esboçam sua tradição conservadora e nacionalista que, comprometida com o todo do corpo social, supera os conflitos e a violência e alcança uma sociedade una. A violência, aliás, seria direcionada apenas aos "inimigos da nação". Desse modo, embora tratem de um consenso das massas, como Hannah, esses revisionistas defendem um tipo diferente, mais ativo, consciente do Holocausto, por exemplo, e focam no poder revolucionário dos elementos culturais do fascismo. Este seria como uma religião civil, capaz de nacionalizar a cultura e domar a desordem e o caos. Nesse sentido, também cumpre o papel de reconectar os indivíduos.

Tatiana finaliza a discussão problematizando, principalmente, a tese do consenso das massas, dado que se trata de um período desprovido de espaço para a oposição - os próprios revisionistas admitem certo nível de coerção - e impactado pelo medo. A intelectual questiona: "se calar por medo é consentir?".

Ao final, entrevistamos Romulo Mattos a respeito do papel desses revisionistas das reformas urbanas de Passos frente aos conflitos atuais por moradia no Rio de Janeiro. O autor respondeu: "Quando esse revisionismo, que se traduz numa revisão conservadora da História, hostil à ideia de luta de classes e a conflito, bate muito na tecla da melhoria das reformas urbanas para a cidade e esquece o custo social e os conflitos inerentes a uma reforma urbana, logicamente isso é um desserviço público à luta [por moradia]. Essa questão no Rio de Janeiro atual é seríssima e dramática. A mídia já trata essa questão da luta por moradia de forma muito estereotipada, bem simplista, as novelas já estão interessadas na questão das lutas da moradias - teve uma novela da Globo das 20h que já apontou o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, claramente de forma estereotipada. Então, digamos assim, esses autores acadêmicos que estão mais conectados com esses interesses pró-reforma do que com os interesses de resistência a essa modernização do espaço carioca prestam um desserviço à luta política, não tenha dúvida. Ou seja, eles ironicamente não estão desconectados da luta social, só que eles estão do outro lado dela."




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