Cultura

GRUPO DE TEATRO LANÇA SUA DRAMATURGIA EM SP

Coletivo de Galochas: uma dramaturgia das lutas, das ruas, da resistência

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 15 de outubro| Edição do dia

O Coletivo de Galochas está com sete anos de estrada, e faz parte do rico cenário do teatro de grupo de São Paulo, composto por grupos que estão fora do circuito comercial e procuram na sua arte algo mais do que uma mercadoria palatável para o entretenimento e a distração de espectadores que vão aos teatros atrás de lazer.

Não estão nos grandes teatros, nem no circuito supostamente "alternativo" de lugares como a Praça Roosevelt, que muitas vezes fazem pouco mais do que reproduzir em menor escala a lógica do teatro comercial.

O lugar do Coletivo de Galochas, desde o princípio, foi o da contramão do teatro que quer apaziguar as contradições de uma sociedade dividida em classes. Um teatro de guerrilha, que em pouco tempo fincou suas raízes nas lutas sociais, em particular nas ocupações urbanas que lutam pelo direito à moradia em São Paulo.

E faz todo o sentido que o tema de sua primeira peça autoral, “Piratas de Galochas”, nascida em 2011, seja justamente o da ocupação, trazendo os piratas como uma alegoria aos movimentos de luta e resistência que têm hoje na ocupação de propriedades o seu principal método de combate pelos seus direitos elementares e contra uma sociedade fundada na exploração e na miséria. Veja abaixo um trecho da peça apresentada no lançamento:

Piratas de Galochas

“Piratas de Galocha” representou um primeiro movimento decidido do grupo rumo à sua identidade como um teatro vinculado à luta. Em suas palavras, “o intuito do grupo era romper com os muros da academia [sua primeira montagem havia sido feita dentro da USP] e levar a pesquisa em torno do espaço a algum lugar onde realizá-la fosse vital, achar um local onde agir teatralmente gerasse uma consequência concreta sobre essa disputa, produzindo material crítico e formas de ação”. Assim, o local onde se desenvolveu a criação da peça foi a histórica ocupação da Prestes Maia, então a maior ocupação urbana de um prédio no país, localizada no centro de São Paulo e onde moravam mais de 200 famílias.

“Só mais um”

A “Revolução das Galochas”, segunda peça autoral do grupo, marca um momento importante não apenas na história dos galochas, mas também do país. A peça foi concebida em meio ao histórico levante de junho de 2013, quando milhões foram às ruas e colocaram de joelhos governos de diversos partidos da classe dominante. O grupo, como não poderia deixar de ser, saiu do seu retiro criativo para tomar parte nos protestos, e deles se alimentou para sua dramaturgia. Tomando como insipiração o romance “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, os galochas acrescentaram o calor de junho para criar essa obra.

A peça é sem dúvida um dos mais contundentes exemplares de agitprop (agitação e propaganda) dos últimos tempos, colocando discussões sobre a exploração dos trabalhadores, os vários métodos de dominação da burguesia, a crítica às burocracias sindicais e até mesmo uma aula sobre como fazer molotovs; como diz o grupo, é uma “peça-panfleto”. Na peça, os “comuns” se organizam para se insurgir contra o “esquema” dos patrões e governos contra os trabalhadores. Não se trata de um personagem em conflito, mas de colocar em cena o conflito de classes representado pelos “comuns” e o “Esquema”, numa peça de tipo épico que coloca em primeiro plano não personagens individuais, mas a dinâmica social da luta entre as classes. Uma distopia não tão distante, com um grito de luta e resistência que ecoava em cada um dos “comuns” que assistia a peça. Mais uma vez, os palcos dos galochas foram as ruas e praças de São Paulo.

Bella Ciao / Arruaça

Mas no momento do pós-golpe o grupo sentiu necessidade de mudar sua perspectiva, deixando a agitação de lado para procurar compreender e apresentar o “mau lugar” em que o capitalismo nos coloca. Em um mundo tão doentio que o suicídio e a depressão se tornaram fenômenos de massas, os galochas trazem nosso triste presente à cena, dizendo que “a distopia pode ser qualquer lugar. Pode ser aqui mesmo e agora. Pode ser apenas uma tamanha falta de perspectiva que o suicídio transparece como um ato de resistência”. Para colocar em cena essa distopia dura e bruta do agora, o grupo optou por tratar do tema com a forma dramática “a partir de um de seus mais éticos compromissos: com a transparência.”

"Mau Lugar"

Sempre com o pé no presente, na luta contra a desigualdade e a miséria, os galochas decidiram tratar do tema dos refugiados, uma barbárie constante do capitalismo e que hoje atinge seu momento mais dramático na história. Recusando-se a fazer “mais do mesmo”, os galochas deram-se novos desafios, de falar de uma realidade de opressão e de uma história de um povo que nos é escondida pelos de cima, pelos donos do “Esquema”. Os palestinos foram os protagonistas do “Cantos de Refúgio”, a primeira peça infantil do coletivo, que realizou um amplo processo de pesquisa – documentado em seu recém-lançado livro – para poder contar a luta dos palestinos e de todos os refugiados no capitalismo. Nas palavras dos galochas:

“Conhecemos muitos palestinos ao longo desse processo. Muitos deles vivem na Ocupação Leila Khaled, mas nem todos. Muitos deles viviam em situação de refúgio na Síria, mas nem todos. Muitos deles são muçulmanos, mas nem todos. A verdade é que o povo palestino é de todos os jeitos, está em todos os lugares e quer contar a sua história. Basta ter cinco minutos, fazer uma pausa para o chá e ouvir. Foi ouvindo essas pessoas, desde crianças até idosos, que conhecemos a Palestina. Conhecemos a Palestina, muitas vezes, pela boca de palestinos que nunca estiveram lá; parece estranho, mas não é. Três gerações que sentem saudade de uma terra que nunca viram. Querem voltar para o lugar de onde nunca saíram. ’O direito de retorno’. Aprendemos logo que esse é um dos valores mais caros para um palestino.”

"Cantos de Refúgio"

Há muito que poderia ser dito sobre o incrível trabalho que o Coletivo de Galochas vem realizando – contra todas as probabilidades e todo um mundo que simplesmente não quer que existam grupos “incomodos” como os galochas – ao longo de seus sete anos de existência. Pode-se aprender com seu rico processo de trabalho coletivo e tão divergente das estruturas hierárquicas e alienadas da “criação artística” capitalista. Pode-se aprender com sua busca permanente por novos espaços, parceiros, linguagens e lutas para retratar. Pode-se aprender com sua resistência incansável diante de tantos obstáculos para colocar de pé uma arte independente e de resistência. Pode-se aprender com sua disposição para procurar novas formas de criar, olhar e sentir, sem que isso jamais os faça recuar um milímetro do lugar que escolheram para a sua arte: do lado dos explorados e oprimidos na trincheira da luta de classes. Espero estar lado a lado dos galochas para poder falar e trocar experiências com eles sobre tudo isso e muito mais. Nosso caminho, o dos “comuns” contra o “Esquema”, é longo e tortuoso. E nessa luta, o Coletivo de Galochas poderá ser encontrado nas primeiras fileiras de combate.




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